segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Sua Excelência: "O RESTAURO" - Publicação 41

Conforme a enciclopédia fundamental da língua portuguesa: Lello Universal (ed.1922): “Restauração, s.f. (do latim Restauratio): acto ou effeito de restaurar. Fazer voltar a antiga importância, ao seu original esplendor." 

O restauro é um longo, analítico, analógico e específico processo: 

Analítico, porque depende de estudo minucioso da peça, sua legitimidade, exame criterioso de suas partes, investigação de sua história, pesquisa física de seus componentes e funcionamento, composição de pigmentos, ligas metálicas e demais materiais.
Analógico, a buscar identificação e semelhanças a outras peças, em conjunto ou parciais, no contexto histórico e evolutivo, sejam relatos pesquisados ou fisicamente acervadas.
Específico, porque avalia as características próprias da peça, considerando que dois objetos aparentemente iguais podem ter sofrido usos e agressões diferentes no curso do tempo, com histórias diferenciadas.


Numa enchente na Índia, ele salvou seu mais importante patrimônio
 
Assim, as antigas máquinas eram consideradas , quando submetidas às intempéries, podem ser corroídas pela umidade e oxidadas pela ação meteorológica. As peças internas podem também encravar-se pela agregação às demais. A omissão de perfeita manutenção e falta de limpeza e lubrificação de quando em uso também comprometem e dificultam a desmontagem e restauro das máquinas.


Já encontramos máquinas que foram soterradas

Considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana, e reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento.

Qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída,...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou as citadas falhas de manutenção e de preservação.

No caso das máquinas de costurar, o descaso com peças antigas é manifesto; raridades jogadas em ferros-velhos, enferrujando, ou até propositadamente quebradas para diminuir seu volume. Soubemos de leigos que aplicam produtos cáusticos indiscriminadamente, ou pior, jatos de areia ou granalha, os quais corroem engrenagens e características da máquina.


Chegam-me em péssimo estado de conservação, sucateadas

Na aquisição da máquina (vale para outras peças) procuro descartar as que são oferecidas por elevados valores, com visível intenção pecuniária. É indispensável ter capacidade de avaliar a legitimidade do objeto e sua origem.


A corrosão dificulta, mas não compromete

Sempre, ao receber uma antiga máquina de costurar, vejo nela a necessidade de algum (ou total) restauro. Os piores casos NÃO são as que sofreram desgastes naturais pela ação do tempo, mas sim as que foram deturpadas; repintadas, adulteradas, por vezes com a intenção de ludibriar o comprador ou vendidas como peças “decorativas”. Há uma infinidade de “fábricas de antiguidades”, muitas com trapaceada aparência de originais.


Fronte de uma New Home, quando aberta, antes “linda na foto de venda”.

Felizmente, as centenárias máquinas de costurar são dificilmente falsificadas, considerando sua constituição original em aço de baixa resistência, com características de fragilidade e fácil decomposição por abrasividade quando comparada às ligas atuais, o que facilita a identificação.
Obviamente, a existência de partes de materiais recentes (plásticos, pigmentos,...) ou parafusos atuais condenam sua unicidade.


Recebida com uma fratura irremediável, agravada por uma soldadura execrável

Cada máquina (ou suas partes) revela características específicas de restauração. Procuro seguir um preceito em que analisa três aspectos básicos:

1. Autenticidade: se realmente trata-se de legítima, cuja origem é conferida por meio de busca em fontes de informação;
2. Preservação: seu desgaste natural pela utilização ao longo do tempo, deterioração, falha de manutenção;
3. Reversibilidade: possibilidade de recuperação de suas partes, restituição de funcionamento.

Analisados estes questionamentos, o propósito é de restaurá-la preservando suas marcas de utilização, ou seja, na medida do possível, preservar seu estado de quando em funcionamento.


Antigos manuais, como este de uma Howe 1870, são boas fontes informativas

Embora alguns restauradores recuperem as peças de maneira a passarem a apresentar estado de novas, tal quando fabricadas, meu particular objetivo embasa-se em relato histórico, permitindo que as máquinas de costurar demonstrem suas características de quando em sua plena utilização.


