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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Oficina de restauro do museu - publicação 20

Ao visitar um paradisíaco resort (www.riodorastro.com.br/), encontrei ali uma histórica máquina de costurar Clemens Muller, como decoração de ambiente. Como a máquina merecia um bom restauro, ofereci meus préstimos aos proprietários, que aceitaram com satisfação.
Uma criteriosa análise preliminar revelou que, apesar da aparência, ela estava quase completa, cujas peças desgastadas poderiam ser recuperadas e as faltantes refeitas.
Trouxe-a para nossa oficina e iniciei a desmontagem, com alguma dificuldade, pois todas as partes móveis estavam encravadas, assim como fundidas juntas. Além disso, as várias camadas de pintura sobre partes oxidadas comprometiam seus detalhes em baixo relevo.





Antes do Restauro

A indústria Clemens Muller (Dresden - 1870) foi a primeira fábrica alemã de máquinas de costurar, com a associação de L.O. Dietrich, G. Winselmann, e H. Kohler, todos depois fabricantes de suas próprias marcas (Vesta, Titan, Kohler e outras). A prosperidade da empresa foi tão grande que, em 1880, fabricou 200.000 e, em seu auge (1930) mais de 3 milhões de máquinas. Na 2ª Guerra, passou a produzir material bélico, sendo dizimada pelos aliados, incluindo seu arquivo de registro.
 
Nosso “Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar” (MAMC), dentre duas centenas de outras, possui mais de 40 Clemens Muller, fabricadas entre 1880 e 1930, todas aqui restauradas, o que testemunha e assegura nossa competência e honestidade neste desempenho.


Identificação de fabricação


Seu autêntico número de série

Ao abrir sua lateral, verifiquei que a engrenagem cônica superior do eixo vertical possuía dois dentes faltantes e, como não havia restos deles no habitáculo, concluí que o acidente ocorreu há muito tempo e já teriam sido retirados.
Após a liberação dos eixos e engrenagens, optei por limagem, aprofundando os demais sulcos e aproximando seus contatos. Descartei a substituição por engrenagens plásticas ou as onerosas metálicas alemãs, considerando o firme princípio da manutenção de sua originalidade.
Os trilhos dos eixos da fronte, também bastante oxidados, mereceram desmonte, aplicação de desoxidante e leve polimento.

Trilhos da fronte



Engrenagem com dentes quebrados

Os eixos foram levemente torneados, suficiente para permitir movimento e evitando aumentar as folgas decorrentes de seu secular funcionamento.
O sistema inferior cursor da lançadeira também estava encravado, foi removido e suas partes trabalhadas


Sistema do cursor da lançadeira e...


...orbital da fronte, oxidados


Torneamento do eixo da lançadeira 

A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico, exclusivo e individual. Embora possuamos reserva técnica, com possíveis doadoras de peças, prefiro sempre manter a originalidade da máquina a ser restaurada.
Assim como o geral, o conjunto do rebobinador também se apresentava engripado, com eixos oxidados e cobertos por várias camadas de tinta, solidarizado tal uma peça única e rígida.
 

Rebobinador antes e depois de restaurado, semi montado.

Alguns parafusos estavam quebrados, tiveram seus restos retirados, locais e sedes refurados e suas roscas refeitas, dentro dos padrões da época, quais sejam: cabeça cilíndrica, torque por fenda, passo e diâmetros “polegada”,...
Todas as peças móveis (cerca de meia centena) foram individual e particularmente tratadas (desmonte, limpeza, desoxidação, polimento,...), algumas reconstruídas ou recuperadas.



Limpeza dos dentes impelentes por abrasão e...


...algumas peças da fronte restauradas.

A desmontagem das peças móveis impõe organização, ordem e método, para seguirem caminhos distintos de restauro e depositários de guarda, devidamente identificados, evitando extravios ou equívocos nas sequências na recomposição. Todas as peças móveis possuem numeração da máquina, identificando possível quebra de originalidade.
 
O conjunto estrutural não foi desmontado (ocorre apenas em raríssima exceção), pois toda a complexa “árvore” do sistema mecânico poderá não mais adaptar-se perfeitamente.
 
