sábado, 7 de março de 2026

Uma centenária ressuscitada - Postagem 49

Depois de quase oito meses sem postagens sobre o nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar, publico este restauro realizado em nossa oficina.
Adquiri através de um site de compras, uma máquina antiga, sem identificação ou histórico. E, ao recebê-la, desacreditei na possibilidade de restauro, pois aparentava péssimo estado, imunda, com várias camadas de pintura aplicadas sobre sujidades e ferrugem. 

Foto no site de vendas 

Possuía ainda alguns adesivos grosseiros e, sobre todo o conjunto, uma camada de verniz toscamente aplicado. Mas consegui identificá-la como a alemã Clemens Muller, embora sua plaqueta estivesse irreconhecível, plenamente coberta.

Mecânica inferior íntegra, mas muito suja

Depois de retirar a base de madeira, aspergi querosene na parte mecânica inferior e observei que estava completa e não foi difícil conseguir girar aquele conjunto motriz..


Inicio da desmontagem

A parte superior, seriamente comprometida pelas citadas abundantes camadas, obrigou a sucessivas raspagens mecânicas, sem a menor possibilidade de manter sequer partes de sua pintura de fábrica.
Após, iniciei o desmonte, surpreendentemente sem muita dificuldade, pois seu conteúdo estava quase completo e os parafusos ainda originais, exigiram apenas paciência para serem retirados, embora vários faltantes.

A exemplo da fronte (foto com parte quase limpa), todo o conjunto mereceu várias aplicações de solventes e raspagens, para poder visualizar (encontrar) os parafusos.

Rebobinador em lamentável estado

O rebobinador, composto de várias partes antes móveis, estava emperrado e exigiu um empenho detalhista para não comprometer o seu complexo e diminuto sistema mecânico ou até romper alguma pequena e importante parte.


Acidente com o volante  

Obviamente, ainda que todos os anjos bons me acompanhem, proporcionando um trabalho cauteloso e proficiente, por vezes surge o Leprechaun, o duende invisível e travesso, cujo prazer é comprometer alguma ação.

E não foi diferente, pois ao tentar retirar o emperrado eixo do volante, fez-me quebrar parte de seu envoltório no volante. E como o material é de aço de baixa têmpera (dito ferro fundido), a solda seria impraticável. Mas consegui retirar o eixo, tornear as rebarbas resultantes da quebra, girando a contento.

 O eixo, na foto já polido

Após detalhada observação, concluí que o eixo (já oxidado) havia sido refeito, com uma excentricidade que não permitiria passar pelo centro do volante.  Assim, teriam executado a peça sem a “cabeça”, ou seja, enfiada a excentricidade no bloco e depois o volante no outro extremo, com uma suposta porca, para evitar sua soltura. Porém, com o uso da máquina, gastaram os filetes da rosca e a porca adentrou e afixou-se na corrosão do eixo.   Falha minha em não ter observado anteriormente...


A frágil plaqueta com o logotipo, antes camuflada pelas camadas de tinta, agora recuperada. 

 O serial, impresso no bloco
 
Consegui descobrir seu serial (número de fabricação), após muitos lixamentos com alta granulometria (400 e 1000 g/pol). Desta maneira pude avaliar sua idade, aplicando uma interpolação entre os seriais de outras Clemens Muller de meu acervo. 

Foi fabricada ao redor de 1920, em Dresden, capital da Saxonia, leste da Alemanha.

 Frágil, pronta a despedaçar.

Sua base de madeira, originalmente composta por seis partes, possuía fraturas várias, além de malfeitos remendos, foi desmontada em uma dezena de pedaços.  


Pregos gigantescos para a função

Não contei, mas cerca de uma centena de pregos, sem sucesso, tentavam em vão manter sua frágil estabilidade.  Apenas numa lateral, retirei 15 pregos de variadas dimensões. 

 Havia até a descabida inserção (a martelo) de um parafuso!

 Orifícios da lâmina inferior, antes e durante os preenchimentos
 
A lâmina inferior da base (madeira esbelta) possuía 17 pregos, e muitos orifícios causados por restos de antigos pregos ou insetos. 

E, assim como toda a estrutura de madeira, também estava fragilizada, necessitando muitos reparos e preenchimentos.


