terça-feira, 2 de julho de 2024

Uma Estrelinha Franco Brasileira - Publicação 44

Muitas destas maquininhas de utilização infantil, são seculares preciosidades e foram por nós adquiridas nas feiras de rua, em vários países europeus (Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha,..) e sul-americanos. No Uruguai, destacamos a Feria de Tristán Narvaja e, na Argentina, a Feria de San Telmo, são imperdíveis.

Uma descrição mais completa destas “fontes de relíquias” pode ser obtida na Publicação 16 deste blog.

No Brasil, a maioria destas relíquias foram obtidas a partir de sites de venda. Cumpre destacar que várias maquininhas nos chegaram por gentis doações.


Nosso primeiro expositor.

Ainda que por mera curiosidade, frequentemente, busco alguma ainda ímpar nestes sites, embora seus valores tenham exorbitado nos últimos tempos. Desta maneira, há alguns dias, encontrei o motivo desta publicação sendo ofertada, mas graças à exiguidade de tempo para restaurá-la e dificuldade de espaço para guardá-la, concluí por não a adquirir, pois nossos dois expositores estão já repletos, e carecendo de um terceiro. Porém confesso que um fiapo de dúvida ainda permaneceu, comprometendo a negativa decisão.


Nosso segundo expositor

Mas, por vezes, algumas inexplicáveis e surpreendentes soluções apresentam-se, arrematando com epílogo dourado estas tênues vacilações.

Pois, uma pessoa, a quem deposito a minha maior estima, adquiriu a maquininha e, alvíssaras, anunciou presentear-me, assim que ela chegasse.


Chegou um pouco emperrada e oxidada

Em poucos dias recebi, com satisfação, o belo presente. Estava um pouco oxidada, necessitando apenas desmontagem parcial, limpeza geral, aplicação de desoxidante em alguns locais, lubrificação nas articulações e eixos, montagem e regulagem, além da inserção de algumas pecinhas faltantes.


Estampa de máquina similar (gentileza coleção Ana Caldatto)

Consegui a imagem de uma original, “Ma Cousette”, de produção francesa da década de 40 que, embora em deplorável estado, caracterizou a notável semelhança com a recebida.


A original francesa Ma Cousette

Na cópia brasileira, apenas o regulador de tensão foi suprimido, em substituição por mola sobre o carretel, como confirma um antigo manual de utilização, na época ainda desenhado a bico de pena


Antigo manual da “Estrelinha”, apresentando em “1” o regulador implantado.

Até 1930, os brinquedos infantis eram bonecas de pano e carrinhos artesanalmente construídos em madeira. Apenas as mais abastadas crianças recebiam objetos importados da Europa.

Os primeiros brinquedos brasileiros foram produzidos (certamente importados e aqui montados) pelo empresário italiano Ciccillo Matarazzo (Indústria Metalma), durante os anos 30.
E, em 1937, o alemão Siegfried Adler, também residente no Brasil, adquiriu uma pequena fábrica de bonecas de pano e ali iniciou a grande “Manufatura de Brinquedos Estrella Ltda” (depois só com um L), transformada em S.A. no ano de 1944 e reproduzindo, em convênio comercial, centenas de brinquedos oriundos dos Estados Unidos e Europa.

Desde seu início a Estrela produziu mais de 25 mil brinquedos diferentes, num total de mais de 1,2 bilhão de unidades, sendo a maior indústria da América Latina. Porém, em 2004 a empresa teve decretada a absoluta insolvência, acumulando dívidas de R$ 23,225 milhões.

E, dentre tantos, a Estrela fabricou esta relíquia, adaptando a original francesa Ma Cousette (“minha confecção”), entre os anos 50 e 60, mantendo quase todos os detalhes e componentes, incluindo a cor azul.


Nossa linda Estrelinha após leve restauro

O título desta postagem: “Uma Estrelinha Franco Brasileira”, revela um conjunto de homenagens, quais sejam: à indústria francesa que a projetou e fabricou (ainda não identificada) e ao visionário empreendedor alemão, que escolheu o Brasil para implantar a pujante indústria Estrela.

Porém, meu maior preito de gratidão é, ao Prof. Thiago D’Arisbo, ao qual tenho imenso orgulho em ser seu pai, pelo inestimável presente aqui registrado, que certamente será preservado, assim como as outras maquininhas, pelas minhas princesas netas, suas filhas.

