quinta-feira, 1 de março de 2018
Mais um restauro - publicação 26
sábado, 21 de outubro de 2017
Restauro da Rhenania 1880 - publicação 25
Ao visitar um dileto amigo, recebemos um presente magnífico, de valor histórico inestimável, objeto de causar estimulada emoção: uma máquina de costurar marca Rhenania, centenária, fabricada na Alemanha, entre 1870 e 1900 e adquirida por ele em Florianópolis - SC.
Posteriormente, foi fabricada pela Mestwerdt Co. em Hamburg; Conrad Bügler em Plauen; Grimme & Natalis e R. Lehnmann, formerley Baach & Klie em Braunschweig e Junker & Ruh AG em Karlsruhe.
Realizamos uma criteriosa análise em nossa Rhenania e, justamente por estar completa, concluímos que era merecedora de um minucioso restauro.
Ela havia sido pintada de preto, por spray ou pistola e, obviamente, a tinta havia permeado por todas as peças fixas ou móveis, engrenagens, alavancas, eixos,...
Vários necessitaram troca e roscas (fêmeas) refeitas. Para tal, utilizamos procedimento de envelhecimento térmico e cabeça refeita (cilíndrica ou cônica).
Não possuía a mola cônica do tensor da linha, mas foi encontrada similar numa caixa de peças antigas.
Os eixos foram retirados e receberam leve torneamento (polimento) para retirar restos de tinta, antiga lubrificação e poeiras agregadas. As diminutas folgas causaram admiração, insignificantes ante o longo processo de trabalho que deve ter sido submetida por mais de uma centena de anos.
A plaqueta envoltória dos dentes impelentes estava com um pequeno perfil quebrado, com difícil recuperação, devido às diminutas dimensões. Mas a loteria celeste nos premiou com uma peça íntegra, graças a uma máquina similar de nossa reserva técnica.
A manopla, de louça branca, possuía uma pequena quebradura lateral, aparentemente recente. Concluímos que o preenchimento com resina macularia sua originalidade funcional. Optamos por permutá-la por outra idêntica e perfeita de máquina similar e doadora de peças.
Sempre destacamos a indispensável delicadeza em todas as etapas, utilizando ferramentas apropriadas e esforços compatíveis, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é facilmente quebradiça à impactos.
Foi instalado um antigo carretel de madeira, perfeito, completo e original, com linha branca e agulha, compondo a nobre imagem de sua áurea época de funcionamento.
Em primeiro lugar a preservação deste fantástico e épico instrumento mecânico, responsável pela alteração estética da humanidade, através da confecção da indumentária e consequente origem da emancipação da mulher.
Em segundo e não menos importante ao fato, o emocionado reconhecimento à atitude do doador, em regalar-me com tal inestimável presente, que será assentado em destacado e nobre local do acervo de nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC). Nosso patente preito de gratidão ao Valdecir Giotto pela magnífica doação.
O restauro excede a mera cirurgia estética, mas sim incorpora muito suor (até emocionadas lágrimas) em longa, complexa e funcional dedicação e experiência.
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
A hermética sociedade dos cupins – Publicação 24
Embora eu já tenha publicado algo a respeito, graças aos vários questionamentos, atualizo informações sobre o importante tema.
Os cupins (térmitas) são insetos que abundam nos trópicos, alimentando-se de celulose (C6H10O5), constituinte das paredes das células vegetais de madeira seca. Entomologicamente são denominados termitídeos (Cryptotermes brevis), com cerca de 1.000 espécies conhecidas (no Brasil umas 200) e constituem importantes pragas urbanas, pois danificam o madeiramento de construção, móveis, livros,...
Não devemos confundir com os cupins subterrâneos (Coptotermes havilandi), espécie que habita terrenos, formando montículos e causando prejuízos em pastagens e lavouras.
Além daqueles térmitas, também as brocas (larvas) atacam a madeira. Estas, diferenciam dos cupins da madeira pela produção de resíduos com a aparência de pó (não grânulos) e por construírem túneis curtos e de maior diâmetro. As brocas são larvas de besouros (não adultos), cujas fêmeas após o acasalamento perfuram a madeira e ali põem os ovos. Atingem a fase adulta em meses (alguns demoram anos).
Nos Estados Unidos e Canadá (onde a maioria das residências é de madeira), uma pesquisa concluiu que uma colônia de cupins, com milhões de indivíduos, pode consumir 360 gramas de madeira por dia. São capazes de destruir um vigamento de telhado em poucas semanas, causando desabamentos (incêndios decorrentes) e destruição de móveis, livros,...
A existência de grânulos fecais (fezes de cupins) junto aos móveis, portas e batentes, confirmam a infestação destes, embora esta deposição externa possa ocorrer somente após vários anos de ocupação. É difícil avaliar o tamanho de uma infestação, pois seus túneis sempre nos orientam às conclusões erradas e os seus dejetos podem ser armazenados por muito tempo sem tornarem-se visíveis.
Embora os inseticidas matem os cupins, é comprovadamente impossível que estes produtos (mesmo gases) percorram os estratégicos labirintos, muitos bloqueados por paredes de cera.
