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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Nobres Silfos Vadios - Publicação 18

Nesta postagem, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), declina do frio âmbito da interpretação ferramental e mecanicista, passando a navegar por um mar mais poético, entre as tangíveis falésias do conhecimento e os místicos e etéreos horizontes. Apenas uma tardia e adocicada pausa entre as tantas anteriores sóbrias publicações.

“É vedada a utilização de quaisquer informações aqui contidas, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”


Historicamente, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar, iniciou como todos os acervos particulares: com uma peça, depois outra e mais outra...

 
 
Cinco décadas acervaram mais de um século

Hoje, com mais de duas centenas de máquinas de costurar, registrado no MinC, é um sólido banco de dados da evolução mecânica e integração social deste importantíssimo ferramental no desenvolvimento humano.

 
A tangibilidade da história mecânica

Neste acervo de antiguidades, tenho mais que a tangível apresentação de um dinâmico e exaustivo trabalho em centenas de históricas peças: uma dedicação insistente de mais de meio século, no tempo que justificou grande parte de minha própria existência.

 
Mais de um século se faz presente

Significa-me algo como a eternidade. A qual, como a continuidade da imagem presente daqueles notáveis humanos, agora já etéreos, desde os que projetaram e construiram, até os que tanto manipularam tais objetos. Suas vivas mãos, seus músculos e pele, marcaram e gastaram os rígidos materiais que os compõem. Encontraremos ainda restos de suas mãos nos botões e manoplas das máquinas de costurar, escrever, moer,...

 
Um relato atual do pretérito exposto

E também elas peças, parecem manifestar um patente e curioso humor... Por vezes recusam-se a serem consertadas. Encravam seus parafusos, emperram suas engrenagens, suas madeiras atraem térmitas cupins, rompem-se, deixam-se cair... Outras vezes, ao contrário, oferecem-se emitindo sons rangidos, reflexos de luz,... Vivem seus instantes de agudas crises depressivas, ou momentos de alegria e prazer, tentando aos seus modos, as mais inacreditáveis demonstrações de existência.

 
 Sonoramente, rompem-se marcando suas presenças

Sinto nelas, as presenças de seus passados usuários, em constante e silenciosa miragem. Descem dos céus, por talvez saudades de seus caseiros objetos, no silêncio das noites escuras, e vem aqui costurar suas vestes de nada…

 
A época da maestria das mãos

...ou soprar as vagas brasas dos frios ferros de passar, moer fantasiosos grãos de café torrado, fazer quirera de milho para alimentar pintos ausentes.

 
Convertia sementes em quirera

Pé ante pé, silenciosamente na madrugada fria, chega o Major, meu saudoso pai. Em augusto segredo, sem o menor ruído e com muita delicadeza, toma a sua antiga e reluzente espada, desembainha-a e afaga-a como a um manhoso gato. Lustra-a e, satisfeita a saudade, guarda-a no lugar. Algumas vezes esquece-a sobre a mesa, distraído a observar, na miscelânea da parede, o relógio da vida de alfaiate, de seu pai.

 
Os tempos dos Ford T, Melindrosas, Einstein…

Distraídos, quiçá como eram em vida, por vezes marcam suas estadas: dão corda nos relógios de parede, esquecem armários abertos, mudam coisas de lugar...

Outras vezes, reúnem-se ao coincidente acaso, várias fantasmagóricas criaturas. Descem e voltam ao nosso mundo para contar causos, lembrar histórias em graves sussurros e dissimulados sorrisos, em efêmeras e merecidas ausências celestes. Ou até, em negligente ousadia, correndo o risco de flagrados serem, ao me acordar por um ruído, beijam os meus sonhos, no adormecido filho vivo.

 
Uma manifesta consagração divina

Abençoam os “sonos” da vida e, sem rufar de asas, voltam contentes ao mesmo celestial silêncio dos céus.
Enfim, são eles os proprietários. Eu, apenas efêmero depositário e fiel guardião.

 
Mortal e devotado guardião

Eles continuam donos perpétuos de suas coisas. Sempre usufruiram seus estimados objetos, seus pertences... Sempre viverão suas peças. E eu os vejo nelas.