Prof. Darlou D'Arisbo
23 de junho de 2025 

domingo, 31 de março de 2024

A Pequena Notável - Publicação 43

Como já citado nas postagens anteriores (Restauro das Pequenas e Antigas Infantis), o nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) possui também um grande acervo de máquinas de costurar infantis (1898 a 1970), as quais incentivavam as meninas a desenvolver a imaginação e a criatividade.

Recentemente, num site de vendas de objetos, encontramos a oferta desta que, embora estivesse em deplorável estado, despertou-me a intenção em adquirir e restaurá-la.


Estava emperrada, oxidada e em mau estado geral

E, num site de buscas, encontramos sua completa identificação: trata-se de uma Gateway, fabricada pela Gateway Engineering Company /, Inc., 233 W. Grand Ave., Chicago, Illinois - USA, entre 1933 e 1940.


Propaganda da maquininha (1933) e cena da indústria em 1940

Começamos o restauro de maneira convencional: limpeza com querosene para diluir resíduos sólidos de graxas, depois escovação com detergente.


Parte das peças móveis antes da aplicação do desoxidante

Iniciamos a desmontagem de maneira cuidadosa, pois algumas pecinhas são minúsculas e delicadas. Todas foram submetidas a escovação rotativa de aço em baixa rotação, para retirada de restos de tinta, pois haviam sido submetidas a desleixada pintura e estas pequeninas partes móveis estavam solidarizadas pelo grosseiro tratamento anterior de pintura. Os apoios de borracha tiveram um leve torneamento para retirar a camada ressecada pelo tempo.


As pequenas partes metálicas após o tratamento

Um lixamento preliminar com gramatura 100 e depois 400, retirou porções fortemente oxidadas. Conferida a inexistência de mais ferrugem, foi aplicada uma camada de desoxidante (Remox) seguida de outra após secagem da primeira. Assim como todas as peças móveis, separadamente.


O corpo e a base aguardando secagem do desoxidante

Originalmente, a base da máquina era fixada por sistema de encaixes por linguetas dobradas, porém esta já nos chegou com grosseiras soldaduras, solução que mantivemos, pela impossibilidade de refazer tais entalhes embutidos.


Iniciada a minuciosa montagem

Sua estrutura, após lixamentos de fina gramatura, foi pintada na cor vermelho coral, com esmalte sintético, supostamente original, conforme gravura de época.


Concluído o sincronismo do sistema de alceamento da linha na parte inferior

A montagem foi realizada com todas as peças originais, devidamente alinhadas. Parafusos, arruelas e roscas, polidos e lubrificados, assim como as demais partes móveis.



Assim concluída, dentro dos parâmetros e exigências de nosso acervo, teve impressa e adesivada uma etiqueta similar à de identificação de fábrica.


Gateway - "A Pequena Notável"

Nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar recebe mais esta, devidamente restaurada, que vai integrar seu conjunto de uma centena de maquininhas de costurar infantis.

Essa pequena e linda maquininha certamente já trouxe alegria e entretenimento a alguma criança curiosa. À uma menina que hoje talvez não esteja mais entre nós, tendo cumprida sua missão terrena.

Mas acredito sim, que algum etéreo eflúvio deve ter sido agora despertado naquela garotinha, após contemplar, lá dos céus, o brinquedo renovado, como no dia em que seus olhinhos brilharam ao recebe-la presente.

Justificativa do Título

“A Pequena Notável” foi o codinome de Carmem Miranda, decorrente de sua estatura (1,52m). Nascida em Portugal em 1909, veio para o Brasil com um ano de idade, fez extraordinário sucesso aqui e nos Estados Unidos a partir de 1940 (cantora, dançarina e atriz). A pequena maquininha Gateway mereceu parodiar tal perfeito atributo nesta postagem, por indicação do Sr. Mário V. Rodrigues, valoroso entusiasta pela preservação destas preciosidades, a quem reverencio nesta citação.

Prof. Darlou D'Arisbo 
31 de março de 2024 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

As Miniaturas de Máquinas de Costurar – Publicação 42

O nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) apresenta, nesta 42ª Publicação, alguns exemplares de seu acervo de miniaturas de máquinas. Em sua maioria, são pequenos objetos miniaturizados cujo valor pode estar agregado à pequena dimensão, formosura, detalhamento e proporcionalidade, executados pelos artífices ou, apenas pela raridade e localização de onde foi adquirido. Assim, apresentamos alguns de nosso acervo, com suas características individuais.


