quinta-feira, 1 de março de 2018

Mais um restauro - publicação 29



Desta vez recebemos uma máquina antiga bastante curiosa, não pelo seu sistema mecânico, bastante semelhante à Haid Neu ou à Clemens Muller, mas sim pela dificuldade de confirmar sua fabricação. 
Alguns detalhes nos despertaram insólito interesse, como uma plaqueta de identificação, a qual após limpa e polida, apresentava, além de um logotipo desconhecido, a legenda “marca registrada” em perfeito idioma português.  E, mesmo após várias diligências, não conseguimos decifrar sua origem.

Seu material construtivo, (aço de baixa resistência), aliado à visíveis rebarbas de fundição também são particularidades que induzem à uma fabricação sem tender à qualidade.
Mas, concordamos que tais características compõem sua história e exalta sua raridade.
                                                                 A máquina quando recebida


Conforme sua estética e sistema mecânico, concluímos ter sido fabricada no início de 1900, ainda que de desconhecida origem.  E embora muito oxidada, com mecanismo encravado, apostamos no sucesso do restauro. 

Os componentes mecânicos externos; volante, rebobinador, reguladores,... estavam travados, apresentando alto grau de oxidação.  Com decorrente dificuldade e rigoroso cuidado fomos desmontando suas partes.  Conferimos então, que o sistema interno, assim como todas as engrenagens, eixos da fronte e todo o mecanismo inferior estavam em similar estado.

 Completamente oxidada

Sua base de madeira, já abundantemente remendada, apresentava evidência de ataque de térmitas (cupins) e várias dezenas de pregos que se rompiam ao serem retirados.  Tais embaraços consistem em certeza de sucesso na pertinaz dedicação, baseado no encontro de soluções já conhecidas.  Assim, suas partes comprometidas pelos insetos foram embaladas e colocadas em freezer, a dezoito graus negativos por três dias, o que consiste no único procedimento comprovadamente aniquilador de térmitas.   A montagem desta base de madeira requereu excertos e ajustes para entrar em “esquadro tridimensional” e acomodar a máquina.  Depois, preenchimentos de algumas grandes falhas, lixamentos, aplicação de selador e leve envernizamento, sempre mantendo as históricas marcas da idade. 


 Partes da base de madeira antes de irem ao freezer

A parte mecânica teve muitos capítulos em sua longa novela, pois a cada etapa encontramos dezenas de flagrantes alterações erroneamente instaladas por falsos “experts”:
Muitos parafusos que estavam enfiados em roscas diferentes, exigiram a execução de novos, envelhecidos a fogo, tendo refeitas as suas roscas fêmeas. 
Originalmente, o eixo do volante era micrometricamente excêntrico e fixado por parafuso regulador radial, para ajustar o perfeito encaixe entre as engrenagens motrizes. Mas estava com seu topo interno “remanchado”, alargado a golpes de martelo.  Tal indiscernida e grosseira solução havia produzido uma preocupante trinca no frágil bloco estrutural.
Ficamos a imaginar por qual preguiçoso motivo não teria sido colocado um parafuso fixador, cujo orifício (rosca) ali estava lá, vazio e disponível.  

 Topo “remanchado” a martelo (1). Trinca e falta do parafuso fixador do eixo (2),

Em outro memorável episódio, após executar um novo suporte para agulha, com parafuso de orelhas, milimetricamente semelhante ao original e instalá-lo, surpreendemos com a grande diferença de alinhamento entre a diretriz da agulha e o orifício do calcador, a uns 4mm de onde ela deveria entrar.   Neste restauro,  preferimos polir o eixo da agulha sem retirá-lo, para não correr o risco de fraturar a delicada "manivela" de seu acionamento (no encontro com o eixo horizontal), lubrificando-o após, até conseguir o seu perfeito funcionamento de “vai e vem”.    Pois o eixo vertical estava instalado girado a 180º.  Sem outra opção fomos obrigados a desmontar o frágil sistema mecânico da fronte, para resolver a correta posição do eixo e da agulha.  
 
Dentre mais alguns, encontramos um pedaço de lâmina de serra meio enfiado no eixo da manopla, para diminuir-lhe a folga...  Algo como "cunhar" um cabo de enxada em seu olhal...
 

Pedaço de serra enfiado no suporte da manopla de acionamento

Mas o trabalho de restauro revela estas nuances, embrenhadas em seu escopo, ora burlescas e difíceis, ora admiravelmente toscas.  Então, tais narrativas passam a compor e ilustrar a história do objeto.

No sistema mecânico inferior também algumas peças estavam faltantes e foram executadas, como o limitador de curso do regulador de ponto, fixador da alavanca da carretilha,... Reguladas e instaladas, demonstraram bom funcionamento.

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Na parte externa também outras foram executadas: “botões” de regulagem do ponto, fixadora da mesa (recartilhados), manopla de acionamento, parafusos especiais,...
Foram-lhe aplicadas demãos de esmalte sintético preto brilhante, sobre fosfatizante. Evitamos a aplicação de massa niveladora, para manter suas nobres marcas de idade. 

Finalmente, incorporamos um antigo carretel de madeira, original da época, e uma carretilha no rebobinador. Ambos com linha colorida para reduzir-lhe o austero aspecto monocromático.
Seu funcionamento apresentou perfeição, embora suas folgas e marcas da idade dificultem a ação de costurar.  Passará a representar a sua história, solenemente sóbria, tal um objeto de apreciação, uma homenagem tangível e presente de seu glorioso passado.
 
A ilustre maquininha funcionando sonoramente, restaurada dinâmica e solene.   

A exaustiva e longa atividade de restauro é sempre recompensada, durante a execução, pelas surpresas em cada episódico capítulo e, ao final com a cativante e tangível presença dinâmica de uma bela página histórica da evolução humana aplicada.


Prof.  Darlou  D’Arisbo
museumaquinascosturar.blogspot.com.br










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