terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mais uma linda Clemens Muller - Publicação 32

Dou início a esta postagem com um agradecimento aos atuais 325.000 visitantes de nossas singelas publicações (até hoje: 29/10/19), oriundos de dezenas de países (Estados Unidos, Portugal, Rússia, Alemanha, França, Espanha, Ucrânia,...) que muito me incentiva a continuar com a intenção de preservar estas fantásticas e históricas maquinas de costurar.

O motivo desta:

Recentemente, ao navegar pela internet, observei, num site de vendas, uma máquina de costurar Clemens Muller, fabricada no início do século passado. Aparentava estar completa, mas com claros indícios de corrosão por ferrugem.
E, embora a experiência tem me alertado a tais comprometedores indícios, optei por arriscar em empreender mais esta aventura.
Ao receber a máquina, já esperando seu pior estado, surpreendi pela sua aparência, pois estava íntegra, ainda que com as decorrências de seus mais de cento e cinquenta anos de idade.


Sua aparência ao recebê-la

Imediatamente me dediquei à árdua tarefa de desmontá-la, integralmente. Com esta idade, muitas peças são teimosas, obstinadas em se manter em seu secular alojamento. Mas com extremo cuidado, ferramentas apropriadas, jeitinhos daqui e dali...
As pequenas vão se soltando e mergulhando numa “piscina” de solventes, onde ficaram repousando por dois dias.


Início de desmontagem do mecanismo inferior

Posteriormente, periciadas, as aprovadas foram enxugadas e imergidas em desoxidante, por mais 24 horas. E as reprovadas seguiram para limpeza mais agressiva (espatular, escova de aço,...) e depois voltaram à etapa anterior.
As peças grandes (mesa, base, corpo, volante,...) receberam tratamento diferenciado, tentando manter sua aparência de quando em funcionamento. Assim, suas marcas de utilização deveriam permanecer, embora sem sacrificar o exitoso funcionamento, conduta fundamental de nosso procedimento.


A seleção das peças para atenção individual

Como, normalmente o mecanismo já apresenta folgas por desgaste, procura-se evitar abrasões enérgicas (raspagens), o que resultaria em desajustes mecânicos. Assim, cada peça foi analisada conforme sua funcionalidade e limites de dimensões.
Felizmente – o que é raro em idosas – a maioria dos parafusos foram retirados com chave de fenda convencional, apenas dois foram descartados e substituídos por similares de máquinas doadoras de peças (inservíveis). Não foi necessário auxílio de micro talhadeira, procedimento muito comum em restauros anteriores e que inutiliza os parafusos.


Alguns parafusos são “microscópicos” e seus procedimentos são meticulosos, delicados, para que a oxidação existente não corrompa as minúsculas nervuras da rosca.


Peças do mecanismo da fronte, após limpeza e desoxidação vão ao polimento, ajuste e montagem


Mecanismo inferior já montado, ajustado e funcionando

Os eixos (vertical e horizontal), engrenagens cônicas, volante motriz e todo o mecanismo da parte inferior foi limpo e desoxidado. Algumas peças foram retorneadas e polidas, sendo lubrificadas e montadas com critério para bom funcionamento.
Poucas peças foram executadas (por inexistência ou inadaptabilidade das presentes): apenas dois parafusos, um pino suporte de carretel e dois fixadores da haste móvel inferior.


A Clemens Muller, restaurada, em pose de perfil

Embora raramente realizamos a pintura total (preferimos retoques, para preservar sua originalidade), neste caso, o comprometimento por oxidação tomava mais da metade da área revestida e fez-se necessária cobertura geral.


Majestosa, a Clemens Muller de 1901, serial 1.778.614, passa a integrar nosso acervo, 
já com 170 máquinas antigas restauradas.

