sábado, 18 de agosto de 2012

Manuais e Propagandas - Publicação 12

Nesta 12ª publicação, apresentamos alguns impressos antigos (manuais de utilização e propagandas de máquinas de costurar).

Normalmente, os manuais de utilização das máquinas já vinham traduzidos para o português (clássico, da época). E, como as senhoras não dominavam as interpretações técnicas, os livretos eram ricamente ilustrados, para ajudar a compreensão.

Os desenhos, originalmente executados à mão (bico de pena e tinta nankim) ou por composição fotográfica, procuravam elucidar os procedimentos para melhores resultados de utilização.

Singer:

 
A capa do manual da singer (mod 27K e 28K – 1906) 
já apresentava o desenho “radiografado” de toda a sua mecânica interna

 
A ordem de passagem da linha na Singer Class 24 é minuciosamente numerada

Vesta:

 
As “Instrucções de uso” da Vesta (L. O. Dietrich / Altemburg, Alemanha – 1910) 
insinuam grande produção de peças de roupa.

 
Na mesma, o procedimento para colocar o carretel na lançadeira 
é pormenorizado ao extremo, nos limites do hilariante.

 
 …assim como todas as explicações constantes no manual da Vesta


“ Acumulador de Potência”:

Algumas curiosidades foram publicadas em jornais do fim do século XIX, como o “Acumulador de força Muscular”



Em novembro de 1885, “Sigg. Dohis e Leoni” inventaram um sistema mecânico denominado “acumulador de potência”. Consistia em uma potente mola em espiral, acionada pelos pedais, que tensionava-se, movimentando a máquina por caixa de engrenagens por algum tempo. Obviamente a energia era acumulada assim como os relógios antigos à corda.

Standard:


No início do século XX, publicações apresentavam a revolucionária bobina giratória, então adotada pelas máquinas “Standard” (Cleveland / USA), invenção mecânica que encerrou a fase da lançadeira. Observe-se, à direita, os fabricantes das máquinas convencionais (com lançadeira) desabando.


Davis:


A industria Davis Sewing Machines, procurava transmitir o prazer de usufruir sensação de serenidade, utilizando vestimentas de notória beleza, confeccionadas com as máquinas Davis…


White:


A White Sewing Machine Co. (Cleveland/USA) apresentava uma propaganda exuberante, com desenho colorido e dissimulados símbolos de sociedade secreta, No centro, senhoras alegres e bem trajadas demonstravam as qualidades da máquina.


Peugeot:


Em 1867, a Peugeot (pioneira francesa na fundição de aço) iniciou a produção de máquinas de costurar e não cessou mais sua atividade de costurar até 1936, para se lançar na construção de automóveis.


Junker & Ruh:
 
A Junker & Ruh (Carlsruhe, Alemanha) em 1880, divulgava sua produção de 30.000 unidades no ano e ufanava-se de possuir sua própria fundição.



Em 1877, George Whight, patenteou e comercializou na Inglaterra uma Junker & Ruh (batizada de Columbia), com curioso sistema de transmissão por corrente.


Stoewer:



A alemã Stoewer (Nähmaschinenfabrik Bernhard Stoewer), fundada em 1858, fabricante também de bicicletas e máquinas de escrever, orgulhava-se de possuir 1.000 empregados e produzir 18.000 máquinas de costurar no ano de 1883.



Willcox & Gibbs:



A Willcox & Gibbs declarava que suas máquinas excediam vinte anos de bom funcionamento, o que comprovamos pois que nosso museu possui uma, fabricada em 1870, ainda com o mecanismo ativo, embora com folgas decorrentes pelo desgaste da idade: 142 anos!

A incontestável evolução da técnica e o aperfeiçomento dos sistemas, permitem hoje uma grande velocidade de produção, porém em detrimento daquelas seculares características de bem durável e essencial.

Prof. Darlou D'Arisbo
18 de agosto de 2012 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Calços e Percalços do Colecionador – Publicação 11

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

Nesta 11ª publicação, um inesperável relato episódico:

Retornando de viagem ao Chile e Argentina, com nosso motor home (www.felizmotorhome.blogspot.com), chegamos à sedutora Buenos Aires, a tempo de visitar a consagrada Feira de San Telmo (domingos, na Calle Defensa), onde ávidos garimpeiros encontram miríades de antiguidades.


Realmente, a colossal feira é indescritível pela quantidade e fantástica pela variedade, com bancas distribuídas em dez quarteirões pela rua ou em galerias. Porém, infelizmente, os preços acompanham a recente escalada inflacionária da Argentina.



