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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Calculadora Multo – publicação 19

Nesta postagem, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), apresenta algumas presenças em seu acervo secundário, brindado por ilustres peças não menos importantes. Assim, seu rico acervo é também povoado por antigas balanças, candeeiros, relógios de parede, moedores de grãos, maquininhas de calcular,… E, justamente esta, ilustra o motivo da presente publicação.

Os historiadores relatam que o homem, na origem da relação lógica do cálculo, utilizava como ferramental os próprios dedos. Depois passou a expressar sinais rupestres, seriados e em baixo relevo.

Lá pelo 4º milênio antes de Cristo, os fenícios inventaram a impressão de algarismos em placa de argila fresca, com a finalidade de facilitar “as contas”. Denominaram o sistema de ÁBACO. 
 
Depois, um tabuleiro coberto por areia, similar ao utilizado para escrever, era utilizado para cálculos aritméticos e demonstrativos.
 
Com o tempo foi aperfeiçoado e, dois séculos antes de Jesus, já era constituído por pedrinhas deslizantes em varetas paralelas, estruturado por um quadro de madeira. 



O grande progresso da máquina de calcular ocorreu em 1642, quando o adolescente francês Blaise Pascal, com apenas 18 anos, desenvolveu a “Pascalina”. O sistema possuía um conjunto de engrenagens interligadas, onde cada módulo era decimal em relação ao esquerdo. Foi a precursora dos processos lógicos atuais.


A perfeição da máquina permitiu seu acervamento no Conservatoire des Arts et Metiers, em Paris e, quase quatro séculos depois, ainda funciona.
 
Passados 30 anos, em 1673, o alemão Gottfried Leibnitz, aperfeiçoou a “Pascalina”, inventando uma máquina que efetuava multiplicação e divisão, em processo de adição (ou subtração) de parcelas.


E, na data da independência do Brasil (1822), na Inglaterra, o cientista Charles Babbage desenvolveu um sistema mecânico que permitia atá cálculos com funções trigonométricas e logarítmicas.
Na metade do século XX, diversas indústrias já produziam calculadoras, com emaranhado sistema mecânico.

Calculadora Multo, sueca, fabricada entre 1936 e 1954.



Esta calculadora Multo, modelo 3, fabricada na Suécia (1936 a 1954) foi uma gentilíssima doação ao nosso museu, pelos queridos amigos Ruy/Marlene e foi utilizada por eles durante décadas, em sua empresa.

O sistema de funcionamento é mecânico, por acionamento manual e, justamente por este motivo, exige um bom grau de compenetração e de entendimento. Ela processa as quatro operações de maneira lógica, quais sejam:

A SOMA, é cumulativa e cada algarismo é registrado mecanicamente por um cursor móvel. As parcelas numéricas então são acrescentadas por acionamento de manivela no sentido horário.

A SUBTRAÇÃO é análoga à soma, porém invertida, abatendo cada parcela da anterior, girando a manivela no sentido inverso. 

A MULTIPLICAÇÃO é mais complexa e baseia-se em seu princípio elementar, realizada por sucessivas adições de parcelas. O cursor inferior é móvel, permitindo acessar cada respectiva casa decimal. Assim ao multiplicar números com vários algarismos, acessa-se os decimais em sequência, assim como antigamente se executava à mão. À esquerda do cursor móvel há indicação do número de vezes que a parcela foi adicionada.

A DIVISÂO é ainda mais extravagante, para nós, escravos das eletrônicas. Alicerçada no procedimento elementar do cálculo realizado à mão, é efetivada ao contrário da multiplicação. Assemelha-se ao procedimento que fazíamos com lápis no caderno de aritmética. A máquina possui um providencial “sininho” que soa quando alguma parcela deduzida excede o valor de seu decimal correspondente.

Certamente, esta informação verbal é de difícil interpretação, principalmente para quem não mais executa multiplicações e divisões realizadas à mão.



Não necessitou de restauro, após ligeira limpeza e lubrificação, recebeu pés emborrachados (gentileza do “www.museudoradio.com) e teve sua capa protetora recosturada (delicadamente executada pela rainha San).

Então, devidamente protegida, aposentada após o digno trabalho de décadas, mantida presente como digna página na história da evolução técnica mecânica.