Prof. Darlou D'Arisbo
29 de outubro de 2019




domingo, 17 de fevereiro de 2019

O restauro mais difícil dos últimos 40 anos - Publicação 31

No início de 2018, uma gentil senhora contatou-me para saber se eu poderia restaurar uma antiga Clemens Muller que ela havia adquirido de um vendedor de pastéis, na estrada para Bragança Paulista. Pelas fotos recebidas, parecia estar completa, embora emperrada.
Nosso acervo possui dezenas de Clemens Müller e mais algumas em reserva técnica (descartadas para doação de peças), o que insinuava pleno sucesso neste restauro.


A máquina quando recebida

Dias depois recebi a máquina e, ao verificá-la, me preocupei, pois a realidade apresentava-se bem pior do que na foto, pois além da generalizada ferrugem, apresentava sinais de ter passado por incêndio. A base de madeira havia sido trocada e o logotipo estava corroído, sinais factíveis que complementariam a hipótese.


Logotipo corroído por calor

Para abrir a tampa lateral fez-se necessário romper os parafusos, pois eram grosseiramente adaptados e, ao verificar a parte interna, observei que houve infiltração de água por longo tempo, com sério comprometimento dos eixos (horizontal e vertical) e de suas engrenagens cônicas, por profunda oxidação.
Posterguei a remota possibilidade de sacá-los e dediquei-me a retirar o eixo do volante.
Ele assemelha-se a um “corpulento” pino, (compr. 70mm, diâmetro aprox. 13mm) levemente excêntrico em sua metade, para permitir regulagem na distância entre as engrenagens mães do acionamento.

Mas o teimoso eixo negou-se a mexer um “mícron” sequer e constituiu um grande obstáculo para continuidade. Por dois dias, todos os procedimentos possíveis e usuais foram tentados em vão. Acostumado a velhos e teimosos sistemas mecânicos, empreendi “terapias” mais agressivas. Realizei furos longitudinais no bloco, rentes ao eixo e injetei desengripante. Apliquei impactos dinâmicos com punção em seu centro interior, choques térmicos com maçarico a gás,...
Os resultados negativos frustraram a continuidade e a primeira desistência passou a ser possível, frustrando toda a intenção de ressuscitá-la.


Tentativas de remoção a fogo do eixo do volante
 
Apenas no segundo dia, o obstinado eixo cedeu à nossa pertinácia. Inicialmente um décimo de nada, suficiente para o "arauto anjo do bem soar as trombetas". E, de ínfimo em ínfimo, ele deslizou, abandonando décadas na sua rígida morada, deslocando-se algumas insignificantes frações de milímetros, a cada dezena de robustas pancadas...
Com o ânimo revigorado, planejei a continuidade. O eixo saiu, contrariado e arrastando fragmentos do bloco.


O eixo já retorneado ao lado do volante, engrenagem maior e manopla

Lembro do que escrevi na Postagem 21:

(...) As peças parecem manifestar um patente e curioso humor. Por vezes, recusam-se a ser consertadas. Encravam seus parafusos, emperram suas engrenagens, suas madeiras atraem térmitas cupins, rompem-se, deixam-se cair... Outras vezes, ao contrário, oferecem-se emitindo sons rangidos, reflexos de luz... Vivem seus instantes de agudas crises depressivas, ou momentos de alegria e prazer, tentando aos seus modos, as mais inacreditáveis demonstrações da centenária existência (...).
 No sentido de pausar o estresse do extenuante capítulo, passei a dedicar-me à base de madeira.

Embora não original, sua parte maior foi executada em peça única de madeira nobre, que mereceu ser plenamente preservada. Estava rompida (quebrada) na região frontal e possuía "inquilinos" residentes na lateral. São "brocas da madeira" - pequenos besouros em fase larvária - cujos orifícios foram limpos e preenchidos com cavilhas, solidarizadas com adesivo vinílico.