Sua pré-limpeza foi efetuada com pincel (sem utilização de solventes), processo delicado e importantíssimo, pois é capaz de encontrar indícios de identificação ou detalhes que caracterizam procedimentos de utilização (pedaços de linha, de tecidos, de alfinetes ou agulhas,...).

Engrenagem maior (coroa) com numeração estampada e...


...volante de acionamento já recuperados

Em outras máquinas já encontrei fragmentos de jornais (definem datas) com caligrafia antiga (“pharmácia”,..), anotações de valores (em “mil réis”) e de dimensões de roupas, fragmentos de insetos noturnos e outras peculiaridades decisivas na pesquisa e que identificam sua época e até turnos de trabalho.
 
A partir desta etapa, com o sistema mecânico (móvel) básico já retirado, foram iniciadas as etapas de limpeza. Inicialmente, realizada leve aplicação de solventes para desagregar restos de lubrificação carbonizada, firmemente incorporados durante um século. Estas aplicações são repetidas várias vezes, com intervalos de 24 horas.
 
As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), seguido de desoxidação, aplicação de camada fosfatizante e pintura protetora.


Conjunto estrutural com aplicação de fosfatizante, inibidor de oxidação

Na fase sequente, empregados detergentes neutros e abluções com água tépida, até completa retirada dos restos. Após, desoxidante e, depois de nova limpeza, aplicada solução de fosfatizante protetor para evitar reoxidação.
 
Jamais se aplica “jato de areia ou de granalha” para remover corrosão ou pintura antiga. Esta atitude, em partes móveis evidencia imperícia, pois danifica por abrasão os componentes (engrenagens, encaixes,...), retirando a proteção original das partes, alterando sua patente originalidade funcional e seus ajustes, podendo até eliminar alguma identificação impressa em baixo relevo.
 
É conveniente ressaltar a necessária delicadeza em todas as etapas, sempre com ferramental apropriado e esforços compatíveis, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é facilmente quebradiça à impactos.


Limpeza pontual por abrasão com mini-retífica e...


aplicação de desoxidante


Preenchimento com corante aglutinado nas falhas de pintura


Base metálica, com belos desenhos em baixo relevo

A base metálica, também constituída em aço de baixa resistência, após todo o processo de abrasão, desoxidação e fosfatização, foi completamente coberta com esmalte sintético, pois suas antigas e muitas camadas de tinta dissimulavam os belos desenhos em baixo relevo.


Restaurada, a Clemens Muller revela sua beleza


 
Dentre as tantas partes recuperadas, restauradas ou executadas, o torneamento, polimento e regulagem das peças móveis constituíram o maior desafio e tempo disponibilizado. Assim como alguns suplementos, que tiveram origem histórica e longínqua, dos quais destacamos:
 
O antigo carretel de madeira, perfeito, completo e original, com linha branca, preservado, foi recebido por doação pelos descendentes de falecida costureira paulista.
 
A agulha, modelo raríssimo, de utilização e encaixe exclusivo para estas centenárias máquinas, é uma preciosidade, foi importada na República Theca. Seu alinhamento e sincronismo, coincidindo a fresa do eixo vertical, a fenda do calcador, o orifício da placa base e o cursor da lançadeira consistiram em conjunto de árduas tarefas, durante vários dias, também com final feliz, após três meses de dedicado trabalho. 


Imponente, a ilustre centenária ressurge



Após restaurada, a condição geral desta ilustre Clemens Muller demonstrou ser satisfatória, sem falhas de funcionamento ou folgas exageradas, apresentando-se tal como em sua primorosa época de atividade.
Certamente merecerá um digno lugar de destaque, concernente à sua patente e histórica nobreza.

O procedimento de restauro excede a mera cirurgia estética, mas sim uma intervenção complexa e funcional. Nosso procedimento, alicerçado em quatro décadas de pesquisas, capacitam a desenvolver profissionalismo e habilidade, suficientes para aplicá-los na reconstituição física dos objetos e recuperação de sua história. Estamos sempre abertos a quaisquer atualizações que resultem em melhor solução, principalmente na preservação das antigas máquinas manuais de costurar, este importantíssimo instrumento mecânico, que foi decisivo participante na evolução mecânica e humana.