“Diariamente, praticarei o bem, em toda a sua extensão e por apenas um dia. Afinal, eu me desanimaria se pensasse em praticá-lo por toda a minha vida.” (13º Mandamento da Serenidade)

(Darlou D’Arisbo / excertos das memórias históricas escrito em 22 de março de 1986) 
 
Prof. Darlou D'Arisbo
08 de janeiro de 2014 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

“Clemence” ____________ Publicação 13


 Consideramos missão do museu, tão essencial quanto a preservação da história, a informação transmitida à sua comunidade, agregando conhecimento de forma prazerosa e lúdica.

Assim, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), apresenta hoje mais algumas curiosas peripécias na arte do restauro.

A história da Clemence cujo título poderia ser “O transplantado morreu e a doadora ressuscitou” ocorreu quando de seu pretenso descarte.

Esta antiga máquina de costurar Clemens Muller (689.073), agora batizada de Clemence, foi adquirida como sucata, em Bento Gonçalves/RS, no verão de 1978. Faltavam-lhe muitas partes (volante, coroa, engrenagens, eixos,..) e o que existia, enferrujado, encravado, revelava difícil utilidade. Ficou no depósito da nossa garagem por décadas, sem merecer registro e fotografia.

Em 2001, com a organização do museu, ela recebeu uma breve limpeza, teve parte da mecânica inferior retirada, inutilizável mesmo para reposição. Catalogada como possível doadora, foi depositada como reserva técnica.

Três anos depois, para a tentativa de retirada de uma engrenagem cônica interior, teve seu eixo desencravado. Foi após muito trabalho, por vários dias, que seu o eixo girou.. Como aquela engrenagem negou-se a sair, a máquina voltou novamente para a reserva técnica.

Em 2008, teve a fronte desmontada, para retirada do cursor vertical (da agulha), mas como não serviu na máquina receptora, foi novamente reconstruida e recolocada. Pouco depois, encontramos num ferro velho um volante Clemens Muller, com seu eixo excêntrico quebrado. Um eixo similar foi executado para outra máquina, mas não serviu e foi guardado.



Coroa (engrenagem motriz)

Anteontem, ela foi desmontada para doação de peças à outra Clemens Muller, que estava em restauro. Observou-se, porém, que a engrenagem motriz desta receptora, servia na Clemence, porém não no seu volante, nem no eixo excêntrico.

Tentamos então colocar o volante do ferro velho, a engrenagem motriz desta e aquele eixo guardado, na Clemence. Quase perfeito, porém o diâmetro do eixo era pequeno e refazê-lo seria financeiramente inviável.




Alguns órgãos transplantados na doadora

Na noite seguinte, ao beber uma lata de cerveja para arrefecimento do cérebro, surgiu-me a idéia: cortar uma fita do alumínio da lata e enrolá-lo no eixo, aumentando seu diâmetro. Após algumas tentativas, com uma volta, duas voltas, .. serviu com duas e meia.. Montado o volante e a engrenagem motriz, foi feita a regulagem no excêntrico para encaixe dos dentes e a mecânica superior funcionou! Aleluia!

A fronte, anteriormente limpa, teve seus cursores e cames azeitados e foi encaixada no lugar. Parafusos novos (envelhecidos a fogo) foram colocados e as roscas fixas refeitas. A tampa da lançadeira foi executada com uma lâmina inoxidável, com laterais cuidadosamente limadas para deslizar nas ranhuras da mesa.


O pé de madeira da pretensa receptora, foi adaptado à Clemence, assim como o seu brasão dourado. Pinos de suporte para carretel de linha foram colocados, terminais dos cursores,... e tudo o suficiente para sua funcionalidade.

Enfim, mesmo sem a parte mecânica inferior, a Clemence desabrochou das trevas da sucata e, após mais de três décadas de espera, de doadora passou a transplantada. Agora incorpora o acervo das expostas, ao lado de outras 29 Clemens Muller, fabricadas em Dresden, há um século.

 

'”Clemence” Clemens Muller

Tal a Cinderella, aquela da história infantil chinesa do século IX, nossa Clemence exibe-se solene e quebra o silêncio com seu ronronar metálico multitransplantado.

Prof. Darlou D'arisbo
31 de agosto de 2012

sábado, 24 de março de 2012

Willcox & Gibbs – Publicação 10

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas em suas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

O MAMC, nesta 13ª Postagem apresenta o admirável desenvolvimento da indústria Willcox & Gibbs Sewing Machines, iniciada em 1850, a partir da criatividade e perseverança de um agricultor, residente em Rockbridge County, Virgínia.