A sua alimentação é a celulose, encontrada em qualquer material que a contenha (livros, madeira, carpetes, papel de parede, móveis, etc.). Algumas madeiras são naturalmente inatacáveis por cupins, tais como: peroba, jacarandá, pau ferro, braúna, sucupira, copaíba, maçaranduba,...
Ainda que os cupins não representem, diretamente, perigo para nossa saúde, pois nenhuma patologia possui relação direta com estes insetos, esta praga está cada vez mais presente.
Infelizmente (a defesa dos cupins), normalmente constatamos a presença da praga quando os estragos já são irreversíveis e, na falta de informações abalizadas e científicas, a crendice popular leva a combate ineficaz, agravando o problema.
Os cupins mantem uma sociedade perfeita e organizada em castas, tendo uma rainha que comanda a reprodução, soldados que se encarregam de defesa, operários que buscam alimentação e por fim os siriris que, possuindo asas, revoam para formarem novas colônias, perpetuando assim a espécie.
A rainha, que pode viver por décadas, possui a função específica de acasalar e ovopositar. Os outros, exclusivos, tratam da sua alimentação e segurança. Milhares de ovos, com cerca de 3mm cada, são produzidos por ela a cada ano e ficam incubados por duas semanas até nascer as ninfas, que se alimentam de resíduos regurgitados por operários que as cuidam e tratam.
Após diversos estágios de crescimento, geneticamente programados, assumem a determinada e exclusiva posição nas castas.
Os reprodutores adultos desenvolvem órgãos sexuais, asas e os seus olhos tornam-se funcionais. Em determinado momento, deixam a colônia em enxameamento, simultaneamente, nos meses mais quentes. Como estes tem dificuldade para percorrer os túneis, até a saída, operários os “empurram” até a saída.
Após encontrar um local propício, normalmente próximo, perdem as asas e instalam-se. A melhor fêmea torna-se rainha, é fecundada e iniciam ali nova colônia, cujos ovos formarão ninfas, soldados, operários e reprodutores.
Os operários, estéreis e cegos, são ávidos por celulose, alimento básico para toda a colônia. Alguns também atuam na segurança e alimentação da rainha, ovos e ninfas. Trabalham 24 horas por dia, buscando alimentos e perfurando o interior da madeira, construindo galerias. Para melhor segurança, criam labirintos com câmaras, depósitos de dejetos e bloqueiam caminhos com paredes de cera, tornando-os inacessíveis para gases inseticidas. .
Os soldados, ao final do estágio de crescimento, adquirem uma blindagem na cabeça e fortes mandíbulas. Aguerridos, são preparados para defender a colônia dos inimigos, especialmente das formigas.
Os ataques à madeira são aniquiladores, destruindo portas, mobílias e peças constituídas com o material. Infelizmente, as infestações são notadas após vários anos da instalação inicial, quando já é difícil combater a praga instalada ou recuperar a peça atingida. Como são lucífugos (não aparecem à luz), deslocam-se sorrateiramente nas galerias cavadas.
Para saber de sua existência, podemos atentar a três fatores:
1. Observar as revoadas (parecem formigas com asas) nos meses quentes;
2. Notar a existência de seus resíduos fecais (minúsculos grãos secos <1mm), normalmente saídos de galerias já lotadas;
3. Perceber som “oco” ao bater em madeiras atacadas.
Saiba-se, porém, que estas lamentáveis constatações ocorrem após muitos anos de infestação, pois décadas podem transcorrer sem a confirmação da existência dos cupins, já instalados.
Muitos produtos são divulgados como cupinicidas exterminadores. Mas embora suas formulações sejam adequadas (pós, líquidos ou gases), torna-se impossível o contato com os cupins, devido aos citados bloqueios que eles constroem nos imensos e inacessíveis labirintos.
Às tais dificuldades, acrescente-se a “inteligência” construtiva e organização social deles; executando túneis, desviando orifícios ou encaixes, evitando atingir superfícies, para não deixar sinais visíveis. Ao abrir a madeira de algumas antiguidades, nós constatamos labirintos com bloqueios construídos por paredes de cera, para evitar comunicação de agentes inimigos.
Embora cegos e surdos, possuem sensores às frequencias da luz e do som, evitando proximidades que possam denunciá-los. E, os seus excrementos só são liberados ao exterior, muitos anos após a instalação, quando os depósitos internam não mais comportam.
por cupins e depois de restaurado
Evitam-se novas incursões, aplicando produtos líquidos (cupinicidas) sobre as superfícies, somente após a certeza de ainda não estarem infectadas.
O combate efetivo e satisfatório só ocorre quando alteradas suas condições mínimas de sobrevivência. E, como seus limites suportáveis de temperatura, situam-se entre os -5ºC e os 70ºC (cinco graus negativos e setenta graus positivos), dependendo das dimensões das peças, a colocação destas em forno (microondas é ótimo), por uma hora ou partes grandes em freezer (câmara frigorífica), por uma semana, são indicações com bons resultados comprovados.