Prof. Darlou D’Arisbo
01 de fevereiro de 2016




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

“Clemence” ____________ Publicação 13


 Consideramos missão do museu, tão essencial quanto a preservação da história, a informação transmitida à sua comunidade, agregando conhecimento de forma prazerosa e lúdica.

Assim, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), apresenta hoje mais algumas curiosas peripécias na arte do restauro.

A história da Clemence cujo título poderia ser “O transplantado morreu e a doadora ressuscitou” ocorreu quando de seu pretenso descarte.

Esta antiga máquina de costurar Clemens Muller (689.073), agora batizada de Clemence, foi adquirida como sucata, em Bento Gonçalves/RS, no verão de 1978. Faltavam-lhe muitas partes (volante, coroa, engrenagens, eixos,..) e o que existia, enferrujado, encravado, revelava difícil utilidade. Ficou no depósito da nossa garagem por décadas, sem merecer registro e fotografia.

Em 2001, com a organização do museu, ela recebeu uma breve limpeza, teve parte da mecânica inferior retirada, inutilizável mesmo para reposição. Catalogada como possível doadora, foi depositada como reserva técnica.

Três anos depois, para a tentativa de retirada de uma engrenagem cônica interior, teve seu eixo desencravado. Foi após muito trabalho, por vários dias, que seu o eixo girou.. Como aquela engrenagem negou-se a sair, a máquina voltou novamente para a reserva técnica.

Em 2008, teve a fronte desmontada, para retirada do cursor vertical (da agulha), mas como não serviu na máquina receptora, foi novamente reconstruida e recolocada. Pouco depois, encontramos num ferro velho um volante Clemens Muller, com seu eixo excêntrico quebrado. Um eixo similar foi executado para outra máquina, mas não serviu e foi guardado.



Coroa (engrenagem motriz)

Anteontem, ela foi desmontada para doação de peças à outra Clemens Muller, que estava em restauro. Observou-se, porém, que a engrenagem motriz desta receptora, servia na Clemence, porém não no seu volante, nem no eixo excêntrico.

Tentamos então colocar o volante do ferro velho, a engrenagem motriz desta e aquele eixo guardado, na Clemence. Quase perfeito, porém o diâmetro do eixo era pequeno e refazê-lo seria financeiramente inviável.




Alguns órgãos transplantados na doadora

Na noite seguinte, ao beber uma lata de cerveja para arrefecimento do cérebro, surgiu-me a idéia: cortar uma fita do alumínio da lata e enrolá-lo no eixo, aumentando seu diâmetro. Após algumas tentativas, com uma volta, duas voltas, .. serviu com duas e meia.. Montado o volante e a engrenagem motriz, foi feita a regulagem no excêntrico para encaixe dos dentes e a mecânica superior funcionou! Aleluia!

A fronte, anteriormente limpa, teve seus cursores e cames azeitados e foi encaixada no lugar. Parafusos novos (envelhecidos a fogo) foram colocados e as roscas fixas refeitas. A tampa da lançadeira foi executada com uma lâmina inoxidável, com laterais cuidadosamente limadas para deslizar nas ranhuras da mesa.


O pé de madeira da pretensa receptora, foi adaptado à Clemence, assim como o seu brasão dourado. Pinos de suporte para carretel de linha foram colocados, terminais dos cursores,... e tudo o suficiente para sua funcionalidade.

Enfim, mesmo sem a parte mecânica inferior, a Clemence desabrochou das trevas da sucata e, após mais de três décadas de espera, de doadora passou a transplantada. Agora incorpora o acervo das expostas, ao lado de outras 29 Clemens Muller, fabricadas em Dresden, há um século.

 

'”Clemence” Clemens Muller

Tal a Cinderella, aquela da história infantil chinesa do século IX, nossa Clemence exibe-se solene e quebra o silêncio com seu ronronar metálico multitransplantado.

Prof. Darlou D'arisbo
31 de agosto de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Rainha Clementina – Postagem 08

Em viagem entre Taquara e Porto Alegre - RS, visitei o Sr. Siegfried, um antiquário (também artesanato, floricultura, ... ), na rodovia, onde sempre encontro alguma máquina antiga.