Registros históricos citam que James Edward Allen Gibbs era um agricultor muito curioso, interessado no aperfeiçoamento de ferramentas, e que brincava com suas invenções nos intervalos das colheitas.

Mencionam que, partir da gravura de uma máquina de costurar Grover & Baker, vista em jornal da época, ele resolveu construir uma semelhante. Para tal, muniu-se de pedaços de madeira, um canivete e alguns acessórios agrícolas. A máquina, modesta e rudimentar, conseguia encadear pontos em tecidos, insinuando uma grosseira costura.


Máquina de James A. E. Gibbs

Em 1856, Gibbs observou criteriosamente uma pioneira máquina Singer, exposta em loja de Washington. A partir dela, idealizou profundas modificações, assim como o sistema de ponto cadeia, no qual cada descida da agulha produz uma alça, que é introduzida na anterior por um gancho rotativo, formando uma sequente corrente (cadeia).


Sistema de cadeia (gancho rotativo)

Tal método revolucionou o processo de costura, pois os existentes utilizavam lançadeira inferior com a segunda linha para completar o ponto.

Em junho de 1857, Gibbs conseguiu patentear um mecanismo mais elaborado, sempre mantendo o sistema de ponto em cadeia, com o tecido tracionado por pequenas rodas dentadas.

 Primeira patente (cortesia Sewalot)


1857 Máquina já industrializada (cortesia Mike Wolfgang)

No mesmo ano, já com uma pequena instalação industrial, fabricou e comercializou as primeiras máquinas.

As diminutas dimensões da máquina, sua eficiência e o baixo custo (metade do valor das demais) constituiram um grande sucesso comercial.


Patente de agosto 1858 (cortesia Sewalot)

A partir de 1858, a empresa prosperou e integrou seu filho Charles Willcox transformando-a em Willcox & Gibbs Sewing Machine Company.

Wilcox, também com característica engenhosidade, registrou várias patentes, como o tensor automático para a linha, executado em vidro; novo sistema de alimentação; redução de ruído mecânico,...

 

Funcionários em frente à JR Brown & Sharpe (1870)

Neste ano, Willcox & Gibbs contratou a indústria JR Brown & Sharpe de Providence, Rhode Island, para produzir as suas máquinas de costurar, com esmero e qualidade muito confiável, por ser consagrada fabricante de relógios de precisão. 


Montagem da W&G na JR Brown & Sharpe (1879)

Para comercializar suas máquinas, Willcox & Gibbs abriu um escritório na renomada Broadway, em Nova York, no ano seguinte.

Enquanto outros fabricantes, como a Wheeler & Wilson vendiam suas máquinas ruidosas e pesadas por Us$100,00, a Willcox & Gibbs, leve, funcional e silenciosa, era oferecida pela metade do preço (Us$50,00).



Além disso, sua máquina dispensava a tarefa do cansativo e intermitente preenchimento das lançadeiras inferiores, como todas as demais, pois que costurava apenas utilizando uma linha, com abastecimento superior.

Afora estas fundamentais qualidades, sua facilidade de utilização, simplicidade mecânica e alta confiabilidade, concorreram para o sucesso de vendas.

Logotipo da W&G (prateado)

Meses após iniciou a venda também em Coalbrookdale, Inglaterra, extraordinário polo comercial da época e onde começou a revolução industrial.

 

Propaganda distribuida em Londres

As agulhas específicas para as suas máquinas de ponto cadeia também foram patenteadas e especialmente produzidas.


(cortesia Sewalot)


Modelos para trabalhos específicos foram também produzidas, como esta “Type 200” para confecção de chapéus de palha


Algumas indústrias produziram cópias (cerca de 30 conhecidas autorizadas ou não) das Willcox Gibbs, assim como esta, com motorização elétrica, fabricada pela Edredge Sewing Machine Company.

Em 1862, a Willcox & Gibbs já possuía representantes nas maiores cidades da Inglaterra: Londes, Nottingham, Manchester, Leeds, Leicester, Birmingham, Luton...

Além destas, também em outras destacadas cidades européias: Glasgow, Paris, Milan, Bruxelas, Antuérpia...


