sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Weed – 135 anos __________Publicação 17

 

Na intenção de preservar a história em peças tangíveis, agregando conhecimento de forma prazerosa e lúdica, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC),  apresenta o relato da fatigante tentativa de restauro de uma Weed, fabricada em 1877.

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas em suas publicações,  para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

Adquiri a máquina Weed, modelo Family Favorite, na Feira do Brique de Porto Alegre, a qual, apesar da macabra aparência, apresentava a ilusão de “quase” completa.

Esta indústria iniciou em 1860 (Nashua, New Hampshire) e, após 1865 instalou-se em Hartford, Connecticut. Os modelos Family Favorite, tiveram sucesso de vendas entre 1870 e 1880, com produção de mais de 300.000 máquinas, grande parte exportada para a Europa.

Este raro exemplar que resgatei, certamente chegou ao Brasil na bagagem de algum antigo imigrante europeu.

Weed

A absoluta raridade do exemplar justificou a compra, porém seu estado era deplorável. Ao analisar com mais desvelo, comprovei que ela esteve sujeita às intempéries por décadas, o que ocasionou decorrente corrosão geral. Tornou-se evidente que lhe foi aplicado jato de areia e também ácidos corrosivos (nocivos e proibitivos), na condenável intenção de “desenferrujá-la”.

Tais procedimentos promoveram sólida união entre suas partes móveis, tornando-a um monólito escultural. Além disso, dezenas de peças estavam tão deterioradas que apenas sinais restavam. Seu aspecto exterior apresentava milhares de rígidas pequenas “verrugas” de óxido de ferro, com difícil remoção e, quando possível, permaneciam as sequelas “cáries”.

Possuía duas comprometedoras rachaduras abertas, uma na estrutura superior e outra no túnel do eixo vertical. E todas suas peças mecânicas antes “móveis”, apresentavam-se como se estivessem fundidas juntas.

O lendário Ulisses, rei de Ítaca, que utilizava ferrugem para tratar feridos de guerra, estaria plenamente satisfeito...

Mesmo sob tais obscuras contingências, submeti-me á impossível tarefa de desmontar o possível para intentar melhorar sua configuração.

Weed 01 Rachadura aberta

Durante vários dias empreguei sucessivas aplicações de desengripante, banhos térmicos, impactos físicos, lixamento,.. no intuito de “encontrar” os parafusos camuflados pela corrosão..

Quando as tarefas são muito cansativas e sem vislumbre de sucesso, o “gênio do mal” passa a sussurrar palavras de desânimo em meus ouvidos, numa dialética platônica entre ele e meu inseparável, dileto e capaz “anjo da guarda”.     Este, sempre incentivador, acompanha-me insone pelas madrugadas frias, encorajando-me e até aplicando inexplicáveis forças celestiais para desemperrar peças e obter êxito nas impossíveis empreitadas.

Nos limites da paciência (teimosia?) consegui remover várias peças, para tentar “limpá-las” em separado, porém alguns parafusos “decapitavam-se” com os esforços de torção. Outras peças apresentavam tal estado de corrosão que impediria até a própria recolocação. Assim como a limpeza abrasiva, que certamente alteraria suas dimensões.  As roscas dos parafusos e respectivas “fêmeas” nas peças, após restauradas, dificilmente “casariam” novamente.

Weed 13 Peças removidas, manopla da embreagem tampas da lançadeira já recuperados

Como a estrutura da máquina é de aço com baixo teor de carbono, o que lhe confere uma fragilíssima resistência à flexão, semelhante a uma pequena barra de giz, “todo o cuidado é pouco”... é pouco.  Além disso, dificilmente é soldável, pois raras ligas são compatíveis, necessita aquecimento prévio e, graças a tensões residuais em sua fundição, facilmente altera sua conformação.   Mas possui vantagens: tal liga metálica permite lixamento, torneamento e furação com muita facilidade.

Com as peças mergulhadas em removedor de oxidação (Remox) por 24 horas, dediquei-me à recuperação das rachaduras.