Desta vez, resgatei uma, em deplorável estado. Certamente esteve submetida à intempéries por décadas. Além disso, com todo o mecanismo em adiantado estado de oxidação, as peças móveis estavam travadas, assim como se fundidas juntas.

Observei que, apesar da macabra aparência, estava completa (ou quase). Adquiri a peça para submeter-me ao inacreditável desafio de tentar recuperá-la.

Aparência deplorável


Mecanismo “encravado”

Dias depois, coloquei-a na bancada da oficina, prendi-a na morsa e tentei retirar os dois parafusos da fronte (cabeçote), após borrifá-los com desengripante. Um deles quebrou (o que era de se esperar), um mau presságio vaticinando a triste possibilidade de transformação em sucata.

Mas, induzido pelo meu incansável anjo da guarda, tentei a retirada do segundo parafuso, martelando uma esbelta talhadeira na lateral de sua fenda da cabeça, para forçá-lo a girar, mesmo comprometendo sua estrutura. Aparentou rodar um insignificante “micro-ângulo”.

A partir daí, o procedimento foi borrifá-lo novamente e apertá-lo, com uma potente chave de fenda, para que o desengripante penetre. Com muita dificuldade, ele obedeceu no curto movimento positivo e depois (força) no anti-horário. Ele saiu, mas a máquina gemeu. Ouvi dela, algo como um sussurro melancólico, uma esmorecida voz em súplica alemã: “mich’etten, mich retten, michr...” (salve-me,..)

Foi a mensagem suficiente para empenhar-me na desmontagem total.


Fronte aberta (cabeçote)

Semelhantes dificuldades sucederam-se nos dias seguintes, dedicados quase que integralmente ao intento de ressuscitá-la. Diversos parafusos foram quebrados, seus locais e restos refurados, roscas refeitas. Algumas engrenagens tiveram dentes quebrados pelo exaustivo torque aplicado, na ânsia de fazer mover.

Os eixos, solidarizados no bloco pela oxidação, tiveram sucessivos choques térmicos na tentativa de fazerem girar e serem retirados. Outras partes antes móveis, agora sofreram pesada agressão física para aceitarem o temporário divórcio.


Alguns teimosos e corroídos parafusos (cinza) e eixos (preto)


Parafusos fixadores de biela, ao lado de pequeno palito de fósforos

Mais uns dez dias de longas jornadas, com a oficina tomada por dezenas de ferramentas, vários recipientes contendo solventes específicos (ácido removedor (Remox), fosfatizante, querosene, desengripante,...) com peças mergulhadas (tal um buffet de sopas).

Com o lixeiro cheio de papéis-toalha imundos e luvas de procedimento rompidas, as mãos e dedos feridos, iniciei a montagem...


Algumas peças do cabeçote (fronte)

A decorrência axiomática então se fez presente: as peças desoxidadas (limpas) não mais encaixam! As engrenagens encolheram seus dentes, os mancais folgaram seus eixos, cames liberaram seus pinos, barras trapezoidais não deslizavam mais nos trilhos encolhidos,...
Mas, sempre que o manto do desânimo e do cansaço ameaçava tolher-me o devotamento, eu lembrava de seu derradeiro sussurro e assim, andava sempre mais um passo.

A adaptação de todas as peças mereceu um trabalho específico e exclusivo para cada uma. Algumas preenchidas, outras desbastadas, alterados encaixes, ângulos, roscas,...
Muitos parafusos foram refeitos e, como já citado, as roscas antigas são atualmente incompatíveis, assim como suas “cabeças”, seus “pescoços”, encaixes,...


Restaurando os dentes impelentes

Algumas peças foram “adaptadas”, retiradas de máquinas doadoras (sucatas), outras foram “inventadas” a partir de inusitados componentes, como o fixador da mesa metálica na base de madeira, construido com um pedaço de agulha veterinária, arruela vedante e a ponta de parafuso inoxidável, unidos com resina epóxi.


Fixador da base na mesa

A base de madeira não fugiu à regra do quebra cabeças, pois foi executada a partir de nove pedaços de diversas outras sucatas. Um bom “olho clínico” poderá identificar a colcha de retalhos, finalmente estruturada e funcional.
A raríssima e linda manopla de louça, também foi doação de outra moribunda.