W&G nº145336, fabricada em janeiro de 1870, acervo do autor

A partir de 1953, a empresa apresentou déficit e, em 1960 abriu uma fábrica em Orangeburg, Nova Iorque, adquirindo a Raybond Electronics, fabricante de sistemas de colagem e equipamentos de laminação de madeira.

No ano seguinte, Willcox & Gibbs adquiriu a Sunbrand Corp, produtora de itens para a indústria de vestuário, continuando a adquirir pequenas empresas, não relacionadas com máquinas de costurar.

Em 1982 Willcox & Gibbs vendeu os equipamentos de produção de máquina de costurar para uma empresa japonesa, a Pegasus Inc.

A partir de 1994, a empresa, rebatizada Rexel, Inc., dedicou-se apenas na produção de peças, suprimentos elétricos e cabos especiais para computadores e sistemas de comunicações.


Willcox & Gibbs situada em destaque na sede do MAMC

O MAMC, tendo também por finalidade a pesquisa histórica para a preservação deste e de outros importantes equipamentos mecânicos, fulcros na evolução da humanidade, participará da “Expedicción Sur 2012”, percorrendo a Argentina e o Chile, na pretensão de adquirir informações e peças para enriquecer seu acervo e suscitar discussões dentre os interessados nestes conhecimentos. 

“Uma edição atual do Times contém mais informação que o mortal comum podia receber em toda a vida, 
na Inglaterra do século XVII. (Richard Saul Wurman - editor americano - 1936/ ..)”

Prof. Darlou D’Arisbo
24 de março de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Rainha Clementina – Postagem 08

Em viagem entre Taquara e Porto Alegre - RS, visitei o Sr. Siegfried, um antiquário (também artesanato, floricultura, ... ), na rodovia, onde sempre encontro alguma máquina antiga.

Desta vez, resgatei uma, em deplorável estado. Certamente esteve submetida à intempéries por décadas. Além disso, com todo o mecanismo em adiantado estado de oxidação, as peças móveis estavam travadas, assim como se fundidas juntas.

Observei que, apesar da macabra aparência, estava completa (ou quase). Adquiri a peça para submeter-me ao inacreditável desafio de tentar recuperá-la.

Aparência deplorável


Mecanismo “encravado”

Dias depois, coloquei-a na bancada da oficina, prendi-a na morsa e tentei retirar os dois parafusos da fronte (cabeçote), após borrifá-los com desengripante. Um deles quebrou (o que era de se esperar), um mau presságio vaticinando a triste possibilidade de transformação em sucata.

Mas, induzido pelo meu incansável anjo da guarda, tentei a retirada do segundo parafuso, martelando uma esbelta talhadeira na lateral de sua fenda da cabeça, para forçá-lo a girar, mesmo comprometendo sua estrutura. Aparentou rodar um insignificante “micro-ângulo”.

A partir daí, o procedimento foi borrifá-lo novamente e apertá-lo, com uma potente chave de fenda, para que o desengripante penetre. Com muita dificuldade, ele obedeceu no curto movimento positivo e depois (força) no anti-horário. Ele saiu, mas a máquina gemeu. Ouvi dela, algo como um sussurro melancólico, uma esmorecida voz em súplica alemã: “mich’etten, mich retten, michr...” (salve-me,..)

Foi a mensagem suficiente para empenhar-me na desmontagem total.


Fronte aberta (cabeçote)

Semelhantes dificuldades sucederam-se nos dias seguintes, dedicados quase que integralmente ao intento de ressuscitá-la. Diversos parafusos foram quebrados, seus locais e restos refurados, roscas refeitas. Algumas engrenagens tiveram dentes quebrados pelo exaustivo torque aplicado, na ânsia de fazer mover.

Os eixos, solidarizados no bloco pela oxidação, tiveram sucessivos choques térmicos na tentativa de fazerem girar e serem retirados. Outras partes antes móveis, agora sofreram pesada agressão física para aceitarem o temporário divórcio.


Alguns teimosos e corroídos parafusos (cinza) e eixos (preto)


Parafusos fixadores de biela, ao lado de pequeno palito de fósforos

Mais uns dez dias de longas jornadas, com a oficina tomada por dezenas de ferramentas, vários recipientes contendo solventes específicos (ácido removedor (Remox), fosfatizante, querosene, desengripante,...) com peças mergulhadas (tal um buffet de sopas).