Pensamento do dia: “Evitarei, com todas as minhas forças, duas calamidades: 
a pressa e a indecisão.” (9º Mandamento da Serenidade)

Prof. Darlou D’Arisbo
11 de fevereiro de 2015 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Nobres Silfos Vadios - Publicação 18

Nesta postagem, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), declina do frio âmbito da interpretação ferramental e mecanicista, passando a navegar por um mar mais poético, entre as tangíveis falésias do conhecimento e os místicos e etéreos horizontes. Apenas uma tardia e adocicada pausa entre as tantas anteriores sóbrias publicações.

“É vedada a utilização de quaisquer informações aqui contidas, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”


Historicamente, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar, iniciou como todos os acervos particulares: com uma peça, depois outra e mais outra...

 
 
Cinco décadas acervaram mais de um século

Hoje, com mais de duas centenas de máquinas de costurar, registrado no MinC, é um sólido banco de dados da evolução mecânica e integração social deste importantíssimo ferramental no desenvolvimento humano.

 
A tangibilidade da história mecânica

Neste acervo de antiguidades, tenho mais que a tangível apresentação de um dinâmico e exaustivo trabalho em centenas de históricas peças: uma dedicação insistente de mais de meio século, no tempo que justificou grande parte de minha própria existência.

 
Mais de um século se faz presente

Significa-me algo como a eternidade. A qual, como a continuidade da imagem presente daqueles notáveis humanos, agora já etéreos, desde os que projetaram e construiram, até os que tanto manipularam tais objetos. Suas vivas mãos, seus músculos e pele, marcaram e gastaram os rígidos materiais que os compõem. Encontraremos ainda restos de suas mãos nos botões e manoplas das máquinas de costurar, escrever, moer,...

 
Um relato atual do pretérito exposto

E também elas peças, parecem manifestar um patente e curioso humor... Por vezes recusam-se a serem consertadas. Encravam seus parafusos, emperram suas engrenagens, suas madeiras atraem térmitas cupins, rompem-se, deixam-se cair... Outras vezes, ao contrário, oferecem-se emitindo sons rangidos, reflexos de luz,... Vivem seus instantes de agudas crises depressivas, ou momentos de alegria e prazer, tentando aos seus modos, as mais inacreditáveis demonstrações de existência.

 
 Sonoramente, rompem-se marcando suas presenças

Sinto nelas, as presenças de seus passados usuários, em constante e silenciosa miragem. Descem dos céus, por talvez saudades de seus caseiros objetos, no silêncio das noites escuras, e vem aqui costurar suas vestes de nada…

 
A época da maestria das mãos

...ou soprar as vagas brasas dos frios ferros de passar, moer fantasiosos grãos de café torrado, fazer quirera de milho para alimentar pintos ausentes.

 
Convertia sementes em quirera

Pé ante pé, silenciosamente na madrugada fria, chega o Major, meu saudoso pai. Em augusto segredo, sem o menor ruído e com muita delicadeza, toma a sua antiga e reluzente espada, desembainha-a e afaga-a como a um manhoso gato. Lustra-a e, satisfeita a saudade, guarda-a no lugar. Algumas vezes esquece-a sobre a mesa, distraído a observar, na miscelânea da parede, o relógio da vida de alfaiate, de seu pai.

 
Os tempos dos Ford T, Melindrosas, Einstein…

Distraídos, quiçá como eram em vida, por vezes marcam suas estadas: dão corda nos relógios de parede, esquecem armários abertos, mudam coisas de lugar...

Outras vezes, reúnem-se ao coincidente acaso, várias fantasmagóricas criaturas. Descem e voltam ao nosso mundo para contar causos, lembrar histórias em graves sussurros e dissimulados sorrisos, em efêmeras e merecidas ausências celestes. Ou até, em negligente ousadia, correndo o risco de flagrados serem, ao me acordar por um ruído, beijam os meus sonhos, no adormecido filho vivo.

 
Uma manifesta consagração divina

Abençoam os “sonos” da vida e, sem rufar de asas, voltam contentes ao mesmo celestial silêncio dos céus.
Enfim, são eles os proprietários. Eu, apenas efêmero depositário e fiel guardião.

 
Mortal e devotado guardião

Eles continuam donos perpétuos de suas coisas. Sempre usufruiram seus estimados objetos, seus pertences... Sempre viverão suas peças. E eu os vejo nelas.

