sexta-feira, 2 de abril de 2021

História da CASIGE - Publicação 34

Nesta postagem, o Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) apresenta a história da Casige, uma antiga e próspera indústria alemã de maquininhas infantis.

No final dos anos 1.800, na cidade de Gevelsberg (Westfalen – Alemanha), foi fundada a Indústria Casige, cujo nome baseado nas iniciais de seu fundador (Carl Sieper) acrescentados aos da cidade (Ca – Si – Ge).
Inicialmente, a empresa fabricava fechaduras para pianos, mas, após o falecimento da Rainha Vitória (rainha consorte da Prússia e imperatriz da Alemanha), o neto do fundador (Carl Sieper III) interessou-se em produzir maquininhas de costurar para escolas, ensinando as meninas à indispensável arte de costurar. 

 
Casige (aprox.. 1930). Perfeita. Citada no Early S. Machines pg 262 fig 3-47
(13 x 06 x 14cm) Acervo MAMC070

Nesta época, a grande Indústria Muller já fabricava brinquedos e teve o incentivo para firmar contratos para estabelecimentos de ensino feminino. (ver publicação 18)


Muller Mod 14 (aprox. 1900) Originalmente decorada com flores e desenhos dourados.
(20 x 11 x 18cm) Acervo MAMC005

O símbolo da Casige, a “Águia Patriótica” com uma chave, baseava-se nas fechaduras para pianos, em bronze.
 




A partir de 1902, os negócios prosperaram muito, com lucrativos contratos e exportando para vários países suas maquininhas infantis.


Casige (aprox.1928) Pintura e detalhes originais. Citada no Early Toys ver pagina
(14 x 07 x 14cm) Acervo MAMC065


Casige (aprox 1930) Restaurada. Possui inscrição “Casige – Made in Germany”. Citada no Toy M.Machines pg 26 fig 27. (14 x 08 x 13 cm) Acervo MAMC067


Casige (aprox. 1930) Restaurada. Citada no Toy Sewing Machines pg 27.
(22 x 13 x 20cm Acervo MAMC064

Sua indústria sobreviveu às duas grandes guerras, sendo que, na segunda, os Aliados assumiram sua produção mantendo a marca Casige, também o símbolo e, principalmente as maquininhas. (assim como ocorreu com a Volkswagen),

A Alemanha, então ocupada, foi dividida em quatro zonas: Britânica, Francesa, Norte-americana e Soviética. Os territórios invadidos pela Alemanha na Bélgica, França, Áustria, Iugoslávia Luxemburgo, Polônia e Checoslováquia, foram devolvidos a seus países.

A indústria Casige, na zona sob administração inglesa passou a ter a inscrição, em baixo relevo: “MADE IN GERMANY – BRITISH ZONE”



Inscrição em baixo relevo “British Zone”

E as máquinas infantis fabricadas pela Muller (Berlim), região ocupada pelos Estados Unidos passaram a ter a gravação: “US zone – Germany”.


Inscrição em baixo relevo "US-ZONE"

As maquininhas Casige continuaram a ser fabricadas e exportadas. Nesta última década, nosso museu conseguiu adquirir algumas na Argentina, Brasil, França, Itália, Portugal, Suíça e Uruguai.


Casige (aprox..1946) Restaurada. Produzida na zona inglesa da Alemanha ocupada
(17 x 10 x 15cm). Acervo MAMC030


Casige (aprox.1947) Inscrição “Made in Germany-British Zone GESCH-M
(22 x 13 x 18cm) Acervo MAMC028


Casige (aprox 1947). Restaurada. Inscrição “Made in Germany-British Zone”
(17 x 10 x 15cm) Acervo MAMC037


Casige Mod. Straco (aprox. 1948) Citada no Toy Sewing Machines pág 185
Germany-British Zone (21 x 10 x 15cm) MAMC042

A indústria Casige produziu milhões de maquininhas em centenas de modelos, até 1975, quando encerrou suas atividades, pelo desinteresse desta atividade nas meninas.


Algumas, mais sofisticadas acompanhavam completo estojo de costura

O nosso Museu de Máquinas Manuais de Costurar possui, além das antigas máquinas convencionais para adultos, cerca de uma centena de infantis fabricadas entre 1890 e 1970.


Casige e a embalagem original

Estes brinquedos tinham o propósito de incentivar as meninas (após os 7 anos) a desenvolver criatividade e imaginação, ensinando, de maneira agradável, lúdica e canalizando as energias das crianças numa produção frutífera.


Gravura: gentileza Ana Caldatto

Produziam roupas para as bonecas e até utilidades diversas para seu uso e admiravam suas obras físicas, em ações tangíveis, aumentando sua auto-estima.
Infelizmente, na atualidade os brinquedos limitam-se ao entretenimento virtual, sem instruir nem educar, sem desenvolver atenção, controle e planejamento.

Prof. Darlou D'Arisbo
02 de abril de 2021










segunda-feira, 30 de março de 2020

Namoro de mais de uma década – Publicação 33

A presente publicação foge das revelações frias anteriores e revela uma longa história de namoro, com um inesperado final feliz.

Esta peripécia iniciou há mais de dez anos, pois possuímos um motor home, onde eu e a esposa viajamos por este pitoresco mundo, alimentando nossa cultura, cujas publicações revelamos no (http://felizmotorhome.blogspot.com.br//).
Nestas viagens, procuramos repetir os locais que, por sua particularidade, ofereceram elementos atrativos, que despertam simpatia; sejam eles paisagens divinas, tangíveis expressões culturais, pessoas empaticamente inesquecíveis ou até pela deliciosa gastronomia.
Dentre tantas cidades que conquistaram nossa admiração, lá na região Sul do Brasil, a cidade de Canela-RS é uma destas. Possui um encanto particular, uma elogiável identidade turística.


