domingo, 17 de fevereiro de 2019

O restauro mais difícil dos últimos 40 anos - Publicação 33



 Para ampliar as fotos basta clicar sobre elas.

No início de 2018, uma gentil senhora contatou-me para saber se eu poderia restaurar uma antiga Clemens Muller que ela havia adquirido de um vendedor de pastéis, na estrada para Bragança Paulista.  Pelas fotos recebidas, parecia estar completa, embora emperrada.
Nosso acervo possui dezenas de Clemens Müller e mais algumas em reserva técnica (descartadas para doação de peças), o que insinuava pleno sucesso neste restauro. 
A máquina quando recebida

Dias depois recebi a máquina e, ao verificá-la, me preocupei, pois a realidade apresentava-se bem pior do que na foto, pois além da generalizada ferrugem, apresentava sinais de ter passado por incêndio.   A base de madeira havia sido trocada e o logotipo estava corroído, sinais factíveis que complementariam a hipótese.
Logotipo corroído por calor 

Para abrir a tampa lateral fez-se necessário romper os parafusos, pois eram grosseiramente adaptados e, ao verificar a parte interna, observei que houve infiltração de água por longo tempo, com sério comprometimento dos eixos (horizontal e vertical) e de suas engrenagens cônicas, por profunda oxidação.
Posterguei a remota possibilidade de sacá-los e dediquei-me a retirar o eixo do volante. 
Ele assemelha-se a um “corpulento” pino, (compr. 70mm, diâmetro aprox. 13mm) levemente excêntrico em sua metade, para permitir regulagem na distância entre as engrenagens mães do acionamento. 

Mas o teimoso eixo negou-se a mexer um “mícron” sequer e constituiu um grande obstáculo para continuidade.  Por dois dias, todos os procedimentos possíveis e usuais foram tentados em vão.   Acostumado a velhos e teimosos sistemas mecânicos, empreendi “terapias” mais agressivas.  Realizei furos longitudinais no bloco, rentes ao eixo e injetei desengripante. Apliquei impactos dinâmicos com punção em seu centro interior, choques térmicos com maçarico a gás,...
Os resultados negativos frustraram a continuidade e a primeira desistência passou a ser possível, frustrando toda a intenção de ressuscitá-la.

Tentativas de remoção do eixo do volante
Apenas no segundo dia, o obstinado eixo cedeu à nossa pertinácia. Inicialmente um décimo de nada, suficiente para o "arauto anjo do bem soas as trombetas". E, de ínfimo em ínfimo, ele deslizou, abandonando décadas na sua rígida morada,  deslocando-se algumas insignificantes frações de milímetros, a cada dezena de robustas pancadas...
Com o ânimo revigorado, planejei a continuidade. O eixo saiu, contrariado, arrastando fragmentos do bloco.
O eixo já retorneado ao lado do volante, engrenagem maior e manopla

Lembro do que escrevi na Postagem 21:
(...) As peças parecem manifestar um patente e curioso humor. Por vezes, recusam-se a ser consertadas. Encravam seus parafusos, emperram suas engrenagens, suas madeiras atraem térmitas cupins, rompem-se, deixam-se cair... Outras vezes, ao contrário, oferecem-se emitindo sons rangidos, reflexos de luz... Vivem seus instantes de agudas crises depressivas, ou momentos de alegria e prazer, tentando aos seus modos, as mais inacreditáveis demonstrações da centenária existência (...).

No sentido de pausar o estresse do extenuante capítulo, passei a dedicar-me à base de madeira.
Embora não original, sua parte maior foi executada em peça única de madeira nobre, que mereceu ser plenamente preservada.  Estava rompida (quebrada) na região frontal e possuía "inquilinos" residentes na lateral. São "brocas da madeira" - pequenos besouros em fase larvária - cujos orifícios foram limpos e preenchidos com cavilhas, solidarizadas com adesivo vinílico.