Minúscula em Prata (2cm)

Confeccionada em prata por um talentoso artífice, esta maquininha mede cerca de dois centímetros e foi adquirida no seu atelier em Nápoles em 2014.

Ele nos apresentou alguns outros inimagináveis trabalhos quase microscópicos, como um presépio esculpido num grão de café e a sagrada família (Cristo e os pais) lavrados numa semente de lentilha, cujos detalhes só podem ser observados com lente de aumento. Estava trabalhando uma inimaginável escultura num grão de arroz !


Detalhada com acessórios (3,5cm)

Executada em metal (Zamac), com detalhes e base em mesmo material, incorpora os acessórios para montar casa de bonecas. Mede três e meio centímetros, com particularidade de insinuar estar costurando um tecido e dispor de linha e carretel. Adquirida no Hospital das Bonecas, em Lisboa em 2015.


Chinesa "Singer" (9cm)

Detalhadíssima miniatura de máquina Singer Family 1910, em liga metálica, com acionamento a pedal, mesa, gaveta e carretel. Dimensões nove centímetros de comprimento e dez de altura, com todas as partes minuciosamente instaladas e móveis. Adquirida em Ciudad del Este – Paraguay, em 1998.

 
Portuguesa em bronze (4cm)

Delicadamente torneada em bronze, executada em 1960 (conforme o vendedor), agrega detalhes como volante móvel, manopla, porta carretel, fronte e eixo vertical. Medindo quatro centímetros, foi adquirida no tradicional Mercado de Santa Clara, em Lisboa.


Alemã em porcelana decorada (3,5cm)

Minúsculo enfeite de porcelana branca, com detalhes florais e dourados. Elaborado na Alemanha em 1995, com apenas três centímetros de comprimento.


Italianinha decorada (3cm)

Elaborada em alumínio, incluindo a base, apresenta desenhos dourados no corpo e carretel de madeira com linha. Mede três centímetros e foi comprada em loja de miniaturas em Roma, em 2015.


A menor das menores (2cm)

Integrando a turma das ultrapequenas, esta miúda mede menos de dois centímetros! Fundida em liga metálica, foi adquirida numa feira de artesanato em Gramado-RS (Brasil).

 
Já foi apontador de lápis (7cm)

A partir de um pequeno apontador de lápis em forma (made in China) de máquina de costurar, adaptei alguns acessórios como emblemas e carretel com linha. Mede sete centímetros de comprimento. 

 
"Made in house" (4cm)

O conhecimento incorporado durante quatro décadas, a criatividade e a disponibilidade de peças sucateadas, permitiram-me inventar algumas maquininhas artesanais e minúsculas, executadas a partir de peças descartadas e adaptadas.

Com apenas quatro centímetros, esta possui a base, corpo, braço oscilante e fronte em aço. O carretel é um pequeno rebite, o volante é um botão de pressão com manopla de madeira. E a tesoura, é um ganchinho de “soutien”, aberto e adaptado.

 
Outra "made in house" (6cm)

Um pouco maior e mais completa, esta mede seis centímetros, com base e manopla em madeira, corpo, braço oscilante e fronte em aço. O volante é um grande botão de pressão. Regulador da linha, preenchedor e outras pecinhas oriundas de eletrônicos descartados. Esta e a anterior demoraram cerca de dois anos, juntando partes e adaptando até serem concluídas.

Este grupo de miniaturas também incorpora o acervo de nosso Museu de Máquinas, com suas histórias e particularidades.

Agradeço aos que me honram sua atenção, aguardando comentários e/ou críticas que possam enriquecer nosso trabalho.

Prof. Darlou D'Arisbo
06 de dezembro de 2023









segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Sua Excelência: "O RESTAURO" - Publicação 41

Conforme a enciclopédia fundamental da língua portuguesa: Lello Universal (ed.1922): “Restauração, s.f. (do latim Restauratio): acto ou effeito de restaurar. Fazer voltar a antiga importância, ao seu original esplendor." 

O restauro é um longo, analítico, analógico e específico processo: 

Analítico, porque depende de estudo minucioso da peça, sua legitimidade, exame criterioso de suas partes, investigação de sua história, pesquisa física de seus componentes e funcionamento, composição de pigmentos, ligas metálicas e demais materiais.
Analógico, a buscar identificação e semelhanças a outras peças, em conjunto ou parciais, no contexto histórico e evolutivo, sejam relatos pesquisados ou fisicamente acervadas.
Específico, porque avalia as características próprias da peça, considerando que dois objetos aparentemente iguais podem ter sofrido usos e agressões diferentes no curso do tempo, com histórias diferenciadas.