Remendos antigos devem ser preservados, pois são páginas de sua existência


O hediondo “quelóide cicatricial” faz parte de sua história e foi preservado

Preliminarmente (antes de ações físicas), identifica-se (marca, número de série,..), sua história (a quem pertenceu, finalidade de utilização,..), informações complementares,... Através da Internet pode-se conseguir antigos manuais ou fichas técnicas. 
 

Clemens Muller quando recebida e depois de restaurada

As antigas máquinas de costurar eram valiosos bens de propriedade e uso notoriamente feminino. E, embora aquelas damas desempenhassem com excelência as tais essenciais tarefas, observa-se que olvidavam as normas de manutenção e muitas peças apresentam desgastes específicos exagerados.
Lubrificavam algumas partes e negligenciavam outras, utilizavam óleos vegetais ou até gordura animal, claramente comprovados no processo de restauro.
Evidentemente, estas máquinas antigas, foram construídas em materiais resistentes e, justamente por isso, preservam-se por muitas décadas, mesmo sofrendo falhas de manutenção.


Excepcional “Junker & Ruh” 1889 (acervo do autor)

Algumas características de preservação alimentam os relatos históricos específicos, como esta “Junker & Ruh”, adquirida em 1890 e passada da mãe para a filha mais velha, por várias gerações, sempre com a proibição de “outros mexerem”. Esta é uma rara exceção que me chegou em perfeito estado, sempre lubrificada a contento, funcionou exaustivamente por mais de um século! Seu restauro limitou-se à mera limpeza e redação histórica.


Certificado de garantia, preservado por um século no interior da máquina


Inscrições importantes: Número de série e identificação do importador

Alguns sinais de uso caracterizam sua utilização no decorrer do tempo e merecem ser preservados como testemunha histórica de sua vida funcional, como já citado. Marcas de carbonização em peças de madeira, identificam incêndio; desgastes localizados definem formas de uso; restos de insetos ou pingos de velas indicam utilização noturna; pedaços de papel com informações numéricas em sua caixa inferior (valores, medidas,...); recortes de jornal da época, santinhos com orações, ... Enfim, são informações preciosas que enriquecem sua história e que também orientarão o seu restauro.


Muitas bases de madeira necessitam recomposição

Como normalmente as máquinas chegam-me sem relatos (obtidas em feiras, ferro-velhos, permutas ou doações), algumas etapas de análise são comprometidas. 
Inicio com identificação e cuidadosa pré-limpeza (sem perder dados), com pincel para retirada de materiais soltos, depois com solventes leves: normalmente (na ordem); água morna, água com detergente, querosene,... Jamais utilizo produtos agressivos (ácidos ou cáusticos) e sempre são indispensáveis os EPIs (avental, luvas e óculos).


Após a confecção do parafuso, o processo de envelhecimento ao rubro e mergulhado em óleo

A desmontagem, habitualmente requer esforços e ferramentas específicas: morsa, chaves de fenda de impacto, alicates de pressão, micro pinças... Sempre com muito critério e cuidado, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é quebradiço à impactos.


Execução de uma porca cônica para fixação da manopla

Importantíssimo é eleger uma ordem de desmontagem, assim como a guarda de seus componentes, pois qualquer desordem comprometerá a recomposição.

Observe-se que os parafusos de meio século não se assemelham aos atuais, pois suas roscas (passos, ângulos,...), assim como as “cabeças” não são atualmente comercializáveis. E, caso necessário substitui-los por atuais, após o processo penoso de remoção, temos de refazer roscas na peça, adaptar sua cabeça (por torneamento ou lixamento) e “envelhecê-lo” para conferir-lhe semelhante idade da máquina.

As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), e aplicação de anticorrosivo fosfatizante e pintura protetora.


Agulhas Made in Ceska Republika 

As peças para reposição são raríssimas e onerosas, como estas agulhas importadas da República Theca, para máquina alemã. Quando possível reutiliza-se peças de alguma máquina descartada, situação quase impossível, pois sofriam alterações constantes em dimensionamento e configuração.

E como os plásticos foram inventados após 1930 (baquelite em 1909), as partes não metálicas eram constituídas de louça (manoplas) ou madeira (bases). Por medida de economia, alguns fabricantes produziram bases e manoplas em madeira torneada. Deste modo, na ausência da manopla original, executo em madeira uma similar.

