Depois de quase oito meses sem postagens sobre o nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar, publico este restauro realizado em nossa oficina.
Adquiri através de um site de compras, uma máquina antiga, sem identificação ou histórico. E, ao recebê-la, desacreditei na possibilidade de restauro, pois aparentava péssimo estado, imunda, com várias camadas de pintura aplicadas sobre sujidades e ferrugem.
Possuía ainda alguns adesivos grosseiros e, sobre todo o conjunto, uma camada de verniz toscamente aplicado. Mas consegui identificá-la como a alemã Clemens Muller, embora sua plaqueta estivesse irreconhecível, plenamente coberta.
Depois de retirar a base de madeira, aspergi
querosene na parte mecânica inferior e observei que estava completa e não foi difícil
conseguir girar aquele conjunto motriz..
A parte superior, seriamente comprometida pelas
citadas abundantes camadas, obrigou a sucessivas raspagens mecânicas, sem a
menor possibilidade de manter sequer partes de sua pintura de fábrica.
Após, iniciei o desmonte, surpreendentemente sem muita dificuldade, pois seu conteúdo estava quase completo e os parafusos ainda originais, exigiram apenas paciência para serem retirados, embora vários faltantes.
A exemplo da fronte (foto com parte quase limpa), todo o conjunto mereceu várias aplicações de solventes e raspagens, para poder visualizar (encontrar) os parafusos.
O rebobinador, composto de várias partes antes móveis, estava emperrado e exigiu um empenho detalhista para não comprometer o seu complexo e diminuto sistema mecânico ou até romper alguma pequena e importante parte.
Obviamente, ainda que todos os anjos bons me acompanhem, proporcionando um trabalho cauteloso e proficiente, por vezes surge o Leprechaun, o duende invisível e travesso, cujo prazer é comprometer alguma ação.
E não foi diferente, pois ao tentar retirar o emperrado eixo do volante, fez-me quebrar parte de seu envoltório no volante. E como o material é de aço de baixa têmpera (dito ferro fundido), a solda seria impraticável. Mas consegui retirar o eixo, tornear as rebarbas resultantes da quebra, girando a contento.
Após detalhada observação, concluí que o eixo (já oxidado) havia sido refeito, com uma excentricidade que não permitiria passar pelo centro do volante. Assim, teriam executado a peça sem a “cabeça”, ou seja, enfiada a excentricidade no bloco e depois o volante no outro extremo, com uma suposta porca, para evitar sua soltura. Porém, com o uso da máquina, gastaram os filetes da rosca e a porca adentrou e afixou-se na corrosão do eixo. Falha minha em não ter observado anteriormente...

A frágil plaqueta com o logotipo, antes camuflada pelas camadas de tinta, agora recuperada.
Foi fabricada ao redor de 1920, em Dresden, capital da Saxonia, leste da Alemanha.
Sua base de madeira, originalmente composta por seis partes, possuía fraturas várias, além de malfeitos remendos, foi desmontada em uma dezena de pedaços.
Não contei, mas cerca de uma centena de pregos, sem sucesso, tentavam em vão manter sua frágil estabilidade. Apenas numa lateral, retirei 15 pregos de variadas dimensões.
E, assim como toda a estrutura de madeira, também estava fragilizada, necessitando muitos reparos e preenchimentos.
Enfim, depois de muito trabalho nas “horas vagas” (e insônias), em mais de um mês, o conjunto foi montado, com vários parafusos “novos”, oriundos de máquinas doadoras, e peças, como a tampa posterior da lançadeira; “patinha” calcadora, regulador de ponto e tantos outros.
A manopla foi torneada a partir de um cabo de vassoura; os pinos suportes da linha, de pregos adaptados,...
Obviamente, algumas peças pequenas foram preenchidas com massa epóxi (Durepoxi) para seu melhor encaixe e outras afixadas com resina (Araldite). Certamente, em melhores condições técnicas e com disponibilidade de peças, o sucesso teria sido melhor a esta vetusta alemã com 105 anos de existência, um quarto de século a mais do que este humilde restaurador.
Exultante, a velha alemã, com 105 anos, faz pose fotográfica.
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