Somente observados mais conhecimentos sobre esta perfeita sociedade e seus instintos de sobrevivência, poderemos obter sucesso no domínio desta praga.
Publico estas informações, após muito pesquisar sobre a sociedade dos cupins e com a intenção de alertar aos interessados na preservação e restauro de antiguidades.
14 de setembro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
O mais importante armário da minha história - Publicação 23
Nosso museu dispõe de oficina de restauro, cujos trabalhos por vezes são emoldurados por feliz nostalgia, como neste relato.
A arte do restauro excede ao mero trabalho reconstrutivo, visando interromper o processo de deterioração de objeto que acompanhou alguma fase da evolução humana. Além desta assertiva, o restauro torna tangível algum importante passado histórico, alimentando a detalhada imaginação reportada à época, com seu simbolismo e emoção.
Esta postagem, revestida de sentimento, reporta-se à história da construção de um simples e acanhado armário de madeira.
Comandando alguns soldados, submeteu-se às condições precárias, com um pequeno gerador de energia elétrica, poço para abastecimento de água e paradoxais imensos equipamentos de rádio transmissão cedidos pelos aliados.
A pequena Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, na época
Mergulhado neste universo, em meses, e já considerado autoridade na pequena urbe, casou com uma linda jovem de Porto Alegre. Para abrandar a melancólica surpresa dela, acostumada às benesses sociais da capital gaúcha, pôs-se ele mesmo a fabricar a própria mobília, limitada a um fogão de tijolos, mesa, bancos, prateleiras, um berço para o primogênito a caminho (autor desta postagem), etc. E, é claro, motivo do título, o pequeno armário.
Construído com pedaços de descartadas caixas de material do exército, utilizando ferramentas rudimentares e realizando esmerados encaixes, embora com a limitada dimensionalidade do material.
Componentes de rádio, armas, munição, material de cozinha, etc... vinham devidamente embalados em caixas semelhantes à da foto, as quais depois de descartadas, eram cuidadosamente desmontadas e serviram de elementos para a construção do citado armário.
Paredes, vistas e encaixes do armário, resistiram a setenta anos
Assim, trabalhando nas horas vagas conseguiu construir também este pequeno armário, com cerca de um metro de altura, oitenta centímetros de largura e trinta de profundidade. Possui duas portas com precisos encaixes em seus perímetros e lâmina esbelta central. Duas gavetas na parte superior. Como na pequena cidade não havia loja com acessórios para mobília, ele executou os puxadores de madeira, de maneira criativa e perfeita.

Estrutura interna (vigas) foi executada sob milimétricos encaixes (vista externa).
À direita: Interior da parede ainda conserva a tonalidade original verde oliva
das antigas embalagens bélicas.
Possuía fechadura com chave (vista interna), já inoperante há várias décadas,
flagrantemente instalada por meios primários (serra fina).
A atual operação de restauro procurou manter todas as características do histórico e vetusto móvel, incluindo suas marcas de idade, ferragens (parafusos, pregos,..).
Porém, alguns raros parafusos que tiveram parte de seu corpo destruído por oxidação, necessitaram substituição por outros atuais similares e envelhecidos a fogo.
Poucas trincas, oriundas de natural desidratação da madeira septuagenária, foram delicadamente preenchidas com massa (pó de lixamento e selador), alguns pregos corroídos foram retirados e substituídos por similares.
Após conferir suas diagonais, coloquei o móvel em esquadro (isometria) com auxílio de tensores oblíquos.
A idade do armário promoveu algumas folgas nos encaixes, que foram delicadamente restaurados e solidarizados com emulsão vinílica transparente, colocados sob prensa.
Em 1957, um puxador (manopla) da portinha foi quebrado, ocasião em que eu (este seu filho), com cerca de 10 anos de idade, substitui-o por um isolador elétrico de louça, o que perdurou até o presente restauro.

Neste restauro foi executado um novo puxador, copiado milimetricamente dos existentes nas gavetas, com madeira semelhante, afixado com parafusos tratados.
Um lixamento leve (granulometria 220) retirou as imperfeições das várias camadas de verniz existentes em todo o móvel, sem danificar a madeira, nem esconder as preciosas marcas da idade.
Foi aplicada uma fina camada de verniz (Copal) para proteger a madeira, evitando alterar suas características originais.
Ao admirar sua construção, em 1946, executada por um jovem, desconhecedor da arte da marcenaria, imaginamos a dimensão de sua dedicação nesta nobre e árdua empreitada.
Espero que, com este especial restauro, mantendo seus sinais do tempo, sua presença seja mantida por mais setenta anos, para que os filhos de meus netos tenham o mesmo prazer em prolongar-lhe a vida.
Este pequeno armário serve-me como exemplo de vida, ao vê-lo diariamente, relembro os tantos bons momentos que tive com seu construtor (meu pai), soberbo integrante do time celestial há quatro décadas.
Das tangíveis memórias de meu saudoso pai
Prof. Darlou D’Arisbo
10 de fevereiro de 2017





