Base rompida na parte frontal


Dois dos quatro habitáculos das larvas de "broca da madeira"

Ao abrir sua parte traseira, uma insólita surpresa: estava afixada internamente com dois pedaços de parafusos (uns 35 mm), destes utilizados para fixar elementos metálicos, (originalmente com porcas rosqueadas) e sutilmente ali introduzidos..


Trechos de parafusos usualmente utilizados para fixação metálica

Suas partes, após limpas, foram novamente encaixadas e solidarizadas com adesivos vinílicos apropriados. O conjunto recebeu sucessivos lixamentos, aplicação de selador, lixa fina e enceramento.

Retornando ao bloco (parte superior da máquina), concluímos pela absoluta inviabilidade de reutilização. Seus dois eixos e engrenagens estavam como fundidos, sem qualquer possibilidade de retirada.


O eixo seccionado para reutilização da engrenagem secundária

Nos restauros, evitamos a instalação de peças não pertencentes ao conjunto original.
E, como o bloco (carroceria) estava inutilizável, a segunda possibilidade de desistência se fez presente e a decepção cobriu o intento.
Mas ainda antes de contatar a proprietária para comunicar o desolador insucesso da empreitada, fui vasculhar na nossa reserva técnica, onde encontrei uma Clemens Müller similar, que ali estava descartada há 40 anos, tendo apenas o corpo e eixos superiores perfeitos.


Nossa ilustre doadora, após merecida limpeza

Novamente o propósito do possível êxito aplacou a renúncia e optamos pela persistência. Com a autorização da proprietária e alguns ajustes, adaptamos naquela “carroceria” a parte mecânica superior possível de resgatar da original.

Passamos a dedicar atenção ao mecanismo inferior, cuja aparência era não menos lastimável. Mas, com penoso trabalho, teve todas as peças retiradas, trabalhadas (desoxidadas, retorneadas, polidas, ajustadas,...) e reinstaladas.


Além de firmemente solidarizadas por oxidação, havia aracnídeos moradores

O mancal excêntrico do eixo vertical, acionador da biela, contra-pinos de fixação, cursor da lançadeira, eixo de deslocamento, reguladores, fixadores, biela dos dentes impelentes, molas, limitadores, parafusos (e roscas retorneados), perfis de deslizamento, charneira cônica,... foram, um a um, constituindo o complexo mecânico inferior, concluído e funcionando a contento.

O mecanismo da fronte apresentava-se análogo ao sistema inferior em sua patente inviabilidade. Mas com partes adaptadas e recebidas a partir da doadora, consegui um razoável desempenho.


O eixo da agulha, solidamente emperrado, com sua abraçadeira rompida

Muitas outras peças foram também retorneadas, polidas e acomodadas. A manopla de acionamento, em louça branca, teve seu eixo e articulação restaurados, permitindo ser dobrável, para transporte ou guarda, como era originalmente.
As hastes suportes de carretéis, parafusos de fixação do bloco, pinos fixadores,... após desoxidação, limpeza, retorneados ou com suas roscas refeitas. Assim como calcador (patinha), dentes impelentes, tampas da lançadeira, carretilha e lançadeira, tiveram similar tratamento.

Alguns retoques de pintura (quase imperceptíveis) foram realizados, sempre preservando o aspecto estético de quando na época de sua atividade.
Optamos por uma agulha adaptada (torneada), considerando que as específicas para a Clemens Müller são atualmente fabricadas na República Theca e muito onerosas.
O autêntico emblema dourado também foi um regalo da doadora, já que o anterior estava flagrantemente prejudicado.


A Clemens Muller renascida após árduo restauro

Embora tenhamos casos de desistência por absoluta inviabilidade, este será registrado como o restauro mais árduo de nossa história e, paradoxalmente, que nos contemplou com o gratificante final feliz.



A Clemens Muller, exibe sua imponência com sonoro dinamismo, para regozijo de todos os que sabem admirar sua centenária história, passada nas mãos dos tantos que a manusearam e que não mais pertencem ao nosso mundo terreno.