Mas estes admiráveis detalhes compõem história para outro conto.

A competência deste relato reside a partir da aquisição de duas maquininhas infantis de costurar. Completas, dignas de compor nosso acervamento, embora carentes de parcial restauro. Fabricadas entre 1950 e 1960, com mecanismo metálico (ressalve-se: METÁLICO).



Embrulhadas em sacos plásticos e metidas num sacolão, juntamente com casacos, água, biscoitos,... com o qual seguimos nosso passeio à pé pelo centro histórico daquela capital. 
E, com o sacolão alçado no ombro, fomos já à tarde, visitar outros interesses próximos: museus, igrejas, ... 
Como o Palácio do Governo (a bela Casa Rosada), estava aberto à visitação, lá fomos contentes invadir os íntimos de trabalho da presidente Cristina.


A visitação é gratuita e disponível à qualquer turista que se submeta às longas filas e às aguardadas papeletas coloridas de senha.
E sem maiores dificuldades, ao adentrar ao palácio, passamos pelos detectores de metal, e o sacolão por uma esteira de Raio X, tal como nos aeroportos.
Mas nossa ingênua tranquilidade foi quebrada, pois que uma breve e surpreendente exclamação do taciturno agente fiscalizador, de olho no monitor, rompeu o silencio palaciano, seguida de sonora gargalhada:

“Yo pensé yá ter visto de todo en la tele, mas isto yo nunca he visto, mirem, maquinas de coser chicas !, que cosas vemos acá! ”

A partir do episódio, ficamos famosos, assuntados pela guarda presidencial, ao percorrer os meandros da Casa Rosada, com duas maquininhas de costurar num sacolão ao ombro. 


Esta súbita tangibilidade do invisível, revela mais uma inusitada face, um pontual e hilariante ato, dos tantos que colorem o nobre ato de colecionar e o fascínio da descoberta em cada busca.

As viagens abrigam investigação e pesquisa, elas nos aperfeiçoam: adicionam novos caminhos, alegrias, sabedorias, novidades, amigos, histórias e estórias. Levam-nos ao passado, ao presente e ao futuro. Alimentam o doce viço da alma. Impulsionam e resumem o motivo do árduo e fascinante deslocamento.

“O imenso prazer da chegada curva-se perante a majestade do percurso”.

Prof. Darlou D'Arisbo
15 de maio de 2012


sábado, 24 de março de 2012

Willcox & Gibbs – Publicação 10

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas em suas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

O MAMC, nesta 13ª Postagem apresenta o admirável desenvolvimento da indústria Willcox & Gibbs Sewing Machines, iniciada em 1850, a partir da criatividade e perseverança de um agricultor, residente em Rockbridge County, Virgínia.

Registros históricos citam que James Edward Allen Gibbs era um agricultor muito curioso, interessado no aperfeiçoamento de ferramentas, e que brincava com suas invenções nos intervalos das colheitas.

Mencionam que, partir da gravura de uma máquina de costurar Grover & Baker, vista em jornal da época, ele resolveu construir uma semelhante. Para tal, muniu-se de pedaços de madeira, um canivete e alguns acessórios agrícolas. A máquina, modesta e rudimentar, conseguia encadear pontos em tecidos, insinuando uma grosseira costura.


Máquina de James A. E. Gibbs

Em 1856, Gibbs observou criteriosamente uma pioneira máquina Singer, exposta em loja de Washington. A partir dela, idealizou profundas modificações, assim como o sistema de ponto cadeia, no qual cada descida da agulha produz uma alça, que é introduzida na anterior por um gancho rotativo, formando uma sequente corrente (cadeia).


Sistema de cadeia (gancho rotativo)

Tal método revolucionou o processo de costura, pois os existentes utilizavam lançadeira inferior com a segunda linha para completar o ponto.

Em junho de 1857, Gibbs conseguiu patentear um mecanismo mais elaborado, sempre mantendo o sistema de ponto em cadeia, com o tecido tracionado por pequenas rodas dentadas.

 Primeira patente (cortesia Sewalot)


1857 Máquina já industrializada (cortesia Mike Wolfgang)

No mesmo ano, já com uma pequena instalação industrial, fabricou e comercializou as primeiras máquinas.

As diminutas dimensões da máquina, sua eficiência e o baixo custo (metade do valor das demais) constituiram um grande sucesso comercial.


Patente de agosto 1858 (cortesia Sewalot)

A partir de 1858, a empresa prosperou e integrou seu filho Charles Willcox transformando-a em Willcox & Gibbs Sewing Machine Company.