“Diariamente, praticarei o bem, em toda a sua extensão e por apenas um dia. Afinal, eu me desanimaria se pensasse em praticá-lo por toda a minha vida.” (13º Mandamento da Serenidade)

(Darlou D’Arisbo / excertos das memórias históricas escrito em 22 de março de 1986) 
 
Prof. Darlou D'Arisbo
08 de janeiro de 2014 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Fontes de Relíquias - Publicação 16

“É vedada a utilização de quaisquer informações aqui contidas, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

Nesta postagem, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), apresenta um assunto diverso da matriz temática comumente abordada, embora não fugindo do objetivo maior: as antigas máquinas de costurar. E, como alguns visitantes ao blog questionaram sobre “onde adquirir” tais antigas relíquias, decidimos publicar este, citando algumas “feiras de rua”.

Inúmeras são as cidades que dispõem deste tipo de comércio, normalmente organizado aos domingos, com ofertas de impressionante variedade de antiguidades, incluindo as maquininhas. Visitá-las, percorrendo seu emaranhado conjunto de tendas, é um exercício prazeroso e divertido.


A origem das feiras de rua, perde-se no tempo. Certamente alguns milênios antes de Cristo, com o sistema de escambo (troca de produtos).
Assim, em nossas viagens, sempre procuramos coincidir o “dia de feira” com nossa permanência nas cidades.

Além das conhecidas feiras brasileiras, o Uruguai, é um território próximo e fértil em peças antigas. Sua história é rica e, sua “Feria de Tristan Narvaja” (Montevidéu), é imensa, distribuída em cerca de quarenta quadras.


Várias outros locais uruguaios, oferecem peças antigas, incluindo automóveis e, normalmente, sempre carecendo de restauro. Os vendedores normalmente demonstram facilidade de negociação.


Alguns vendedores expõe os objetos às margens de algumas rodovias, facilitando visualização e comércio.


Na capital Argentina, a “Feria de San Telmo”, é igualmente imensa. Possui também algumas lojas em galerias, com exclusividades (luminárias, estátuas, armaduras, relógios,…)


Na Europa, em recente viagem (“felizmotorhome.blogspot.com”), visitamos muitas cidades com semelhante comércio dominical. Infelizmente, em várias, não pudemos coincidir nossa presença, com os respectivas datas de realização


As antiguidades estão integradas nos milênios da história européia e, presente também na decoração de muitos estabelecimentos comerciais. Na cidade do Porto, Portugal, um restaurante dispôs milhares de objetos antigos em suas paredes, incluindo um célebre Fiat 500!


Em Lisboa, todos os domingos, realiza-se a afamada “Feira da Ladra”, nas proximidades do Panteão.


Pequenas cidades européias também mantém a tradicional e assídua feira semanal. A cidade de Oradour sur Vayres, próxima a Limoges, oeste da França, é uma simpática exemplar.


Na renomada Bordeaux, famosa pelos seus vinhos, a feira é diária (em determinada época do ano), com tendas fixas, cada qual com peças exclusivas (relógios, tapetes, móveis, bibelôs,…). Embora os objetos sejam lindos, os preços, infelizmente, são exagerados.


Em Sintra, no extremo oeste de Portugal, visitamos o extraordinário “Museu do Brinquedo”, com mais de 60.000 peças infantís, algumas seculares. Embora não comercialize os objetos, a visita é impressionante. Evidentemente, nosso interesse maior foram as dezenas de máquininhas de costurar, lá acervadas.


O conhecimento é resultado obtido no ilimitado somatório de informações capturadas (esclarecimento, intuição, contemplação, classificação, mensuração, analogia, experimentação, empirismo,..). Nossa capacidade de armazenar informações é infinita e, sua quantidade, após analisadas, integradas e interpretadas, é proporcional ao necessário e sólido embasamento para tomada de decisões e condutas.

"Uma edição atual do “Times” contém mais informação que o mortal comum podia receber em toda a sua vida, na Inglaterra do século XVII. (Richard Saul Wurman – 1936 / )"

Prof. Darlou D’Arisbo
11 de junho de 2013

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

“Clemence” ____________ Publicação 13


 Consideramos missão do museu, tão essencial quanto a preservação da história, a informação transmitida à sua comunidade, agregando conhecimento de forma prazerosa e lúdica.