 
Assim como todas as partes, rebobinador e fronte, instalados e funcionando

Enfim, depois de muito trabalho nas “horas vagas” (e insônias), em mais de um mês, o conjunto foi montado, com vários parafusos “novos”, oriundos de máquinas doadoras, e peças, como a tampa posterior da lançadeira; “patinha” calcadora, regulador de ponto e tantos outros. 


Executando a manopla

A manopla foi torneada a partir de um cabo de vassoura; os pinos suportes da linha, de pregos adaptados,...

Obviamente, algumas peças pequenas foram preenchidas com massa epóxi (Durepoxi) para seu melhor encaixe e outras afixadas com resina (Araldite).  Certamente, em melhores condições técnicas e com disponibilidade de peças, o sucesso teria sido melhor a esta vetusta alemã com 105 anos de existência, um quarto de século a mais do que este humilde restaurador.

 Exultante, a velha alemã, com 105 anos, faz pose fotográfica.


Pensamento do dia:
É com os fios da ociosidade que os homens se enforcam. (Zelda Fitzgerald)
 
 
IMPORTANTE:
Ao  postar  comentário,  por favor  identifique-se, pois      
tenho recebido muitos anônimos, o que impede o registro


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sexta-feira, 27 de junho de 2025

A VESTA (Leopold Oskar Dietrich) - Publicação 48

Em 1 de julho de 1871, três serralheiros: Leopold Oskar Dietrich, Hermann Köhler e Gustav Winselmann, que anteriormente trabalhavam na indústria Clemens Muller, fundaram uma oficina para a produção de máquinas de costura em Altenburg (Turíngia Alemanha), sob o nome Dietrich & Co. tendo produzido trezentas até o final do mesmo ano.
Em 1880, resolveram separar e cada um construir a própria empresa. L.O. Dietrich construiu um novo e amplo prédio, permitindo aumentar a produção de sua máquina Vesta (deusa romana do fogo sagrado), já com 1.500 empregados em 1890.

O sucesso de vendas resultou em abertura de escritório em Londres para expandir o mercado ao mundo. Após falecer, (setembro de 1904), o filho assumiu o empreendimento e, em 1936 suas máquinas de costurar eram consideradas as mundialmente famosas. Porém, durante a IIª Guerra, a indústria passou a produzir material bélico, foi parcialmente destruída pelos Aliados e tomada pela Rússia, como reparação de guerra.
 

Modelos da Vesta em 1936

Nosso museu, dentre centenas de outras, possui 16 máquinas manuais Vesta, de diferentes modelos, desde as robustas Dietrich Vesta, até as pequenas “Vestazinha”, estas exclusivas para países de língua portuguesa. Algumas marcas, como Sylvia e Mercedes, foram encontradas impressas nas máquinas Vesta, em alguns países.

Propaganda Vesta, na época pós Vitoriana
 
A Vestazinha (portátil, facilmente transportável), foi fabricada entre 1910 e 1925, exclusivamente para exportação para Portugal e Brasil, com este nome.  


Vestazinha (nº 1.644.317, acervo do autor)


Vesta (nº 1.754.663, acervo do autor)


As máquinas recebidas no nosso país recebiam inscrições em português,...


...assim como as claras explicações citadas no Manual de Utilização, com 40 páginas. 


Traziam um certificado de garantia de cinco anos, mas são eternas.


Algumas nos chegam em péssimo estado, como esta, 
com a tinta permeada pelos orifícios, comprometendo as centenas de peças móveis.


A mesma anterior, serial 1.242.229, após meses de restauro. 
 
 
Encontrar peças para restauro destas preciosidades é algo extraordinário.
Mesmo as simples agulhas tem de ser importadas da República Theca.
 


Sucedem-se as gerações, mas as Vesta, continuam ativas.

Aqui, a vovó Sandra ainda hoje operando com a Vesta de 1920.



Costurar é uma arte da paciência, é aprender a planejar e criar. 
Traz o prazer de ser útil, de ver e sentir a obra realizada. 

 
Vejo, porém, que este entusiástico prazer está sendo esquecido pelas novas gerações. 

 

A costura, com o advento da máquina de costurar, 

foi a semente da emancipação econômica feminina.

As costureiras são esforçadas e delicadas artistas 

que esbanjam talento e amor através de suas obras, 

transformando inertes tecidos em sonhos reais e prazerosos, 

tecendo alegrias e colorindo com mérito a nossa realidade. 

 

 Prof.  Darlou D'Arisbo