Weed 02 Adequação para solidarizar

Realizei um desbaste parcial na estrutura superior, fiz um orifício atravessando as duas partes, apliquei resina bicomponente (Araldite) entre elas e coloquei um parafuso forçando a união das partes.

Weed 03 Parafuso e porca colocados

Após o devido aperto, no dia seguinte, a cabeça e a porca foram parcialmente desbastados, para o preenchimento e conformação com massa bicomponente (Durepoxi). Tratamento semelhante foi dispensado à outra rachadura (túnel do eixo central), com colocação interna de um “canudo” de aço inoxidável.

Weed 05 Árduo trabalho, com calços de madeira para manter a altura e alicate de pressão para assegurar alinhamento

Mas, após dois dias na “prensa”, tive a desagradável surpresa: Credne, o ferreiro deus Celta, omitiu seu apoio e, as tensões desenvolvidas provocaram outra grande rachadura, além de desalinhar as anteriores...  

Assim, caiu toda a estrutura frontal, dificultando o já impraticável restauro. O “gênio do mal” teria implantado seu governo na almejada realização. Todas as peças foram então jogadas em uma caixa, acervada como raríssima reserva técnica.  Um triste fim para a nobre raridade.

Várias noites após, enquanto eu dormia, o meu anjo da guarda voou até uma metalúrgica e vasculhou os diferentes varões de solda MIG, até encontrar uma liga metálica inoxidável “possivelmente” compatível com o material da máquina.  Não foi difícil convencer-me em recomeçar a árdua faina.

As partes antes adesivadas, foram limpas em escova rotativa de aço, realizados chanfros em bisel (oblíquos), para preenchimento com a solda metálica.  E, para evitar incorrer em tensões térmicas, deixei espaços (0,2mm) nas três rachaduras existentes, características em detrimento da estética, mas derradeira tentativa de reestruturação.

Levei a “paciente” até a metalúrgica e, depois de vários experimentos, confirmamos que a única liga compatível seria aquela... 

Weed 06  Soldas: (1) Estrutura frontal superior; (2) Túnel do eixo vertical; 3) Estrutura frontal inferior

Weed 08Como as soldas cobriram apenas os chanfros, os espaços remanescentes foram preenchidos com massa (Durepoxi).

 

 Weed 09   Weed 12 

Mancais (alojadores do eixo virabrequim), patinha e reguladores de tensão recuperados

 

Weed 10 O eixo virabrequim, recolocado e a posição da curiosa embreagem

As demais peças foram sendo reconduzidas aos devidos locais, outras foram-lhe adaptadas de reservas técnicas, assim como executada a base de madeira, para servir-lhe de apoio, tentando assegurar a estética mais aproximada possível de sua originalidade, embora mantendo suas indeléveis marcas do tempo e, principalmente a demonstração de seu irremediável padecimento submetido a anteriores mãos desabilitadas.

Weed 14  Weed 15

Assim, mais que um frustrado restauro, todo o trabalho resultou em formal homenagem, um atestado existencial de sua presença na história do desenvolvimento  mecânico deste importante instrumento para a evolução da humanidade.

À esta padecida e centenária Weed de 1877, sinto-me honrado em poder permitir-lhe mais muitos aniversários.

Prof. Darlou D’Arisbo – novembro de 2012

6 comentários:

  1. Formidável, belissío exemplar
    incrível resultado de seu restauro
    apreciei muito como dica de evitar tais produtos corrosivos,
    vou apresentar relato como procedeu passo a passo aos familiares assim evitemos estragos por aqui!!!

    Grande abraço de uma apreciadora de seu site...Museu virtual

    ResponderExcluir
  2. Mais uma bela recuperação! Bravo!

    ResponderExcluir
  3. Trabalho de mestre com algumas conotações históricas que enriquecem a leitura. Grande trabalho!!!

    ResponderExcluir
  4. Grande trabalho!!! Gosto do jeito que descreve as etapas com os personagens e a lição de história.Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  5. Não canso de ler a história da Weed, ainda mais depois de conhece-la pessoalmente no Museu!

    ResponderExcluir
  6. parabéns pelo belo trabalho... admiro muito seu respeito e afeto por peças que muitos jogariam fora.... parabéns!!!

    ResponderExcluir