Base rompida na parte frontal
Dois dos quatro habitáculos das larvas de "broca da madeira"
Ao abrir sua parte traseira, uma insólita surpresa: estava afixada internamente com dois pedaços de parafusos (uns 35 mm), destes utilizados para fixar elementos metálicos, (originalmente com porcas rosqueadas) e sutilmente ali introduzidos..  
Trechos de parafusos usualmente utilizados para fixação metálica
Suas partes, após limpas, foram novamente encaixadas e solidarizadas com adesivos vinílicos apropriados.  O conjunto recebeu sucessivos lixamentos, aplicação de selador, lixa fina e enceramento.

Retornando ao bloco (parte superior da máquina), concluímos pela absoluta inviabilidade de reutilização.  Seus dois eixos e engrenagens estavam como fundidos, sem qualquer possibilidade de retirada.
O eixo seccionado para reutilização da engrenagem secundária
Nos restauros, evitamos a instalação de peças não pertencentes ao conjunto original.   
E, como o bloco (carroceria) estava inutilizável, a segunda possibilidade de desistência se fez presente e a decepção cobriu o intento.
Mas ainda antes de contatar a proprietária para comunicar o desolador insucesso da empreitada, fui vasculhar na nossa reserva técnica, onde encontrei uma Clemens Müller similar, que ali estava descartada há 40 anos, tendo apenas o corpo e eixos superiores perfeitos.

Nossa ilustre doadora, após merecida limpeza
Novamente o propósito do possível êxito aplacou a renúncia e optamos pela persistência.  Com a autorização da proprietária e alguns ajustes, adaptamos naquela “carroceria” a parte mecânica superior possível de resgatar da original.

Passamos a dedicar atenção ao mecanismo inferior, cuja aparência era não menos lastimável.  Mas, com penoso trabalho, teve todas as peças retiradas, trabalhadas (desoxidadas, retorneadas, polidas, ajustadas,...) e reinstaladas. 

Além de firmemente solidarizadas por oxidação, havia alguns aracnídeos moradores

O mancal excêntrico do eixo vertical, acionador da biela, contrapinos de fixação, cursor da lançadeira, eixo de deslocamento, reguladores, fixadores, biela dos dentes impelentes, molas, limitadores, parafusos (e roscas retorneados), perfis de deslizamento, charneira cônica,... foram, um a um, constituindo o complexo mecânico inferior, concluído e funcionando a contento. 

O mecanismo da fronte apresentava-se análogo ao sistema inferior em sua patente inviabilidade. Mas com partes adaptadas e recebidas a partir da doadora, consegui um razoável desempenho.
O eixo da agulha, solidamente emperrado, com sua abraçadeira rompida

Muitas outras peças foram também retorneadas, polidas e acomodadas. A manopla de acionamento, em louça branca, teve seu eixo e articulação restaurados, permitindo ser dobrável, para transporte ou guarda, como era originalmente. 
As hastes suportes de carretéis, parafusos de fixação do bloco, pinos fixadores,... após desoxidação, limpeza, retorneados ou com suas roscas refeitas. Assim como calcador (patinha), dentes impelentes, tampas da lançadeira, carretilha e lançadeira, tiveram similar tratamento.

Alguns retoques de pintura (quase imperceptíveis) foram realizados, sempre preservando o aspecto estético de quando na época de sua atividade.
Optamos por uma agulha adaptada (torneada), considerando que as específicas para a Clemens Müller são atualmente fabricadas na República Theca e muito onerosas.
O autêntico emblema dourado também foi um regalo da doadora, já que o anterior estava flagrantemente prejudicado.
A Clemens Muller renascida após árduo restauro

Embora tenhamos casos de desistência por absoluta inviabilidade, este será registrado como o restauro mais árduo de nossa história e, paradoxalmente,  que nos contemplou com o gratificante final feliz.


 A Clemens Muller, exibe sua imponência com sonoro dinamismo, para regozijo de todos os que sabem admirar sua centenária história, passada nas mãos dos tantos que a manusearam e que não mais pertencem ao nosso mundo terreno. 


Nesta postagem, a nobre homenagem à Sra. Marta, proprietária da maquininha, 
pela sua confiança em nossos humildes préstimos de restauro. 

Darlou D'Arisbo