Com o lixeiro cheio de papéis-toalha imundos e luvas de procedimento rompidas, as mãos e dedos feridos, iniciei a montagem...


Algumas peças do cabeçote (fronte)

A decorrência axiomática então se fez presente: as peças desoxidadas (limpas) não mais encaixam! As engrenagens encolheram seus dentes, os mancais folgaram seus eixos, cames liberaram seus pinos, barras trapezoidais não deslizavam mais nos trilhos encolhidos,...
Mas, sempre que o manto do desânimo e do cansaço ameaçava tolher-me o devotamento, eu lembrava de seu derradeiro sussurro e assim, andava sempre mais um passo.

A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico e exclusivo para cada uma. Algumas preenchidas, outras desbastadas, alterados encaixes, ângulos, roscas,...
Muitos parafusos foram refeitos e, como já citado, as roscas antigas são atualmente incompatíveis, assim como suas “cabeças”, seus “pescoços”, encaixes,...


Restaurando os dentes impelentes

Algumas peças foram “adaptadas”, retiradas de máquinas doadoras (sucatas), outras foram “inventadas” a partir de inusitados componentes, como o fixador da mesa metálica na base de madeira, construido com um pedaço de agulha veterinária, arruela vedante e a ponta de parafuso inoxidável, unidos com resina epóxi.


Fixador da base na mesa

A base de madeira não fugiu à regra do quebra cabeças, pois foi executada a partir de nove pedaços de diversas outras sucatas. Um bom “olho clínico” poderá identificar a colcha de retalhos, finalmente estruturada e funcional.
A raríssima e linda manopla de louça, também foi doação de outra moribunda.



Enfim, após muitas voltas de nossa Terra mãe, eis que surge, ao rufar dos tambores surdos e dos moucos clarins, a tão almejada e nobre rainha Clementina (do latim: “a pequena graciosa”).

Seu coração pulsa mais que o meu, gira solene, rompe o silêncio noturno num farfalhar metálico, quiçá por mais um século.



Imponente, majestosa faz pose, dilacera o protocolo e é ela o próprio cerimonial (Clemens Muller 111.993ª).

Prof. Darlou D’Arisbo 
06 de fevereiro de 2012


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Inacreditável “Vô Angelo” - Publicação 07

Em novembro de 2011 recebemos um telefonema de uma jornalista de Florianópolis
-SC, informando sobre um colecionador de máquinas de costurar em Concórdia-SC.
Considerando que ele possuiria 600 máquinas e, dotados de augusta curiosidade, fomos visitá-lo.

Realmente,é fantástica sua imensa coleção de máquinas de costurar, porém ainda mais extraordinária é sua disposição e vitalidade, pois com 96 anos de idade, demonstra ótimaagilidade física, exemplar lucidez e muito entusiasmo nas atividades de conserto, manutenção e restauro. Seu evidente raciocínio lógico, comprovado no conhecimento mecânico e destreza manual, étambém invulgar para alguém com quase um século de vida.



De estatura pequena, magro, declara que o segredo “é manter-se ativo e feliz. E cantar. Viver cantando.. em italiano”.
Dentre tantas atividades, foi pedreiro por décadas e mais de 15 anos como regente de um coral. Aprendeu tocar sozinho acordeão e violão.

Informou-nos que uma filha reside ao lado, mas ele prefere morar só. Sua imensa coleção iniciou há alguns anos, quando sua esposa faleceu e deixou-lhe duas máquinas. A partir daí, adquiriu algumas e ganhou muitas.



Em sua maioria (quase totalidade), são máquinas fabricadas após os anos 60. Algumas mais antigas são apresentadas em destaque.
Todas estão numeradas, com plaquetas de alumínio, impressas em baixo relevo. Não há descrição detalhada de cada peça, ou relação editada.

Muitas máquinas que eram originariamente a pedal, ele adapta uma base de madeira (caixinha), para integrarem o conjunto nas muitas prateleiras.



E, para não sujarem com poeiras, está providenciando capas de tecido para cobri-las, o que apresenta um aspecto colorido ao acervo.



Para a manutenção, conserto e restauro, possui uma elogiável e organizada oficina, com estoque de peças usadas e ferramentas necessárias. Dezenas de máquinas estão na oficina, onde ele costuma permanecer até nas madrugadas para consertá-las, adaptando ou inventando peças.