Enfim, após muitas voltas de nossa Terra mãe, eis que surge, ao rufar dos tambores surdos e dos moucos clarins, a tão almejada e nobre rainha Clementina (do latim: “a pequena graciosa”).

Seu coração pulsa mais que o meu, gira solene, rompe o silêncio noturno num farfalhar metálico, quiçá por mais um século.



Imponente, majestosa faz pose, dilacera o protocolo e é ela o próprio cerimonial (Clemens Muller 111.993ª).

Prof. Darlou D’Arisbo 
06 de fevereiro de 2012


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

New Home Sewing Machine - Publicação 6

Nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) apresenta relato sobre a Indústria New Home, de máquinas de costurar.

Thomas White, fundador desta indústria, construiu sua primeira máquina, conforme relatos, em 1870, a qual ele denominou “New England”.

A New Home Sewing Machine Co. foi formada oficialmente em 1876 (Orange, New Jersey) embora, em alguns em alguns documentos, conste 1860, na época da acirrada batalha entre os fabricantes pelo registro de patentes.

A próspera indústria produziu também agulhas e peças para outras fábricas. E, em 1880, sua propaganda informava que era “A melhor máquina já feita”, frequentemente citada como “light running New Home.”

 
Propaganda de jornal (abril de 1889)

Em 1884 a produção atingiu 500 máquinas por dia, incluindo marcas secundárias (New National,..) e, entre 1906 e 1907, a produção foi de 150.000 máquinas, sempre utilizando o logotipo do “Galgo” (cão de pernas compridas, ágil e veloz).

 
Manual de lubrificação (1900)

Os manuais profusamente ilustrados, permitiam às usuárias (iletradas ou com dificuldade de tradução), interpretar suas funções, manutenção e lubrificação.

Em 1920 a empresa começou a perder terreno em relação aos concorrentes, em 1930 a Free Sewing Machine Co. assumiu seu controle, instalando-se em Rockford, Illinois. Cerca de 7 milhões de máquinas New Home estavam em uso em 1937.

 
New Home 1883 (acervo do autor)

Vários modelos foram produzidos, inicialmente manuais, alguns com elegante móvel para guarda dos acessórios. O modelo 914, embora manual, possuía um pedal de segurança, o qual deveria ser acionado para girar a manopla.

Embora construídas em aço de baixa resistência, seu corpo era elegantemente acabado, ornamentado com detalhes dourados e prateados.

 
New Home 1890 (acervo do autor)

O que atualmente seria hilariante, um vistoso certificado acompanhava a máquina, oferecendo garantia por VINTE anos, o que lhe conferia robustez e funcionamento por mais de meio século.

 
Certificado de Garantia por 20 anos

Realmente, sua solidez é confirmada pelas máquinas de nosso acervo, as quais exigiram pouco restauro para seu funcionamento.

 
 New Home 1907 (acervo do autor)

Em 2008, recebemos a doação de uma New Home elétrica, fabricada em 1949. A parte mecânica estava perfeita, com pintura original, decalques... Necessitou apenas limpeza e lubrificação.

 
New Home 1949, requintada e preservada

 
Decalques alusivos às premiações (medalhas de ouro)

Porém o lindo móvel de madeira estava completamente infestado por cupins, o que induziria a descarte imediato, por inutilização e perigo de propagação a outras peças. 
Um longo trabalho de desmonte total, em ambiente isolado e sequente inserção de todas as partes de madeira em freezer, por 10 dias, eliminou a atemorizadora praga.

 
A infestação ocupou toda a parte de madeira

 
O móvel, após completo restauro

 
Capa do Manual de Utilização desta New Home

A Indústria New Home encerrou sua produção com último registro de fabricação em 1955.

O Museu de Antigas Máquinas de Costurar – MAMC agradece por toda e qualquer comentário ou crítica que possa auxiliar na pesquisa e preservação destes importantes instrumentos mecânicos.