Nesta postagem, a nobre homenagem à Sra. Marta, proprietária da maquininha, pela sua confiança em nossos humildes préstimos de restauro.

17 de fevereiro de 2019
Prof. Darlou D'Arisbo


























segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Restauro das Pequenas - Publicação 30

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) apresenta, nesta publicação, algumas informações sobre a “ala pediátrica” de nossa oficina de restauro.

Assim como as máquinas de costurar tão utilizadas por senhoras, a partir de 1870 algumas indústrias produziram similares funcionais para as crianças meninas, respeitando dimensões e segurança. 

Atualmente os brinquedos limitam-se à virtualidade. Aquelas maquininhas despertavam e ensinavam, de maneira agradável e lúdica, canalizando as energias das crianças numa produção frutífera, na confecção de utilidades ou roupinhas para as bonecas, despertando a admiração por suas obras físicas, tangíveis.





Incentivadoras gravuras de época

Nosso acervo possui uma centena destes profícuos brinquedos e assim, mantemos uma “ala pediátrica” para restauro destas – paradoxalmente – “idosas infantis”, pois algumas possuem mais de 120 anos de sobrevivência.



Ofertas de maquininhas em jornal, no final do séc. XIX


Müller 1889 (ind. Friedrich Wilhelm Muller - Berlin), a mais antiga do nosso acervo

Muitas destas, adquiridas em diversos países, nos chegam em péssimo estado, carecendo de difícil e intrincado restauro, dificultado pela inexistência de peças ou pela necessidade de executá-las. Apesar dos obstáculos, as contingências favoráveis sempre estão presentes, como se os invisíveis anjinhos que “moravam” naquelas crianças apresentem soluções, ressuscitando estes graciosos brinquedos daquelas princesinhas.

Cerro os olhos e sinto a expressão de felicidade e compenetração presente nas faces das meninas de outrora, a manusear aquelas maquininhas.


Sewette ZigZag elétrica 1960, japonesa, antes e depois do restauro

A presente publicação refere-se ao restauro de duas maquininhas:
Uma Junior Model NP-1, made in USA, e a outra, uma Piq Bien, francesa, ambas da década de 1940.

A Junior Model NP-1, foi por nós adquirida na Feria da Calle Tristan Narvaja – Montevideo, em agosto de 2012. Aos domingos, são quilômetros de feira na rua, onde vendem muito além do que se pode imaginar: carros, patos, ferramentas, cristais,..


A Tristán Narvaja em Montevidéu, um curioso universo

O estado geral da maquininha era deplorável, aparentemente irrecuperável, mas consternado com tal situação, a adquiri por quatro dólares. Ela permaneceu em nossa reserva técnica como possível doadora de peças, graças à inexistência de peças e a inviabilidade econômica de execução das partes faltantes (dentre outras, o volante com acionador excêntrico).


A Junior NP-1 quando adquirida

Nestas maquininhas ao iniciar o restauro, a costumeira rotina do desmonte é mais parcimoniosa, cautelosa, pois suas partes são muito delicadas. E suas peças, que normalmente já chegam com sequelas de maus tratos, facilmente empenam ou quebram.
As articulações rígidas, por vezes solidamente imobilizadas pela avançada oxidação, requerem boas doses de paciência e desengripante.


Mas aos poucos, respondem com ínfimos sinais de movimento, as essenciais mensagens da possibilidade de sucesso, cujos procedimentos não devem ser contínuos, pois a ansiedade sempre conspurca o êxito.
Nos intervalos, busca-se nas bibliografias a sua identificação, pelos meandros de vários livros, com miríades de modelos produzidos.
E, num destes intervalos, descobrimos na página 75 do segundo volume vasculhado (Toy Sewing Machines – da Glenda Thomas) sua perfeita identificação: É uma Junior Model NP-1; fabricada pela Gateway Engeenering Company – Chicago 51 – Illinois – USA, em 1948.