Enfim, fomos conhecer uma grande coleção de máquinas de costurar e deslumbramo-nos com a existência do “Vô Ângelo”. Sua secular história de vida, uma augusta e surpreendente dedicação à preservação daquelas peças, assim como sua ímpar energia, vitalidade e inacreditável memória excedem as elogiáveis qualidades de um mero humano, demonstram sim um compêndio histórico, interativo, ambulante e disponível.



“Vô Ângelo”, você é a personificação de uma bênção divina, presente, viva e compactada em seu franzino e alegre corpo.

Até a próxima.

31 de janeiro de 2012
Prof. Darlou D’Arisbo

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O R e s t a u r o - Publicação 3

 Conforme a enciclopédia fundamental da língua portuguesa: Lello Universal (ed.1922): “Restauração, s.f. (lat. Restauratio) acto ou effeito de restaurar. Fazer voltar a antiga importância, ao seu original esplendor. Consêrto, reparação; restauração de uma egreja, de um quadro. Assim como o restabelecimento de uma dynastia no throno, que perdera, tal a restauração de Portugal em 1640.”

O restauro é um longo, analítico, analógico e específico processo.

Analítico porque depende de seu estudo minucioso, legitimidade, exame criterioso de suas partes, investigação de sua história, pesquisa física de seus componentes e funcionamento, composição de pigmentos, ligas metálicas e demais materiais.

Analógico, a buscar identificação e semelhanças a outras peças, em conjunto ou parciais, no contexto histórico e evolutivo, sejam relatos pesquisados ou fisicamente acervadas.

Específico porque avalia suas características próprias, considerando que dois objetos aparentemente iguais podem ter sofrido usos e agressões diferentes no curso do tempo, com histórias diferenciadas.

Peças submetidas à intempéries ou até parcialmente soterradas, possuem partes corroídas pela acidez do solo em suas partes enterradas e oxidadas pela ação meteorológica na parte superior. Algumas possuem partes protegidas, menos vulneráveis às agressões naturais, ou recebem tratamentos diferentes em suas partes. Assim, também em relação à utilização, manutenção incorreta, falha de limpeza ou lubrificação de partes móveis, requerem tratamento específico.


Recebo algumas que foram enterradas

Considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana, e reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento ou reconstituir sua aparência e funcionalidade como novo.

Qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração; de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída, partículas minerais muito penetrantes, ...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou falhas de manutenção e de preservação. 

No caso das antigas máquinas de costurar, comprovadamente, o descaso é manifesto; raridades jogadas em ferros-velhos, enferrujando ou propositadamente quebradas para diminuir volume,..



...ou em péssimo estado.

Na aquisição da máquina (vale para outras peças) procuro descartar as que são oferecidas por elevados valores, com visível intenção pecuniária. É importante ter capacidade de avaliar a legitimidade do objeto, sua origem.

Sempre, ao receber uma antiga máquina de costurar, seja por doação ou aquisição, vejo nela a necessidade de algum (ou total) restauro. Os piores casos não são as que sofreram desgastes naturais pela ação do tempo, mas sim as que foram alteradas; repintadas, adulteradas, por vezes com a intenção de ludibriar o comprador ou vendidas como peças “decorativas”.. Há uma infinidade de “fábricas de antiguidades”, muitas com aparência de originais, principalmente relógios, pinturas, gramofones, móveis, livros, entre outros.

Felizmente, as centenárias máquinas de costurar são dificilmente falsificadas, considerando sua constituição original em aço de baixa resistência, o que evidencia fundições exclusivas de sua época.
Esta liga, de ferro e carbono, possui características de fragilidade e fácil decomposição por abrasividade quando comparada às ligas atuais, o que facilita a identificação.
Obviamente, a existência de partes de materiais recentes (plásticos, pigmentos,...) condena sua idade.


Cada máquina (ou suas partes) revela características específicas de restauração e procuro seguir um preceito em que analisa três aspectos básicos:

1. Autenticidade: se realmente trata-se de legítima, cuja origem é conferida por meio de busca em fontes de informação;

2. Preservação: seu desgaste natural pela utilização ao longo do tempo, deterioração, falha de manutenção,...

3. Reversibilidade: possibilidade de recuperação de suas partes, restituição de funcionamento,...

Analisados estes questionamentos, o propósito é de restaurá-la preservando suas marcas de utilização, ou seja, preservar seu estado de quando em funcionamento.