Numa enchente na Índia, ele salvou seu mais importante patrimônio
 
Assim, as antigas máquinas eram consideradas , quando submetidas às intempéries, podem ser corroídas pela umidade e oxidadas pela ação meteorológica. As peças internas podem também encravar-se pela agregação às demais. A omissão de perfeita manutenção e falta de limpeza e lubrificação de quando em uso também comprometem e dificultam a desmontagem e restauro das máquinas.


Já encontramos máquinas que foram soterradas

Considero RESTAURO como o conjunto de operações para interromper o processo de deterioração de um objeto que testemunhe a história humana, e reconstruí-lo, para estabelecer seu aspecto original de quando em funcionamento.

Qualquer material está sujeito a diversos agentes de deterioração de ordem química (gases nocivos da atmosfera poluída,...), física (variações de temperatura e umidade), biológica (ação de bactérias, fungos, cupins...) ou as citadas falhas de manutenção e de preservação.

No caso das máquinas de costurar, o descaso com peças antigas é manifesto; raridades jogadas em ferros-velhos, enferrujando, ou até propositadamente quebradas para diminuir seu volume. Soubemos de leigos que aplicam produtos cáusticos indiscriminadamente, ou pior, jatos de areia ou granalha, os quais corroem engrenagens e características da máquina.


Chegam-me em péssimo estado de conservação, sucateadas

Na aquisição da máquina (vale para outras peças) procuro descartar as que são oferecidas por elevados valores, com visível intenção pecuniária. É indispensável ter capacidade de avaliar a legitimidade do objeto e sua origem.


A corrosão dificulta, mas não compromete

Sempre, ao receber uma antiga máquina de costurar, vejo nela a necessidade de algum (ou total) restauro. Os piores casos NÃO são as que sofreram desgastes naturais pela ação do tempo, mas sim as que foram deturpadas; repintadas, adulteradas, por vezes com a intenção de ludibriar o comprador ou vendidas como peças “decorativas”. Há uma infinidade de “fábricas de antiguidades”, muitas com trapaceada aparência de originais.


Fronte de uma New Home, quando aberta, antes “linda na foto de venda”.

Felizmente, as centenárias máquinas de costurar são dificilmente falsificadas, considerando sua constituição original em aço de baixa resistência, com características de fragilidade e fácil decomposição por abrasividade quando comparada às ligas atuais, o que facilita a identificação.
Obviamente, a existência de partes de materiais recentes (plásticos, pigmentos,...) ou parafusos atuais condenam sua unicidade.


Recebida com uma fratura irremediável, agravada por uma soldadura execrável

Cada máquina (ou suas partes) revela características específicas de restauração. Procuro seguir um preceito em que analisa três aspectos básicos:

1. Autenticidade: se realmente trata-se de legítima, cuja origem é conferida por meio de busca em fontes de informação;
2. Preservação: seu desgaste natural pela utilização ao longo do tempo, deterioração, falha de manutenção;
3. Reversibilidade: possibilidade de recuperação de suas partes, restituição de funcionamento.

Analisados estes questionamentos, o propósito é de restaurá-la preservando suas marcas de utilização, ou seja, na medida do possível, preservar seu estado de quando em funcionamento.


Antigos manuais, como este de uma Howe 1870, são boas fontes informativas

Embora alguns restauradores recuperem as peças de maneira a passarem a apresentar estado de novas, tal quando fabricadas, meu particular objetivo embasa-se em relato histórico, permitindo que as máquinas de costurar demonstrem suas características de quando em sua plena utilização.


Remendos antigos devem ser preservados, pois são páginas de sua existência


O hediondo “quelóide cicatricial” faz parte de sua história e foi preservado

Preliminarmente (antes de ações físicas), identifica-se (marca, número de série,..), sua história (a quem pertenceu, finalidade de utilização,..), informações complementares,... Através da Internet pode-se conseguir antigos manuais ou fichas técnicas. 
 

Clemens Muller quando recebida e depois de restaurada

As antigas máquinas de costurar eram valiosos bens de propriedade e uso notoriamente feminino. E, embora aquelas damas desempenhassem com excelência as tais essenciais tarefas, observa-se que olvidavam as normas de manutenção e muitas peças apresentam desgastes específicos exagerados.
Lubrificavam algumas partes e negligenciavam outras, utilizavam óleos vegetais ou até gordura animal, claramente comprovados no processo de restauro.
Evidentemente, estas máquinas antigas, foram construídas em materiais resistentes e, justamente por isso, preservam-se por muitas décadas, mesmo sofrendo falhas de manutenção.