Wilcox, também com característica engenhosidade, registrou várias patentes, como o tensor automático para a linha, executado em vidro; novo sistema de alimentação; redução de ruído mecânico,...

 

Funcionários em frente à JR Brown & Sharpe (1870)

Neste ano, Willcox & Gibbs contratou a indústria JR Brown & Sharpe de Providence, Rhode Island, para produzir as suas máquinas de costurar, com esmero e qualidade muito confiável, por ser consagrada fabricante de relógios de precisão. 


Montagem da W&G na JR Brown & Sharpe (1879)

Para comercializar suas máquinas, Willcox & Gibbs abriu um escritório na renomada Broadway, em Nova York, no ano seguinte.

Enquanto outros fabricantes, como a Wheeler & Wilson vendiam suas máquinas ruidosas e pesadas por Us$100,00, a Willcox & Gibbs, leve, funcional e silenciosa, era oferecida pela metade do preço (Us$50,00).



Além disso, sua máquina dispensava a tarefa do cansativo e intermitente preenchimento das lançadeiras inferiores, como todas as demais, pois que costurava apenas utilizando uma linha, com abastecimento superior.

Afora estas fundamentais qualidades, sua facilidade de utilização, simplicidade mecânica e alta confiabilidade, concorreram para o sucesso de vendas.

Logotipo da W&G (prateado)

Meses após iniciou a venda também em Coalbrookdale, Inglaterra, extraordinário polo comercial da época e onde começou a revolução industrial.

 

Propaganda distribuida em Londres

As agulhas específicas para as suas máquinas de ponto cadeia também foram patenteadas e especialmente produzidas.


(cortesia Sewalot)


Modelos para trabalhos específicos foram também produzidas, como esta “Type 200” para confecção de chapéus de palha


Algumas indústrias produziram cópias (cerca de 30 conhecidas autorizadas ou não) das Willcox Gibbs, assim como esta, com motorização elétrica, fabricada pela Edredge Sewing Machine Company.

Em 1862, a Willcox & Gibbs já possuía representantes nas maiores cidades da Inglaterra: Londes, Nottingham, Manchester, Leeds, Leicester, Birmingham, Luton...

Além destas, também em outras destacadas cidades européias: Glasgow, Paris, Milan, Bruxelas, Antuérpia...


W&G nº145336, fabricada em janeiro de 1870, acervo do autor

A partir de 1953, a empresa apresentou déficit e, em 1960 abriu uma fábrica em Orangeburg, Nova Iorque, adquirindo a Raybond Electronics, fabricante de sistemas de colagem e equipamentos de laminação de madeira.

No ano seguinte, Willcox & Gibbs adquiriu a Sunbrand Corp, produtora de itens para a indústria de vestuário, continuando a adquirir pequenas empresas, não relacionadas com máquinas de costurar.

Em 1982 Willcox & Gibbs vendeu os equipamentos de produção de máquina de costurar para uma empresa japonesa, a Pegasus Inc.

A partir de 1994, a empresa, rebatizada Rexel, Inc., dedicou-se apenas na produção de peças, suprimentos elétricos e cabos especiais para computadores e sistemas de comunicações.


Willcox & Gibbs situada em destaque na sede do MAMC

O MAMC, tendo também por finalidade a pesquisa histórica para a preservação deste e de outros importantes equipamentos mecânicos, fulcros na evolução da humanidade, participará da “Expedicción Sur 2012”, percorrendo a Argentina e o Chile, na pretensão de adquirir informações e peças para enriquecer seu acervo e suscitar discussões dentre os interessados nestes conhecimentos. 

“Uma edição atual do Times contém mais informação que o mortal comum podia receber em toda a vida, 
na Inglaterra do século XVII. (Richard Saul Wurman - editor americano - 1936/ ..)”

Prof. Darlou D’Arisbo
24 de março de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As Agulhas e a Memória – Publicação 09

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas em suas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

As agulhas

Sabe-se que começamos a costurar há cerca 20 mil anos, durante a última Era Glacial, pois que arqueólogos descobriram agulhas produzidas a partir de ossos afilados, com orifício. Os fios eram finas tiras de couro ou tripas secas. Com estas rudimentares ferramentas costuravam abrigos com peles animais.

Lá por 2.200 a.C., já eram utilizadas por especialistas chineses (Shamans), nas técnicas de espetar agulhas de osso em certos pontos do corpo, para aliviar a dor (acupuntura).
As mais antigas agulhas de aço (ditas “ferro”) da história, foram encontradas em Manching, Alemanha, região ocupada pelos Celtas, no século III a.C.