Epílogo:

Esta publicação pretendeu apresentar um singelo trabalho de restauro, limitado aos conhecimentos oriundos da experiência de quatro décadas e jamais cogitando comparar-me com os consagrados restauradores profissionais, aos quais tenho o absoluto respeito e consideração pelo emérito ofício desempenhado.

Nosso humilde acervo recebe raros visitantes, considerando não ser aberto ao público. Porém, recebemos com imensa satisfação a presença do Dr. Vladimir e esposa Dra. Olena (ucranianos), os quais demonstraram ímpar conhecimento e entendimento de nosso trabalho, cujas suas gentis palavras incentivam tal dedicação. A eles dedico esta publicação, desejando que a Paz Celestial continue abençoando os seus caminhos.

Prof. Darlou D’Arisbo  
20 de novembro de 2023















sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Antigas máquinas de costurar infantis - Publicação 40

Nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) possui também um grande acervo de máquinas de costurar infantis, que eram brinquedos fabricados e dirigidos à meninas, (a partir dos 7 anos), tendo como incentivo desenvolver a imaginação e a criatividade para aplicação no cotidiano para quando fossem adultas.


Pintura educativa do início de 1900

Foram comercializadas, principalmente na próspera época da utilização das máquinas domésticas, entre 1880 e 1970, quando tais trabalhos caseiros eram necessários na confecção e manutenção das roupas da família, e também pela indisponibilidade no comércio e custo das prontas.

Catálogos ofereciam as maquininhas, dentre outros brinquedos:




As indústrias alemãs, entre o final de 1800 e início de 1900, situavam-se entre as mais desenvolvidas do mundo, e Dresden (capital da Saxônia) destacava-se também pelos muitos prédios culturais, exuberante arquitetura clássica, dentre palácios, museus, etc.


Indústria Clemens Muller em Dresden – Imagem gentileza Sewalot UK


No catálogo da Muller (1898), as opções citavam dimensões e peso.

Infelizmente, o extraordinário parque fabril de Dresden, que produzia as melhores máquinas de costurar do mundo, transformou-se em indústria bélica para atender a demanda militar e foi dizimado pelos Aliados em 13 e 14 de fevereiro de 1945. Ali, em dois dias, mais de cem mil habitantes perderam a vida, transformando a cidade em ruínas e aniquilando as indústrias e seus registros históricos. Hoje é praticamente impossível descobrir as datas de fabricação de antigas máquinas alemãs.


Dresden antes e após a destruição pela guerra

A história da humanidade possui algumas páginas negras, pois a destruição decorrente das guerras, independe de razões, disputas territoriais, doutrinas,... Excedem os interesses em bens físicos e rompem as sequencias evolutivas. As pessoas perdem suas origens, documentos, família, referências geográficas, nacionalidades, além do descomunal custo financeiro. E o êxodo provoca desequilíbrio mental e inúmeras patologias decorrentes e indiretas. Vejo que a humanidade ainda não evoluiu o suficiente para entender a infinita graça da paz.

As maquininhas infantis, atendendo às cobiçosas meninas, eram também produzidas por várias fábricas de máquinas convencionais, como a Muller e Casige (alemãs, que continuaram no pós guerra sob direção inglesa), Necchi (italiana), Singer e Delta S. C. (USA), Pic Bien (França), Fanconia (Japão), SEWnPlay (China), Vulcan (Inglaterra), Estrela e Martau (Brasil), e outras tantas que compõem o acervo de nosso museu.


Uma das coleções de nosso acervo

Assim, ao contrário da atualidade, onde os brinquedos limitam-se ao entretenimento virtual, pouco ou nada instruindo, as maquininhas despertavam e ensinavam, de maneira agradável e lúdica, canalizando as energias das crianças numa produção frutífera.


Atenção e coordenação. (Imagem gentileza Ana Caldato)

As meninas produziam roupas para as bonecas e até utilidades diversas para seu uso, admirando suas obras físicas, em ações tangíveis.
A atenção, controle, planejamento e compenetração conferidos ao ato de costurar, consistiam em ótimo aprimoramento para as atividades profissionais quando adulta, fundamentos úteis para toda a vida, fossem elas médicas, engenheiras, professoras, advogadas,... Além do desempenho da costura doméstica, cuja profissão de costureira era bastante dignificada.