Assim, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC), apresenta hoje mais algumas curiosas peripécias na arte do restauro.

A história da Clemence cujo título poderia ser “O transplantado morreu e a doadora ressuscitou” ocorreu quando de seu pretenso descarte.

Esta antiga máquina de costurar Clemens Muller (689.073), agora batizada de Clemence, foi adquirida como sucata, em Bento Gonçalves/RS, no verão de 1978. Faltavam-lhe muitas partes (volante, coroa, engrenagens, eixos,..) e o que existia, enferrujado, encravado, revelava difícil utilidade. Ficou no depósito da nossa garagem por décadas, sem merecer registro e fotografia.

Em 2001, com a organização do museu, ela recebeu uma breve limpeza, teve parte da mecânica inferior retirada, inutilizável mesmo para reposição. Catalogada como possível doadora, foi depositada como reserva técnica.

Três anos depois, para a tentativa de retirada de uma engrenagem cônica interior, teve seu eixo desencravado. Foi após muito trabalho, por vários dias, que seu o eixo girou.. Como aquela engrenagem negou-se a sair, a máquina voltou novamente para a reserva técnica.

Em 2008, teve a fronte desmontada, para retirada do cursor vertical (da agulha), mas como não serviu na máquina receptora, foi novamente reconstruida e recolocada. Pouco depois, encontramos num ferro velho um volante Clemens Muller, com seu eixo excêntrico quebrado. Um eixo similar foi executado para outra máquina, mas não serviu e foi guardado.



Coroa (engrenagem motriz)

Anteontem, ela foi desmontada para doação de peças à outra Clemens Muller, que estava em restauro. Observou-se, porém, que a engrenagem motriz desta receptora, servia na Clemence, porém não no seu volante, nem no eixo excêntrico.

Tentamos então colocar o volante do ferro velho, a engrenagem motriz desta e aquele eixo guardado, na Clemence. Quase perfeito, porém o diâmetro do eixo era pequeno e refazê-lo seria financeiramente inviável.




Alguns órgãos transplantados na doadora

Na noite seguinte, ao beber uma lata de cerveja para arrefecimento do cérebro, surgiu-me a idéia: cortar uma fita do alumínio da lata e enrolá-lo no eixo, aumentando seu diâmetro. Após algumas tentativas, com uma volta, duas voltas, .. serviu com duas e meia.. Montado o volante e a engrenagem motriz, foi feita a regulagem no excêntrico para encaixe dos dentes e a mecânica superior funcionou! Aleluia!

A fronte, anteriormente limpa, teve seus cursores e cames azeitados e foi encaixada no lugar. Parafusos novos (envelhecidos a fogo) foram colocados e as roscas fixas refeitas. A tampa da lançadeira foi executada com uma lâmina inoxidável, com laterais cuidadosamente limadas para deslizar nas ranhuras da mesa.


O pé de madeira da pretensa receptora, foi adaptado à Clemence, assim como o seu brasão dourado. Pinos de suporte para carretel de linha foram colocados, terminais dos cursores,... e tudo o suficiente para sua funcionalidade.

Enfim, mesmo sem a parte mecânica inferior, a Clemence desabrochou das trevas da sucata e, após mais de três décadas de espera, de doadora passou a transplantada. Agora incorpora o acervo das expostas, ao lado de outras 29 Clemens Muller, fabricadas em Dresden, há um século.

 

'”Clemence” Clemens Muller

Tal a Cinderella, aquela da história infantil chinesa do século IX, nossa Clemence exibe-se solene e quebra o silêncio com seu ronronar metálico multitransplantado.

Prof. Darlou D'arisbo
31 de agosto de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

Calços e Percalços do Colecionador – Publicação 11

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

Nesta 11ª publicação, um inesperável relato episódico:

Retornando de viagem ao Chile e Argentina, com nosso motor home (www.felizmotorhome.blogspot.com), chegamos à sedutora Buenos Aires, a tempo de visitar a consagrada Feira de San Telmo (domingos, na Calle Defensa), onde ávidos garimpeiros encontram miríades de antiguidades.


Realmente, a colossal feira é indescritível pela quantidade e fantástica pela variedade, com bancas distribuídas em dez quarteirões pela rua ou em galerias. Porém, infelizmente, os preços acompanham a recente escalada inflacionária da Argentina.



Mas estes admiráveis detalhes compõem história para outro conto.