Na tumba de um oficial da Dinastia Han (202 a.C.- 220 d.C.) foi encontrado um jogo completo de costura, com agulha e “dedal” metálico para proteger o dedo ao empurrá-la.



Antigas agulhas manuais de aço (superiores) e de bronze (inferior) comparadas á dimensão de um palito de fósforo (acervo do autor)
A evolução da agulha (assim como a bicicleta e o limpador de para-brisa) não surpreendeu, pois que mantém seu desenho básico até hoje, embora alterado seu friso (calha), posição e dimensão do orifício, forma de ponta,...

A agulha de máquina de costurar, bastante semelhante com as atuais, foi inventada em 1755, pelo alemão Karl Weisenthal, mas como sua malograda máquina não teve êxito, todo o conjunto foi relegado, e esquecido por quase um século.
Elias Howe utilizou modelo semelhante em 1846 (Massachusetts), em sua máquina de costurar. A partir desta, não sofreu mudanças, apenas pequenas alterações específicas para diferentes finalidades.






Imagens de agulhas antigas (New Domestic, Singer, Wilcox & Gibs)

Como meu acervo é de máquinas de costurar manuais, fabricadas entre 1850 e 1950, muitos modelos e épocas utilizaram agulhas diferentes.

Para o perfeito restauro, seria necessário tornear a parte anterior, mais larga, processo dificílimo pela esbeltez das peças. Tentei reduzi-las por abrasão, no esmeril, situação não menos árdua e perigosa.



Agulha atual (acima), comparada à utilizada em algumas máquinas antigas (inferior)

Consegui-las atualmente, consiste em árduo trabalho de garimpo por todo o mundo. Visitei sem sucesso alguns antiquários alemães, franceses e suíços. Em Brugges (Bélgica) consegui algumas poucas raridades numa feira dominical, quase a peso de ouro.

Mas todo este relato consiste apenas num prólogo fundamental desta inacreditável e verdadeira história, a seguir.

A memória

Eu viajava pelo interior de Santa Catarina, proximidades de Blumenau, num dia do escaldante verão de 1997. Ao passar pela pequena cidade de Rio dos Cedros, procurei um bar para beber qualquer refrigerante. Ao sair do estabelecimento vislumbrei uma oficina de máquinas de costurar, o que seria um refrigério também para a alma.

O idoso proprietário vendeu-me duas máquinas antigas e, denotando abatimento, discorreu sobre sua grave cardiopatia e o receio de realizar melindrosa cirurgia reparadora. Perguntei-lhe se possuía agulhas para máquinas antigas, respondeu-me simplesmente que não existem mais.
Conversei longamente com ele, induzindo-o positivamente sobre as vantagens da cirurgia e tentando melhorar seu abalado ânimo.
Segui viagem, mais preocupado com a tristeza demonstrada por ele e a esposa do que pela satisfação das duas máquinas adquiridas.

Mais de uma década depois, ao visitar um amigo em Timbó-SC, passei por Rio dos Cedros. Encontrei a antiga oficina de máquinas de costura e deparei-me com o mesmo proprietário, aparentemente muito rejuvenescido.

Surpreendentemente e sem qualquer palavra, tomou-me pelo braço, abriu uma velha gaveta e retirou de lá um pequeno e velho envelope. Dentro haviam três raríssimas agulhas antigas, já oxidadas pela longa espera de meu possível regresso.


As raras antigas, comparadas com uma atual

Não consegui sequer balbuciar algo e, pasmo e muito emocionado, ouvi-o afirmar que aquelas minhas palavras haviam encorajado-o à cirurgia, que resultou em evidente sucesso.

Sua memória, sua dedicação na busca e guarda daquelas raras agulhas por uma dúzia de anos, na tênue esperança de minha remotíssima possibilidade de visitá-lo, são características que excedem à compreensão lógica, situam-se num âmbito irracional, num evidente universo metafísico.

Esta e outras tantas histórias enriquecem nosso acervo de peças físicas, incorporando a elas uma conotação incomum, sobrenatural ou até mística.

“Não terei receio de emocionar-me pelas belas ações e pela bondade dos que me cercam.” 
(12º Mandamento da Serenidade).

Prof. Darlou D'Arisbo 
13 de fevereiro de 2012 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Rainha Clementina – Postagem 08

Em viagem entre Taquara e Porto Alegre - RS, visitei o Sr. Siegfried, um antiquário (também artesanato, floricultura, ... ), na rodovia, onde sempre encontro alguma máquina antiga.

Desta vez, resgatei uma, em deplorável estado. Certamente esteve submetida à intempéries por décadas. Além disso, com todo o mecanismo em adiantado estado de oxidação, as peças móveis estavam travadas, assim como se fundidas juntas.