“A memória consiste em muito mais do que apenas uma lembrança de fatos, ações ou coisas. Significa sim, uma doce e agradável viagem para um mundo intemporal, onde a vida se perpetua na presença de objetos que fizeram parte da existência de pessoas que já se foram...
Não seria exagero afirmar que a memória histórica é um universo mágico, onde se perde o peso, ao levitar nas tantas informações transmitidas pelas peças de um querido acervo (Darlou D’Arisbo).” 
 17 de novembro de 2011
Prof. Darlou D'Arisbo

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O R e s t a u r o - Publicação 3

 Conforme a enciclopédia fundamental da língua portuguesa: Lello Universal (ed.1922): “Restauração, s.f. (lat. Restauratio) acto ou effeito de restaurar. Fazer voltar a antiga importância, ao seu original esplendor. Consêrto, reparação; restauração de uma egreja, de um quadro. Assim como o restabelecimento de uma dynastia no throno, que perdera, tal a restauração de Portugal em 1640.”

O restauro é um longo, analítico, analógico e específico processo.

Analítico porque depende de seu estudo minucioso, legitimidade, exame criterioso de suas partes, investigação de sua história, pesquisa física de seus componentes e funcionamento, composição de pigmentos, ligas metálicas e demais materiais.

Analógico, a buscar identificação e semelhanças a outras peças, em conjunto ou parciais, no contexto histórico e evolutivo, sejam relatos pesquisados ou fisicamente acervadas.

Específico porque avalia suas características próprias, considerando que dois objetos aparentemente iguais podem ter sofrido usos e agressões diferentes no curso do tempo, com histórias diferenciadas.

Peças submetidas à intempéries ou até parcialmente soterradas, possuem partes corroídas pela acidez do solo em suas partes enterradas e oxidadas pela ação meteorológica na parte superior. Algumas possuem partes protegidas, menos vulneráveis às agressões naturais, ou recebem tratamentos diferentes em suas partes. Assim, também em relação à utilização, manutenção incorreta, falha de limpeza ou lubrificação de partes móveis, requerem tratamento específico.


Recebo algumas que foram enterradas

Considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana, e reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento ou reconstituir sua aparência e funcionalidade como novo.

Qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração; de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída, partículas minerais muito penetrantes, ...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou falhas de manutenção e de preservação. 

No caso das antigas máquinas de costurar, comprovadamente, o descaso é manifesto; raridades jogadas em ferros-velhos, enferrujando ou propositadamente quebradas para diminuir volume,..



...ou em péssimo estado.

Na aquisição da máquina (vale para outras peças) procuro descartar as que são oferecidas por elevados valores, com visível intenção pecuniária. É importante ter capacidade de avaliar a legitimidade do objeto, sua origem.

Sempre, ao receber uma antiga máquina de costurar, seja por doação ou aquisição, vejo nela a necessidade de algum (ou total) restauro. Os piores casos não são as que sofreram desgastes naturais pela ação do tempo, mas sim as que foram alteradas; repintadas, adulteradas, por vezes com a intenção de ludibriar o comprador ou vendidas como peças “decorativas”.. Há uma infinidade de “fábricas de antiguidades”, muitas com aparência de originais, principalmente relógios, pinturas, gramofones, móveis, livros, entre outros.

Felizmente, as centenárias máquinas de costurar são dificilmente falsificadas, considerando sua constituição original em aço de baixa resistência, o que evidencia fundições exclusivas de sua época.
Esta liga, de ferro e carbono, possui características de fragilidade e fácil decomposição por abrasividade quando comparada às ligas atuais, o que facilita a identificação.
Obviamente, a existência de partes de materiais recentes (plásticos, pigmentos,...) condena sua idade.


Cada máquina (ou suas partes) revela características específicas de restauração e procuro seguir um preceito em que analisa três aspectos básicos:

1. Autenticidade: se realmente trata-se de legítima, cuja origem é conferida por meio de busca em fontes de informação;

2. Preservação: seu desgaste natural pela utilização ao longo do tempo, deterioração, falha de manutenção,...

3. Reversibilidade: possibilidade de recuperação de suas partes, restituição de funcionamento,...

Analisados estes questionamentos, o propósito é de restaurá-la preservando suas marcas de utilização, ou seja, preservar seu estado de quando em funcionamento.