Gravura da Junior NP-1, no Toy Sewing Machines

O desmonte é executado minuciosamente, várias peças são mergulhadas em desoxidante, outras são cuidadosamente limpas com detergente neutro, sempre na intenção de preservar suas características de quando em funcionamento. 

Alguns parafusos são descartados e, como suas roscas não são convencionais, necessita-se adquirir novos, torneando suas cabeças (eram cilíndricas), tornando-os similares aos originais e refazer suas sedes (roscas) na máquina.


Nossa Junior NP - 1, restaurada

O volante acionador do conjunto (com o cilíndrico excêntrico de acionamento das hastes balancins) foi magistralmente projetado e executado pelo filho Thiago em sua impressora 3D, com fidelidade e competência.
Finalmente, após longos anos de espera na fila da “pediatria”, devidamente recuperada ela exibe sua infantil elegância ao lado de uma centena de similares.

A PIC BIEN, é uma francesinha, foi adquirida de particular, em Curitiba e identificada por semelhança, através do Toy Sewing Machines, representada na página 72.
Estava completa, embora enferrujada e encravada, demonstrava condições de restauro.


Gravura da Pic Bien no "Toy Sewing Machines"


Antes de iniciar o desmonte

Na parte inferior da sua base havia uma antiga etiqueta de papel, com informações sobre a origem “Made in France”. Conforme relato na bibliografia consultada, o modelo foi exportado para a Inglaterra, sem citação de outros países. Possivelmente tenha sido trazida ao Brasil em bagagem.
Seu acionamento mecânico utiliza um eixo com excêntricos nas extremidades. O do volante movimenta o balancim superior por uma biela. O do outro extremo, sob a mesa, movimenta os dentes impelentes (que puxam o tecido) e o rotor que forma a alça do fio, formando uma costura em cadeia (uma alça prende a sequente, em série).



Nossa PIC BIEN, após o restauro

Após completamente desmontada, tendo suas peças oxidadas mergulhadas em desoxidante, depois de limpas e adaptadas (algumas estavam empenadas), foi remontada, com mecanismo ajustado e lubrificado. Seu corpo recebeu apenas um tratamento anti ferrugem e polimento, pois a pintura em tonalidade azulada necessitou apenas de pequenos retoques e polimento. 

Ambas passam a integrar o acervo de antigas maquinas infantis de costurar, já com mais de uma centena de exemplares.

Nesta postagem, uma merecida homenagem ao casal Mario e Christina, agradecendo pelo belíssimo regalo que nos ofereceu.
Eles compõem o restrito e distinto grupo que muito nos incentiva a continuar preservando estas preciosidades históricas.


 
A fidalguia se distingue entre os raros (DD2018)
Prof. Darlou D'Arisbo













terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Restauro de uma BAUER - Postagem 29

Muitas vezes nos questionam como as máquinas nos chegam e, podemos dizer que algumas de forma inusitada ou até surpreendente.

Dentre tantas, certamente a mais inesperada das vezes foi quando uma senhora nos interpelou, entre milhares de transeuntes numa feira de rua, perguntaando se não queríamos comprar uma antiga máquina de costurar... Acredito que há uma atração telepática, uma comunicação entre mentes afins, que excedem os limites da percepção ordinária entre pessoas.

O presente restauro também ocorreu inesperadamente, pois ao visitarmos a pequena cidade de Itá-SC, fomos conhecer o Recanto do Balseiro, a convite de um novo amigo. Lá nos surpreendemos com a existência de um museu particular e com o admirável conhecimento histórico da cidade demonstrado pelo proprietário.

Ao saber de nossa oficina de restauro, ele nos confiou a antiga máquina de costurar, marca BAUER, que pertenceu à sua mãe, para análise de possível restauro.