A competência deste relato reside a partir da aquisição de duas maquininhas infantis de costurar. Completas, dignas de compor nosso acervamento, embora carentes de parcial restauro. Fabricadas entre 1950 e 1960, com mecanismo metálico (ressalve-se: METÁLICO).



Embrulhadas em sacos plásticos e metidas num sacolão, juntamente com casacos, água, biscoitos,... com o qual seguimos nosso passeio à pé pelo centro histórico daquela capital. 
E, com o sacolão alçado no ombro, fomos já à tarde, visitar outros interesses próximos: museus, igrejas, ... 
Como o Palácio do Governo (a bela Casa Rosada), estava aberto à visitação, lá fomos contentes invadir os íntimos de trabalho da presidente Cristina.


A visitação é gratuita e disponível à qualquer turista que se submeta às longas filas e às aguardadas papeletas coloridas de senha.
E sem maiores dificuldades, ao adentrar ao palácio, passamos pelos detectores de metal, e o sacolão por uma esteira de Raio X, tal como nos aeroportos.
Mas nossa ingênua tranquilidade foi quebrada, pois que uma breve e surpreendente exclamação do taciturno agente fiscalizador, de olho no monitor, rompeu o silencio palaciano, seguida de sonora gargalhada:

“Yo pensé yá ter visto de todo en la tele, mas isto yo nunca he visto, mirem, maquinas de coser chicas !, que cosas vemos acá! ”

A partir do episódio, ficamos famosos, assuntados pela guarda presidencial, ao percorrer os meandros da Casa Rosada, com duas maquininhas de costurar num sacolão ao ombro. 


Esta súbita tangibilidade do invisível, revela mais uma inusitada face, um pontual e hilariante ato, dos tantos que colorem o nobre ato de colecionar e o fascínio da descoberta em cada busca.

As viagens abrigam investigação e pesquisa, elas nos aperfeiçoam: adicionam novos caminhos, alegrias, sabedorias, novidades, amigos, histórias e estórias. Levam-nos ao passado, ao presente e ao futuro. Alimentam o doce viço da alma. Impulsionam e resumem o motivo do árduo e fascinante deslocamento.

“O imenso prazer da chegada curva-se perante a majestade do percurso”.

Prof. Darlou D'Arisbo
15 de maio de 2012


sábado, 24 de março de 2012

Willcox & Gibbs – Publicação 10

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) é um acervo particular e privado, registrado no Ministério da Cultura, que desenvolve pesquisa e preservação deste importante instrumento.

“É vedada a utilização de quaisquer informações contidas em suas publicações, para fins lucrativos ou comerciais, sem autorização expressa de seu curador, sob pena de indenização judicial.”

O MAMC, nesta 13ª Postagem apresenta o admirável desenvolvimento da indústria Willcox & Gibbs Sewing Machines, iniciada em 1850, a partir da criatividade e perseverança de um agricultor, residente em Rockbridge County, Virgínia.

Registros históricos citam que James Edward Allen Gibbs era um agricultor muito curioso, interessado no aperfeiçoamento de ferramentas, e que brincava com suas invenções nos intervalos das colheitas.

Mencionam que, partir da gravura de uma máquina de costurar Grover & Baker, vista em jornal da época, ele resolveu construir uma semelhante. Para tal, muniu-se de pedaços de madeira, um canivete e alguns acessórios agrícolas. A máquina, modesta e rudimentar, conseguia encadear pontos em tecidos, insinuando uma grosseira costura.


Máquina de James A. E. Gibbs

Em 1856, Gibbs observou criteriosamente uma pioneira máquina Singer, exposta em loja de Washington. A partir dela, idealizou profundas modificações, assim como o sistema de ponto cadeia, no qual cada descida da agulha produz uma alça, que é introduzida na anterior por um gancho rotativo, formando uma sequente corrente (cadeia).


Sistema de cadeia (gancho rotativo)

Tal método revolucionou o processo de costura, pois os existentes utilizavam lançadeira inferior com a segunda linha para completar o ponto.

Em junho de 1857, Gibbs conseguiu patentear um mecanismo mais elaborado, sempre mantendo o sistema de ponto em cadeia, com o tecido tracionado por pequenas rodas dentadas.