Embora alguns restauradores recuperem as peças de maneira a passarem a apresentar estado de novas, tal quando fabricadas, meu particular objetivo visa o relato histórico, permitindo que as máquinas de costurar voltem a demonstrar suas características de utilização.

Preliminarmente (antes de ações físicas), busca-se a identificação (marca, número de série,..), história (a quem pertenceu, finalidade de utilização, ..), informações complementares,...

Através da Internet pode-se conseguir (ou adquirir) antigos manuais ou fichas técnicas.


Página do Manual da Singer mod. 24

As antigas máquinas de costurar eram bens de propriedade e de uso notoriamente feminino. Embora aquelas damas desempenhassem com excelência as tais essenciais tarefas, observa-se que olvidavam as normas de manutenção e muitas peças apresentam desgastes específicos exagerados. Lubrificavam algumas partes e negligenciavam outras, utilizavam óleos vegetais ou até animais, claramente comprovados no processo de restauro com solventes específicos.

Evidentemente, estas máquinas antigas, foram construídas em materiais resistentes e, justamente por isso, preservam-se por muitas décadas, mesmo sofrendo falhas de manutenção.

Algumas características alimentam os relatos históricos específicos, como a máquina “Junker & Ruh”, adquirida em 1890 e passada sempre da mãe para uma das filhas, por várias gerações, sempre com a proibição de “outros mexerem”. Esta é uma das raras exceções que me chegou em perfeito estado, sempre lubrificada a contento, nunca reformada ou consertada, funcionou exaustivamente por mais de um século! Seu restauro limitou-se à mera limpeza e redação histórica.


Observe-se que, algumas marcas de uso identificam sua utilização no decorrer do tempo, merecem ser preservadas como testemunha histórica de sua vida funcional. Marcas de carbonização em peças de madeira identificam incêndio; desgastes localizados definem formas de uso; restos de insetos noturnos ou pingos de velas indicam utilização noturna; pedaços de papel com informações numéricas em sua caixa inferior (valores, medidas,...); recortes de jornal da época, santinhos com orações,... Enfim, são informações preciosas que esclarecem sua história e que também orientarão seu restauro.

Como normalmente as máquinas chegam-me sem relatos (adquiridas em feiras, ferros-velhos, permutas ou doações), algumas etapas de análise são omitidas. Procedo então à identificação e pré-limpeza e desmontagem.

A pré-limpeza é realizada (com cuidado, para não perder dados, tais os citados), previamente com pincel para retirada de materiais soltos, depois com solventes leves: normalmente (na ordem); água morna, água com detergente, querosene,... Nunca se deve utilizar produtos agressivos (ácidos ou cáusticos). E sempre são indispensáveis os EPIs (luvas e óculos)

A desmontagem, habitualmente requer esforços e ferramentas específicas: morsa, chaves de fenda de impacto, alicates de pressão, pinças... com muito critério e cuidado, pois a constituição das peças era em aço de baixa resistência, quebradiço à impactos.

Importantíssimo é eleger uma ordem de desmontagem, assim como a guarda de seus componentes, pois qualquer desordem comprometerá a recomposição.


Ordem de algumas partes no Manual da Howe 1870

Os parafusos de meio século (ou mais) não se assemelhavam aos atuais, suas roscas (passos, ângulos,...), assim como as “cabeças” não são comercializáveis hoje. Ou seja, é indispensável manter em bom estado os parafusos retirados. Caso necessário, aumentar-lhes a fenda, com uma lâmina de serra para metais (prefiro as com 32 dentes por polegada).


Comumente os parafusos são “teimosos” e, acomodados por muitas décadas, negam-se a sair. Nestes casos não há milagres.
Aplica-se desengripantes, tenta-se com chaves de fenda de impacto, alicates de pressão (se há cabeça aparente), aquece-se tepidamente e... recomeçam-se as tentativas. Por vezes, aplicando-se o desengripante e deixando para o dia seguinte, há um possível sucesso. Mas, em casos extremos, é necessário utilizar talhadeira, com impactos na lateral da fenda, sentido anti-horário, o que pode comprometer a cabeça.