Observei que, apesar da macabra aparência, estava completa (ou quase). Adquiri a peça para submeter-me ao inacreditável desafio de tentar recuperá-la.

Aparência deplorável


Mecanismo “encravado”

Dias depois, coloquei-a na bancada da oficina, prendi-a na morsa e tentei retirar os dois parafusos da fronte (cabeçote), após borrifá-los com desengripante. Um deles quebrou (o que era de se esperar), um mau presságio vaticinando a triste possibilidade de transformação em sucata.

Mas, induzido pelo meu incansável anjo da guarda, tentei a retirada do segundo parafuso, martelando uma esbelta talhadeira na lateral de sua fenda da cabeça, para forçá-lo a girar, mesmo comprometendo sua estrutura. Aparentou rodar um insignificante “micro-ângulo”.

A partir daí, o procedimento foi borrifá-lo novamente e apertá-lo, com uma potente chave de fenda, para que o desengripante penetre. Com muita dificuldade, ele obedeceu no curto movimento positivo e depois (força) no anti-horário. Ele saiu, mas a máquina gemeu. Ouvi dela, algo como um sussurro melancólico, uma esmorecida voz em súplica alemã: “mich’etten, mich retten, michr...” (salve-me,..)

Foi a mensagem suficiente para empenhar-me na desmontagem total.


Fronte aberta (cabeçote)

Semelhantes dificuldades sucederam-se nos dias seguintes, dedicados quase que integralmente ao intento de ressuscitá-la. Diversos parafusos foram quebrados, seus locais e restos refurados, roscas refeitas. Algumas engrenagens tiveram dentes quebrados pelo exaustivo torque aplicado, na ânsia de fazer mover.

Os eixos, solidarizados no bloco pela oxidação, tiveram sucessivos choques térmicos na tentativa de fazerem girar e serem retirados. Outras partes antes móveis, agora sofreram pesada agressão física para aceitarem o temporário divórcio.


Alguns teimosos e corroídos parafusos (cinza) e eixos (preto)


Parafusos fixadores de biela, ao lado de pequeno palito de fósforos

Mais uns dez dias de longas jornadas, com a oficina tomada por dezenas de ferramentas, vários recipientes contendo solventes específicos (ácido removedor (Remox), fosfatizante, querosene, desengripante,...) com peças mergulhadas (tal um buffet de sopas).

Com o lixeiro cheio de papéis-toalha imundos e luvas de procedimento rompidas, as mãos e dedos feridos, iniciei a montagem...


Algumas peças do cabeçote (fronte)

A decorrência axiomática então se fez presente: as peças desoxidadas (limpas) não mais encaixam! As engrenagens encolheram seus dentes, os mancais folgaram seus eixos, cames liberaram seus pinos, barras trapezoidais não deslizavam mais nos trilhos encolhidos,...
Mas, sempre que o manto do desânimo e do cansaço ameaçava tolher-me o devotamento, eu lembrava de seu derradeiro sussurro e assim, andava sempre mais um passo.

A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico e exclusivo para cada uma. Algumas preenchidas, outras desbastadas, alterados encaixes, ângulos, roscas,...
Muitos parafusos foram refeitos e, como já citado, as roscas antigas são atualmente incompatíveis, assim como suas “cabeças”, seus “pescoços”, encaixes,...


Restaurando os dentes impelentes

Algumas peças foram “adaptadas”, retiradas de máquinas doadoras (sucatas), outras foram “inventadas” a partir de inusitados componentes, como o fixador da mesa metálica na base de madeira, construido com um pedaço de agulha veterinária, arruela vedante e a ponta de parafuso inoxidável, unidos com resina epóxi.


Fixador da base na mesa

A base de madeira não fugiu à regra do quebra cabeças, pois foi executada a partir de nove pedaços de diversas outras sucatas. Um bom “olho clínico” poderá identificar a colcha de retalhos, finalmente estruturada e funcional.
A raríssima e linda manopla de louça, também foi doação de outra moribunda.



Enfim, após muitas voltas de nossa Terra mãe, eis que surge, ao rufar dos tambores surdos e dos moucos clarins, a tão almejada e nobre rainha Clementina (do latim: “a pequena graciosa”).

Seu coração pulsa mais que o meu, gira solene, rompe o silêncio noturno num farfalhar metálico, quiçá por mais um século.



Imponente, majestosa faz pose, dilacera o protocolo e é ela o próprio cerimonial (Clemens Muller 111.993ª).

Prof. Darlou D’Arisbo 
06 de fevereiro de 2012