Excepcional “Junker & Ruh” 1889 (acervo do autor)

Algumas características de preservação alimentam os relatos históricos específicos, como esta “Junker & Ruh”, adquirida em 1890 e passada da mãe para a filha mais velha, por várias gerações, sempre com a proibição de “outros mexerem”. Esta é uma rara exceção que me chegou em perfeito estado, sempre lubrificada a contento, funcionou exaustivamente por mais de um século! Seu restauro limitou-se à mera limpeza e redação histórica.


Certificado de garantia, preservado por um século no interior da máquina


Inscrições importantes: Número de série e identificação do importador

Alguns sinais de uso caracterizam sua utilização no decorrer do tempo e merecem ser preservados como testemunha histórica de sua vida funcional, como já citado. Marcas de carbonização em peças de madeira, identificam incêndio; desgastes localizados definem formas de uso; restos de insetos ou pingos de velas indicam utilização noturna; pedaços de papel com informações numéricas em sua caixa inferior (valores, medidas,...); recortes de jornal da época, santinhos com orações, ... Enfim, são informações preciosas que enriquecem sua história e que também orientarão o seu restauro.


Muitas bases de madeira necessitam recomposição

Como normalmente as máquinas chegam-me sem relatos (obtidas em feiras, ferro-velhos, permutas ou doações), algumas etapas de análise são comprometidas. 
Inicio com identificação e cuidadosa pré-limpeza (sem perder dados), com pincel para retirada de materiais soltos, depois com solventes leves: normalmente (na ordem); água morna, água com detergente, querosene,... Jamais utilizo produtos agressivos (ácidos ou cáusticos) e sempre são indispensáveis os EPIs (avental, luvas e óculos).


Após a confecção do parafuso, o processo de envelhecimento ao rubro e mergulhado em óleo

A desmontagem, habitualmente requer esforços e ferramentas específicas: morsa, chaves de fenda de impacto, alicates de pressão, micro pinças... Sempre com muito critério e cuidado, pois a constituição das peças, em aço de baixa resistência, é quebradiço à impactos.


Execução de uma porca cônica para fixação da manopla

Importantíssimo é eleger uma ordem de desmontagem, assim como a guarda de seus componentes, pois qualquer desordem comprometerá a recomposição.

Observe-se que os parafusos de meio século não se assemelham aos atuais, pois suas roscas (passos, ângulos,...), assim como as “cabeças” não são atualmente comercializáveis. E, caso necessário substitui-los por atuais, após o processo penoso de remoção, temos de refazer roscas na peça, adaptar sua cabeça (por torneamento ou lixamento) e “envelhecê-lo” para conferir-lhe semelhante idade da máquina.

As partes corroídas por oxidação exigem procedimento abrasivo (raspagem, lixamento,..), e aplicação de anticorrosivo fosfatizante e pintura protetora.


Agulhas Made in Ceska Republika 

As peças para reposição são raríssimas e onerosas, como estas agulhas importadas da República Theca, para máquina alemã. Quando possível reutiliza-se peças de alguma máquina descartada, situação quase impossível, pois sofriam alterações constantes em dimensionamento e configuração.

E como os plásticos foram inventados após 1930 (baquelite em 1909), as partes não metálicas eram constituídas de louça (manoplas) ou madeira (bases). Por medida de economia, alguns fabricantes produziram bases e manoplas em madeira torneada. Deste modo, na ausência da manopla original, executo em madeira uma similar.

Epílogo:

Esta publicação pretendeu apresentar um singelo trabalho de restauro, limitado aos conhecimentos oriundos da experiência de quatro décadas e jamais cogitando comparar-me com os consagrados restauradores profissionais, aos quais tenho o absoluto respeito e consideração pelo emérito ofício desempenhado.

Nosso humilde acervo recebe raros visitantes, considerando não ser aberto ao público. Porém, recebemos com imensa satisfação a presença do Dr. Vladimir e esposa Dra. Olena (ucranianos), os quais demonstraram ímpar conhecimento e entendimento de nosso trabalho, cujas suas gentis palavras incentivam tal dedicação. A eles dedico esta publicação, desejando que a Paz Celestial continue abençoando os seus caminhos.

Prof. Darlou D’Arisbo  
20 de novembro de 2023