E, se n
em assim o pertinaz parafuso negar-se a sair (principalmente embutidos com cabeça cônica), a solução radical é de aplicar a furadeira (broca menor) e refazer a rosca na peça, obviamente em padrões atuais.  Nesta possibilidade, torna-se necessário escolher um parafuso “parecido” com o original.
Lembre-se que, na época só existiam cabeças tipo “fenda” (patenteado na Inglaterra em 1797), não existia Phillips, Torx, Robertson e outros comuns hoje.

Para substituir para parafusos por atuais, além de adaptar sua cabeça (por torneamento ou lixamento) é necessário “envelhecê-lo” para conferir-lhe a idade da máquina. O procedimento que adoto é simples e exitoso. Consiste em aquecer o parafuso (chama do fogão) até torna-lo rubro, depois mergulha-se em óleo preto (resíduo do cárter de automóveis). O processo vale para quaisquer peças pequenas. Na foto, o pino suporte de carretéis, executado a partir de um prego. 


Pino suporte de carretéis executado a partir de um prego

As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..) e aplicação de pintura protetora. Existem no mercado produtos que apregoam retirar a corrosão, protegendo com camada fosfática. Acredito que sejam realmente eficazes, mas como o meu método tem sido eficiente por décadas, mantenho-o. (não altera-se time vencedor!)


Pinos de carretéis colocado (Saxônia)

Jamais aplicar “jato de areia” ou granalha de ferro para remover corrosão ou pintura antiga, pois danificam por abrasão os componentes, ou até eliminam alguma identificação impressa em baixo relevo.

Sempre investigar minuciosamente as partes inferiores da base, se metálica, e internamente, na busca por inscrições. As peças móveis também podem conter identificação.

Partes seriamente corroídas (cáries) podem ser cuidadosamente preenchidas com resinas (tal Durepoxi), depois lixadas e pintadas (fundo e cobrimento).

Algumas empresas especializadas em pintura eletrostática (aplicação de pigmento em pó) podem prover a limpeza química e pintura da peça.


Sewlette infantil 1965 (antes e depois) com tratamento eletrostático

A pintura das partes (definição de cores na análise preliminar), que normalmente eram pretas, pode ser realizada por pistola ou com pincel de cerdas delgadas e macias. Observe-se que, no restauro que adoto, sempre que possível evito a pintura geral e apenas retocando falhas, no sentido de preservar a aparência de usada, embora recuperando seu funcionamento.

Para a execução do restauro nas partes originalmente cromadas, após a limpeza já citada, utilizo esponja metálica (consagrado Bom Bril) embebida em querosene, o que vale para peças circulares (como volante de acionamento), o qual é colocado no torno, em baixa rotação. Desaconselho a “recromação”, pois alteraria o aspecto de USADA.

Comumente, as antigas máquinas de costurar traziam emblemas metálicos de marca, fabricante ou apenas logotipo da empresa afixados na coluna. Caso seja possível retira-lo, após a limpeza física, mergulhá-los em ácido acético 2-5% (vinagre caseiro serve) por uma noite. Depois aplicar um polidor automotivo.


Plaqueta Singer mod 19

Como os plásticos foram inventados após 1930 (baquelite em 1909), as partes não metálicas eram constituídas de louça (manoplas) ou madeira (bases). Por medida de economia, alguns fabricantes produziram manoplas em madeira torneada, assim como a substituição das quebradas.   Deste modo, quando na ausência da manopla original, executo em madeira uma similar.

 
Execução de torneamento de uma manopla

Procuro refazer as bases de madeira na maior semelhança possível, completando-as com partes análogas em aparência, utilizando adesivos vinílicos (Cascolar, ..)  e ganchos de pressão (sargentos) firmando as partes até a solidarização (24 horas, não menos).

Evita-se a colocação de pregos, parafusos e, em casos de necessários preenchimentos, utiliza-se “palitos de picolé” ou pó de lixamento colados, e acabamento com massa plástica.

Caso constatado o ataque de térmitas (cupins), o procedimento é relatado na publicação “A Hermética Sociedade dos Cupins"

Assim posto, com a humildade que me caracteriza, imagino ter relatado o procedimento que utilizo para restaurar as históricas máquinas de costurar, responsáveis que foram pela evolução mecânica e pela emancipação feminina. 

14 de julho de 2011
Prof. Darlou D'Arisbo