Nosso acervo possui algumas ainda com embalagem original


Mesmo após décadas, despertam curiosidade (nossa neta, 2017)

Nossa oficina de restauro conserta e complementa estas peças históricas, visando sempre preservá-las da maneira que estavam quando em seu pleno funcionamento, mantendo todas as peculiaridades inerentes do uso. Assim, procura-se resguardar as características das pessoas (e atos) que as manuseavam e do ambiente na época de sua utilização.


Limpando uma pecinha após confecção e torneando a manopla.

Temos registros de máquinas que obtivemos em situação deplorável, quase irrecuperáveis, com mecanismo encravado, oxidadas, com peças faltantes e até despedaçadas. Outras chegaram com aplicações agressivas de jato de areia (proibidos por lei) ou produtos cáusticos, que deterioram suas frágeis partes.

Também as disparatadas “decorações” que condenam as maquininhas, extinguindo o caráter revelador de uma história.

Corpo da Casige 1942, alemã, sendo desmontada. E após o restauro.

Procuramos também preservar suas peculiaridades inerentes do uso, como bilhetes infantis escritos ou desenhados, marcas em embalagens originais. desgastes generalizados que revelam excessiva ou extensa utilização. Algumas foram imaculadamente preservadas como ornamentos em aposentos de meninas.


Sew Ette ZIgZag, na oficina de restauro e depois de concluída.

Estas maquininhas eram projetadas para propiciar atividades seguras, com sistemas protegidos de alcance à agulha, acionamento macio por manopla no volante, acompanhavam manuais fartamente ilustrados e até moldes para confecção dos trabalhos.


Manual da Litle Betty (USA)


Manual da maquininha Estrela (Brasil)

Produziam ponto em cadeia (apenas um fio), com regulagem de tensão da linha e de dimensão de ponto. Algumas com acionamento elétrico (pilhas), e outras, mais sofisticadas com pontos em zig-zag, permitindo acabamentos em bainhas e decorativos.


Outra coleção de nosso acervo

Nosso acervo conta com uma centena de maquininhas infantis de costurar, de várias origens, épocas e dimensões. Algumas sobreviveram a mais de um século, satisfazendo várias gerações e trazendo relatos curiosos, que ilustram e acompanham a história de várias delas.


Müller 1889 (indústria Friedrich Wilhelm Muller) Berlin.
A mais antiga de nosso acervo.


Müller 1900, curioso sistema mecânico com biela curva.
Foi encontrada no lixo, em Curitiba/PR.


Straco (Straus Company), distribuída no Brasil pela Estrela.
(a caixa de fósforos compara dimensões) 


Mirim, brasileira, cópia miniaturizada da Elgin (direita), com perfeição de detalhes,  
cores e funcionamento (caixa de fósforos compara dimensões)



Bambi 1961 brasileira, perfeita. Com estojo (baú) de madeira.

Algumas peculiaridades acompanham a história destas maquininhas e não devem ser ignoradas ou eliminadas, pois constituem elementos presentes. São ricos detalhes, reveladores de fatos cronológicos. As Casige e American Girl (abaixo) possuem inscrições identificadoras: foram fabricadas nas zonas ocupadas de Berlim, pelos aliados ao final da segunda guerra.

 
Casige 1946, fabricada na zona inglesa da Alemanha ocupada.

 
American Girl (Industria Delta) em 1947 na US zone, Alemanha ocupada.

 
S.M.J., francesa, 1920, com curioso sistema de acionamento por manivela,
patenteado por S. W. Muller em 1888.


Casige GESCH-M, fabricada na zona inglesa da Alemanha ocupada, em 1946.

Encerramos esta publicação, expondo algumas destas preciosidades, no sentido de incentivar à preservação destas maquininhas que tanto participaram da evolução das crianças meninas do início do século XX.
Também é de bom alvitre sugerir aos pais e mestres para que evitem permitir que estes pequenos administradores do mundo de amanhã mantenham-se hoje mergulhados no mundo virtual dos aparelhos eletrônicos, os quais produzem patologias mentais e atrofiam a musculatura das crianças.

Prof. Darlou D'Arisbo
10 de novembro de 2023