A partir de pesquisa, constatamos que ela foi fabricada por Gebrüder Weyersberg, indústria fundada em 1º de janeiro de 1787 pelos irmãos Wilhelm, Peter e Johann Ludwig Weyersberg, na cidade de Solingen, região de Dusseldorf, na Renania do Norte (Alemanha).




Uma das antigas “portas” e a Praça do Mercado (Marktplatz) em Solingen (Wikipédia)

Diversas forjas de renome estão instaladas há séculos na cidade, fabricando espadas, facas, tesouras e navalhas, com aço de esmerada qualidade. Desde a Idade Média, Solingen foi titulada como "Cidade das Lâminas". Foram encontrados restos de fundições, remanescentes da época romana nos arredores da cidade. As espadas de Solingen foram usadas em vários reinos, assim como Anglo-Saxões e Ilhas Britânicas e hoje, estima-se que 90% das facas do país sejam ainda fabricadas na cidade.



A qualidade do aço ali produzido permitiu a construção da Ponte de Müngsten, (em 1897), a mais elevada treliçada da Alemanha, com 107m de altura, ligando Solingen a Remscheid

Ao investigar com minúcia a máquina (análoga à Vesta) observamos que estava quase completa, porém com mecanismo encravado e todas as peças “móveis” enferrujadas, como um bloco único.


A máquina, quando recebida

Porém, apostamos no êxito do restauro e, arduamente, fomos desmontando sua mecânica, iniciando pelo mecanismo da fronte. Verificamos ali que a situação real era pior que a estimada. Os eixos verticais e seus acessórios estavam solidamente encravados. Ninhos de insetos e resíduos de infiltração de água completavam a desditosa análise.


 
Oxidação do cursor da regulagem do ponto e mecanismo da fronte com ninho de insetos
Dentre outros obstáculos vencidos, a retirada dos eixos verticais da fronte exigiu maior dedicação, sendo removidos somente após sequentes e exaustivos choques térmicos e dinâmicos. Por três dias trabalhamos para desmontar todas as peças apenas deste conjunto funcional.

Além de todo o conjunto motriz da fronte e superior, a parte inferior também se encontrava travada por grave oxidação. Vários parafusos romperam-se ao serem retirados, seus restos foram removidos, locais e sedes foram refurados, suas roscas refeitas, e novos instalados dentro dos padrões da época.

Embora árduo, o sucesso do desmonte foi positivo ao verificar que seriam poucas as peças antigas que necessitariam ser adquiridas ou executadas (onerosas), pois a maioria foi reutilizada após aplicação individual de desoxidante, retorneamento ou polimento e adaptação.

No total, cerca de uma centena de peças foram preparadas para proporcionar um funcionamento geral do mecanismo, embora certamente não volte a costurar, graças às folgas naturais decorrentes da idade.


Algumas peças restauradas e já prontas para montagem

Apenas o fixador da agulha, regulador de tensão do calcador (patinha), “pneu” do rebobinador e mais algumas poucas peças e parafusos foram substituídos, além de aquisição de material básico para os serviços.

Mantivemos a pintura original, após limpeza, pequenos retoques e polimento, pois ela revela alguns desenhos (florais) que merecem ser preservados. Temos como princípio manter a originalidade das peças, oferecendo à máquina um aspecto semelhante ao de seu auge quando em nobre atividade de costurar.

A base de madeira foi reestruturada, com material semelhante ao utilizado na época, com tratamento anti térmitas (cupins), mantendo ao máximo suas características originais.


Ressuscitada, linda e imponente

Assim como em todas as máquinas antigas, devem ser evitados manuseios inconvenientes, resguardada de intempéries, necessitando apenas de leve movimento periódico e lubrificação anual.