Embora alguns restauradores recuperem as peças de maneira a passarem a apresentar estado de novas, tal quando fabricadas, meu particular objetivo visa o relato histórico, permitindo que as máquinas de costurar voltem a demonstrar suas características de utilização.

Preliminarmente (antes de ações físicas), busca-se a identificação (marca, número de série,..), história (a quem pertenceu, finalidade de utilização, ..), informações complementares,...

Através da Internet pode-se conseguir (ou adquirir) antigos manuais ou fichas técnicas.


Página do Manual da Singer mod. 24

As antigas máquinas de costurar eram bens de propriedade e de uso notoriamente feminino. Embora aquelas damas desempenhassem com excelência as tais essenciais tarefas, observa-se que olvidavam as normas de manutenção e muitas peças apresentam desgastes específicos exagerados. Lubrificavam algumas partes e negligenciavam outras, utilizavam óleos vegetais ou até animais, claramente comprovados no processo de restauro com solventes específicos.

Evidentemente, estas máquinas antigas, foram construídas em materiais resistentes e, justamente por isso, preservam-se por muitas décadas, mesmo sofrendo falhas de manutenção.

Algumas características alimentam os relatos históricos específicos, como a máquina “Junker & Ruh”, adquirida em 1890 e passada sempre da mãe para uma das filhas, por várias gerações, sempre com a proibição de “outros mexerem”. Esta é uma das raras exceções que me chegou em perfeito estado, sempre lubrificada a contento, nunca reformada ou consertada, funcionou exaustivamente por mais de um século! Seu restauro limitou-se à mera limpeza e redação histórica.


Observe-se que, algumas marcas de uso identificam sua utilização no decorrer do tempo, merecem ser preservadas como testemunha histórica de sua vida funcional. Marcas de carbonização em peças de madeira identificam incêndio; desgastes localizados definem formas de uso; restos de insetos noturnos ou pingos de velas indicam utilização noturna; pedaços de papel com informações numéricas em sua caixa inferior (valores, medidas,...); recortes de jornal da época, santinhos com orações,... Enfim, são informações preciosas que esclarecem sua história e que também orientarão seu restauro.

Como normalmente as máquinas chegam-me sem relatos (adquiridas em feiras, ferros-velhos, permutas ou doações), algumas etapas de análise são omitidas. Procedo então à identificação e pré-limpeza e desmontagem.

A pré-limpeza é realizada (com cuidado, para não perder dados, tais os citados), previamente com pincel para retirada de materiais soltos, depois com solventes leves: normalmente (na ordem); água morna, água com detergente, querosene,... Nunca se deve utilizar produtos agressivos (ácidos ou cáusticos). E sempre são indispensáveis os EPIs (luvas e óculos)

A desmontagem, habitualmente requer esforços e ferramentas específicas: morsa, chaves de fenda de impacto, alicates de pressão, pinças... com muito critério e cuidado, pois a constituição das peças era em aço de baixa resistência, quebradiço à impactos.

Importantíssimo é eleger uma ordem de desmontagem, assim como a guarda de seus componentes, pois qualquer desordem comprometerá a recomposição.


Ordem de algumas partes no Manual da Howe 1870

Os parafusos de meio século (ou mais) não se assemelhavam aos atuais, suas roscas (passos, ângulos,...), assim como as “cabeças” não são comercializáveis hoje. Ou seja, é indispensável manter em bom estado os parafusos retirados. Caso necessário, aumentar-lhes a fenda, com uma lâmina de serra para metais (prefiro as com 32 dentes por polegada).


Comumente os parafusos são “teimosos” e, acomodados por muitas décadas, negam-se a sair. Nestes casos não há milagres.
Aplica-se desengripantes, tenta-se com chaves de fenda de impacto, alicates de pressão (se há cabeça aparente), aquece-se tepidamente e... recomeçam-se as tentativas. Por vezes, aplicando-se o desengripante e deixando para o dia seguinte, há um possível sucesso. Mas, em casos extremos, é necessário utilizar talhadeira, com impactos na lateral da fenda, sentido anti-horário, o que pode comprometer a cabeça.