 Primeira patente (cortesia Sewalot)


1857 Máquina já industrializada (cortesia Mike Wolfgang)

No mesmo ano, já com uma pequena instalação industrial, fabricou e comercializou as primeiras máquinas.

As diminutas dimensões da máquina, sua eficiência e o baixo custo (metade do valor das demais) constituiram um grande sucesso comercial.


Patente de agosto 1858 (cortesia Sewalot)

A partir de 1858, a empresa prosperou e integrou seu filho Charles Willcox transformando-a em Willcox & Gibbs Sewing Machine Company.

Wilcox, também com característica engenhosidade, registrou várias patentes, como o tensor automático para a linha, executado em vidro; novo sistema de alimentação; redução de ruído mecânico,...

 

Funcionários em frente à JR Brown & Sharpe (1870)

Neste ano, Willcox & Gibbs contratou a indústria JR Brown & Sharpe de Providence, Rhode Island, para produzir as suas máquinas de costurar, com esmero e qualidade muito confiável, por ser consagrada fabricante de relógios de precisão. 


Montagem da W&G na JR Brown & Sharpe (1879)

Para comercializar suas máquinas, Willcox & Gibbs abriu um escritório na renomada Broadway, em Nova York, no ano seguinte.

Enquanto outros fabricantes, como a Wheeler & Wilson vendiam suas máquinas ruidosas e pesadas por Us$100,00, a Willcox & Gibbs, leve, funcional e silenciosa, era oferecida pela metade do preço (Us$50,00).



Além disso, sua máquina dispensava a tarefa do cansativo e intermitente preenchimento das lançadeiras inferiores, como todas as demais, pois que costurava apenas utilizando uma linha, com abastecimento superior.

Afora estas fundamentais qualidades, sua facilidade de utilização, simplicidade mecânica e alta confiabilidade, concorreram para o sucesso de vendas.

Logotipo da W&G (prateado)

Meses após iniciou a venda também em Coalbrookdale, Inglaterra, extraordinário polo comercial da época e onde começou a revolução industrial.

 

Propaganda distribuida em Londres

As agulhas específicas para as suas máquinas de ponto cadeia também foram patenteadas e especialmente produzidas.


(cortesia Sewalot)


Modelos para trabalhos específicos foram também produzidas, como esta “Type 200” para confecção de chapéus de palha


Algumas indústrias produziram cópias (cerca de 30 conhecidas autorizadas ou não) das Willcox Gibbs, assim como esta, com motorização elétrica, fabricada pela Edredge Sewing Machine Company.

Em 1862, a Willcox & Gibbs já possuía representantes nas maiores cidades da Inglaterra: Londes, Nottingham, Manchester, Leeds, Leicester, Birmingham, Luton...

Além destas, também em outras destacadas cidades européias: Glasgow, Paris, Milan, Bruxelas, Antuérpia...


W&G nº145336, fabricada em janeiro de 1870, acervo do autor

A partir de 1953, a empresa apresentou déficit e, em 1960 abriu uma fábrica em Orangeburg, Nova Iorque, adquirindo a Raybond Electronics, fabricante de sistemas de colagem e equipamentos de laminação de madeira.

No ano seguinte, Willcox & Gibbs adquiriu a Sunbrand Corp, produtora de itens para a indústria de vestuário, continuando a adquirir pequenas empresas, não relacionadas com máquinas de costurar.

Em 1982 Willcox & Gibbs vendeu os equipamentos de produção de máquina de costurar para uma empresa japonesa, a Pegasus Inc.

A partir de 1994, a empresa, rebatizada Rexel, Inc., dedicou-se apenas na produção de peças, suprimentos elétricos e cabos especiais para computadores e sistemas de comunicações.


Willcox & Gibbs situada em destaque na sede do MAMC

O MAMC, tendo também por finalidade a pesquisa histórica para a preservação deste e de outros importantes equipamentos mecânicos, fulcros na evolução da humanidade, participará da “Expedicción Sur 2012”, percorrendo a Argentina e o Chile, na pretensão de adquirir informações e peças para enriquecer seu acervo e suscitar discussões dentre os interessados nestes conhecimentos. 

“Uma edição atual do Times contém mais informação que o mortal comum podia receber em toda a vida, 
na Inglaterra do século XVII. (Richard Saul Wurman - editor americano - 1936/ ..)”

Prof. Darlou D’Arisbo
24 de março de 2012