Temos certeza que esta máquina de costurar terá um lugar de destaque numa vitrine no seu exemplar museu particular, ao lado de centenas de outras

E, ao iniciar mais um ano cristão, compete-me augurar que os governantes ofereçam melhor dedicação à preservação histórica, apoiando entidades museológicas e acervos particulares, para que nossos descendentes possam conhecer tantos objetos, instrumentos e utensílios que significaram o alicerce de nossas famílias, urbes, indústrias,... bases da tecnologia atual.

Prof. Darlou D’Arisbo
restauro.antique@yahoo.com.br

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O COLECIONISTA - publicação 27

Sentimo-nos admiravelmente incentivados e agradecidos pelos 221.206 visitantes (até hoje, 30 de novembro de 2018) ao blog do nosso museu, originários de uma centena de países.

Dentre estes, destacamos as dez primeiras posições:

Visitantes do Brasil 142.080; Estados Unidos 41.347; Portugal 15.002; Russia 7.223; Alemanha 2.020; França 1.407; Espanha 910; Ucrânia 450; Irlanda 431; Polônia 367;...

A postagem de hoje refere-se à peça mais importante de qualquer acervo de antiguidades: “O Colecionista”

Conforme o Houaiss, a coleção é uma reunião ordenada de objetos de interesse estético, cultural, científico, etc., que possui valor pela sua raridade ou que simplesmente, desperta a vontade de colecioná-los.

Imagina-se que o hábito da coleção tenha iniciado a partir do interesse pela guarda de objetos. Assim, presume-se que os pré-históricos, que já utilizavam ferramentas (de exaustiva confecção), guardavam-nas para utilizá-las por muito tempo.


Parte de nosso acervo de antigas máquinas manuais de costurar

Dentre as instituições que preservam objetos, destacam-se as bibliotecas. A mais famosa do mundo foi a Biblioteca de Alexandria (século III) a qual, segundo lenda, continha a fórmula da imortalidade. Certamente tal citação seja metafórica, relacionando o conteúdo dos livros com a perenidade do pensamento humano. As bibliotecas eram cognominadas “tesouros dos remédios da alma”, pois que nelas se curava a ignorância, que é a mais perigosa enfermidade e causa de todas as outras. Tal asserção é perfeita para a nossa atualidade.


Meio século dedicado à preservação das máquinas

Nós, os colecionistas, consagramos grande parte da vida (no meu caso, mais de meio século) na preservação e acervamento de objetos, para tornar mais viva, colorida e tangível a história da humanidade.


Máquinas centenárias, majestosas e presentes

Todos navegamos por semelhantes mares, em naus distintas, embora com específicos objetos. Assim, abençoados com a beleza do passado, usamos estes exemplares como alicerce para galgar os pródigos futuros em terra nobre e firme. Direcionamos o leme, perscrutando itinerários e objetivos, no interesse de salvaguardar a memória, tornando-a física e visível, para que nossos descendentes tenham a oportunidade de visualizá-los.


No Museu Arenas – Colonia Del Sacramento – Uruguay

Entre nós, possuímos uma afinidade empática. Algo como uma demonstração de sensibilidade comum. Uma comprobatória evidência na identificação de interesses recíprocos que excede a mera expressão verbal.


Com o Angelo Sprícigo (104 anos de idade e 1700 máquinas)

Dentre tantos, frequentemente visitamos o Museu Angelo Spricigo (Concórdia – SC) cujo proprietário, o “Vô Ângelo”, a personificação de uma bênção divina, presente, viva e compactada em seu franzino corpo, mantém, com o neto Valdecir, o maior acervo de máquinas de costurar do Brasil.

Dedicando um dia de restauro ao Museu Sprícigo

Considero que os museus estabelecem uma sólida ponte ligando o passado ao presente e oferecendo a sólida base para sustentar o futuro.


Não há evolução sem a conexão da cultura histórica


Os museus abastecem com informações do pretérito, aplicáveis ao contemporâneo,
num longo percurso em curto lapso de tempo. (Museu do Automóvel – Bruxelas – Bélgica).