E, se n
em assim o pertinaz parafuso negar-se a sair (principalmente embutidos com cabeça cônica), a solução radical é de aplicar a furadeira (broca menor) e refazer a rosca na peça, obviamente em padrões atuais.  Nesta possibilidade, torna-se necessário escolher um parafuso “parecido” com o original.
Lembre-se que, na época só existiam cabeças tipo “fenda” (patenteado na Inglaterra em 1797), não existia Phillips, Torx, Robertson e outros comuns hoje.

Para substituir para parafusos por atuais, além de adaptar sua cabeça (por torneamento ou lixamento) é necessário “envelhecê-lo” para conferir-lhe a idade da máquina. O procedimento que adoto é simples e exitoso. Consiste em aquecer o parafuso (chama do fogão) até torna-lo rubro, depois mergulha-se em óleo preto (resíduo do cárter de automóveis). O processo vale para quaisquer peças pequenas. Na foto, o pino suporte de carretéis, executado a partir de um prego. 


Pino suporte de carretéis executado a partir de um prego

As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..) e aplicação de pintura protetora. Existem no mercado produtos que apregoam retirar a corrosão, protegendo com camada fosfática. Acredito que sejam realmente eficazes, mas como o meu método tem sido eficiente por décadas, mantenho-o. (não altera-se time vencedor!)


Pinos de carretéis colocado (Saxônia)

Jamais aplicar “jato de areia” ou granalha de ferro para remover corrosão ou pintura antiga, pois danificam por abrasão os componentes, ou até eliminam alguma identificação impressa em baixo relevo.

Sempre investigar minuciosamente as partes inferiores da base, se metálica, e internamente, na busca por inscrições. As peças móveis também podem conter identificação.

Partes seriamente corroídas (cáries) podem ser cuidadosamente preenchidas com resinas (tal Durepoxi), depois lixadas e pintadas (fundo e cobrimento).

Algumas empresas especializadas em pintura eletrostática (aplicação de pigmento em pó) podem prover a limpeza química e pintura da peça.


Sewlette infantil 1965 (antes e depois) com tratamento eletrostático

A pintura das partes (definição de cores na análise preliminar), que normalmente eram pretas, pode ser realizada por pistola ou com pincel de cerdas delgadas e macias. Observe-se que, no restauro que adoto, sempre que possível evito a pintura geral e apenas retocando falhas, no sentido de preservar a aparência de usada, embora recuperando seu funcionamento.

Para a execução do restauro nas partes originalmente cromadas, após a limpeza já citada, utilizo esponja metálica (consagrado Bom Bril) embebida em querosene, o que vale para peças circulares (como volante de acionamento), o qual é colocado no torno, em baixa rotação. Desaconselho a “recromação”, pois alteraria o aspecto de USADA.

Comumente, as antigas máquinas de costurar traziam emblemas metálicos de marca, fabricante ou apenas logotipo da empresa afixados na coluna. Caso seja possível retira-lo, após a limpeza física, mergulhá-los em ácido acético 2-5% (vinagre caseiro serve) por uma noite. Depois aplicar um polidor automotivo.


Plaqueta Singer mod 19

Como os plásticos foram inventados após 1930 (baquelite em 1909), as partes não metálicas eram constituídas de louça (manoplas) ou madeira (bases). Por medida de economia, alguns fabricantes produziram manoplas em madeira torneada, assim como a substituição das quebradas.   Deste modo, quando na ausência da manopla original, executo em madeira uma similar.

 
Execução de torneamento de uma manopla

Procuro refazer as bases de madeira na maior semelhança possível, completando-as com partes análogas em aparência, utilizando adesivos vinílicos (Cascolar, ..)  e ganchos de pressão (sargentos) firmando as partes até a solidarização (24 horas, não menos).

Evita-se a colocação de pregos, parafusos e, em casos de necessários preenchimentos, utiliza-se “palitos de picolé” ou pó de lixamento colados, e acabamento com massa plástica.

Caso constatado o ataque de térmitas (cupins), o procedimento é relatado na publicação “A Hermética Sociedade dos Cupins"

Assim posto, com a humildade que me caracteriza, imagino ter relatado o procedimento que utilizo para restaurar as históricas máquinas de costurar, responsáveis que foram pela evolução mecânica e pela emancipação feminina. 

14 de julho de 2011
Prof. Darlou D'Arisbo