Na intenção de conscientizar as comunidades desta fundamental e imprescindível necessidade, já proferimos palestras em encontro de museólogos, simpatizantes e leigos onde muitos se mostravam entediados com o enfadonho assunto. E também já recebi visitantes, até ilustres autoridades, que comentaram sobre a “alienação mental de quem vive no passado, em detrimento de alguma atividade mais moderna e útil”.

Sempre respeitamos todas as opiniões, preceitos, comentários e críticas, pois estas manifestações também estimulam nossa dedicação.

Visitamos centenas de museus pela Europa (vide “felizmotorhome.blogspot.com.br”), onde confirmamos o digno paralelo entre a demonstrada cultura da população e seu apreço ou devotamento às instituições museológicas.


Alguns ouvidos surdos e mentes alheias, tais estátuas

O nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) integra o Cadastro do Ministério da Cultura e é um acervo particular e privado, que desenvolve pesquisa na evolução mecânica e social deste importante instrumento mecânico, com abrangência no intervalo entre 1850 e 1950 (época auge de sua produção e utilização).

Esta disponibilidade informativa apresenta as etapas evolutivas das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais, incluindo a estética, proteção do próprio corpo às intempéries, e a indiscutível participação da máquina de costurar na emancipação da mulher, cujo desenvolvimento iniciou e progrediu num dos resultados da revolução industrial, no seio europeu, em meados do século XIX.

Como objetiva diretriz, visamos a preservação histórica da máquina de costurar, que é o segundo instrumento mecânico mais importante da história humana: (o primeiro é o arado). Possuímos um acervo de mais de uma centena destas antigas máquinas, com reserva técnica, oficina de restauro e manutenção.


Nossa oficina de restauro faz milagres (foto de antes e depois).

Lamentavelmente, observamos que a manutenção dos objetos acervados nos museus brasileiros é deficiente. Comumente suas peças estão deterioradas, com limpeza ou restauro mal executados, utilizando produtos impróprios, cáusticos, alterando a constituição das peças, ou solventes que alteram suas cores ou deterioram partes delicadas, comprometendo a estrutura e estética.

No que se refere à preservação histórica, nossa soberania vergonhosa e infame, comprovada nas matérias publicadas (BBC News Brasil on Twitter):

“A verba destinada ao Museu Nacional no ano de 2018 equivale a dois minutos de gasto do Judiciário brasileiro.
O governo Chinês está exigindo devolução de peças que foram doadas a museus de todo o mundo e que não estão recebendo a devida manutenção. 
O ministro da cultura do Egito afirmou que o incêndio do Museu Nacional foi um ataque à memória de seu país, pois muitas relíquias (múmias e sarcófagos) foram destruídas. Assim como outros países já se manifestaram, solicita a repatriação das peças ainda existentes.”

Receio que os museus fiquem à deriva, após a última viagem de seus capitães

Tais observações revelam desconhecimento daqueles que teriam a obrigação de preservar nossa história. Ocorre que, normalmente, os museus são vinculados a municipalidades ou entidades que alternam sua direção e assim, os próprios funcionários não possuem interesse ou tempo de dedicação para angariar conhecimento na área, embora possam consagrar o melhor de sua capacidade.

É conveniente ressaltar que não podemos culpar exclusivamente a falta de subsídios financeiros, mas também o desconhecimento, a imperícia, a negligência,...

Será necessário entender que a preservação destes objetos constitui uma página viva, tangível, da história da civilização. E que a falha em sua manutenção promoverá uma quebra irreparável na interpretação de nossa visível sequencia histórica. Uma criança ou adolescente é infinitamente melhor sensibilizado ao ver, sentir e analisar um objeto que marcou época do que imaginá-lo através de gravuras bidimensionais ou pior, explicações verbalizadas ou textos de interpretação pessoal e inerente ao leitor. 


Prof. Darlou D'Arisbo
30 de novembro de 2018