O Restaurante Olimpia, na cidade de Canela

E, sempre que a visitamos, elegemos o mesmo restaurante especial para almoçarmos, pois que além da variedade, qualidade e sabor dos alimentos, simpatia e gentileza do proprietário... a decoração do aconchegante ambiente com peças antigas sempre nos atraiu.


Aconchegante interior do restaurante

Durante mais de uma década, observamos ali uma antiga máquina de costurar, exposta como decoração e sempre perguntamos se não gostariam de doá-la para o nosso museu. A resposta óbvia, era invariavelmente negativa e perpetuou repetida durante mais de dez anos.
Nesta última visita, o proprietário, num surpreendente ato de gentileza, nos entregou a maquininha, como presente, um fantástico e imprevisível regalo. 
Foi um momento inusitado, em que não pudemos esconder o emocionante contentamento. O Sr. Henrique terá seu nome citado na ficha de identificação da maquininha, como lembrança de seu nobre gesto.

 
A doação da máquina, pelo Sr. Henrique (Restaurante Olimpia)

Ao retornar para nossa cidade, submetemos a máquina - Clemens Muller, fabricada em 1886 - a um merecedor restauro, pois embora estivesse razoavelmente íntegra (com 130 anos de idade), estava com o mecanismo encravado, um pouco corroída por oxidação e alguns elementos faltantes. Foi desmontada, sendo identificado o seu número de série (828.050) e, peça por peça, teve o procedimento convencional de reconstituição, que dedicamos a todas as máquinas de nosso acervo e já amplamente citado em publicações anteriores.


Fábrica Clemens Muller em 1870
 
A Clemens Müller foi a primeira indústria de máquinas de costurar da Alemanha (Dresden), iniciando a produção ainda modesta em 1855, com instalação fabril em 1870. O sucesso foi tão prodigioso que, no ano de 1930 produziu três milhões de máquinas.


Parte de nosso acervo (Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar)

Em nosso acervo, entre centenas de outras marcas, possuímos quatro dezenas de Clemens Muller, fabricadas desde 1875 até 1930, todas com alguma diferença (dimensão, formato, base, sistema,..), tornadas funcionais no ateliê de restauro do nosso museu.
Ressaltamos que não comercializamos máquinas e restauramos apenas as de nosso acervo.


A linda Clemens Muller, após o restauro e incorporada ao acervo do museu

Nesta publicação, fazemos singela menção de apreço a todos que, de alguma maneira, incentivam nosso árduo trabalho de restaurar e acervar as prodigiosas maquininhas. Estas preciosidades foram os embriões do desenvolvimento mecânico, da emancipação feminina e de outras muitas belas páginas de nossa história.
 
E ilustrando este parágrafo final, patenteamos a essencial homenagem ao Sr Mario Paulo Ventura Rodrigues, um grande incentivador de nosso trabalho, a quem auguramos que o Supremo Criador continue a iluminar os seus caminhos, abençoá-lo e aos seus diletos familiares.

Prof. Darlou D'Arisbo
30 de março de 2020

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mais uma linda Clemens Muller - Publicação 32

Dou início a esta postagem com um agradecimento aos atuais 325.000 visitantes de nossas singelas publicações (até hoje: 29/10/19), oriundos de dezenas de países (Estados Unidos, Portugal, Rússia, Alemanha, França, Espanha, Ucrânia,...) que muito me incentiva a continuar com a intenção de preservar estas fantásticas e históricas maquinas de costurar.

O motivo desta:

Recentemente, ao navegar pela internet, observei, num site de vendas, uma máquina de costurar Clemens Muller, fabricada no início do século passado. Aparentava estar completa, mas com claros indícios de corrosão por ferrugem.
E, embora a experiência tem me alertado a tais comprometedores indícios, optei por arriscar em empreender mais esta aventura.
Ao receber a máquina, já esperando seu pior estado, surpreendi pela sua aparência, pois estava íntegra, ainda que com as decorrências de seus mais de cento e cinquenta anos de idade.


Sua aparência ao recebê-la

Imediatamente me dediquei à árdua tarefa de desmontá-la, integralmente. Com esta idade, muitas peças são teimosas, obstinadas em se manter em seu secular alojamento. Mas com extremo cuidado, ferramentas apropriadas, jeitinhos daqui e dali...
As pequenas vão se soltando e mergulhando numa “piscina” de solventes, onde ficaram repousando por dois dias.


Início de desmontagem do mecanismo inferior

Posteriormente, periciadas, as aprovadas foram enxugadas e imergidas em desoxidante, por mais 24 horas. E as reprovadas seguiram para limpeza mais agressiva (espatular, escova de aço,...) e depois voltaram à etapa anterior.
As peças grandes (mesa, base, corpo, volante,...) receberam tratamento diferenciado, tentando manter sua aparência de quando em funcionamento. Assim, suas marcas de utilização deveriam permanecer, embora sem sacrificar o exitoso funcionamento, conduta fundamental de nosso procedimento.


A seleção das peças para atenção individual

Como, normalmente o mecanismo já apresenta folgas por desgaste, procura-se evitar abrasões enérgicas (raspagens), o que resultaria em desajustes mecânicos. Assim, cada peça foi analisada conforme sua funcionalidade e limites de dimensões.
Felizmente – o que é raro em idosas – a maioria dos parafusos foram retirados com chave de fenda convencional, apenas dois foram descartados e substituídos por similares de máquinas doadoras de peças (inservíveis). Não foi necessário auxílio de micro talhadeira, procedimento muito comum em restauros anteriores e que inutiliza os parafusos.


Alguns parafusos são “microscópicos” e seus procedimentos são meticulosos, delicados, para que a oxidação existente não corrompa as minúsculas nervuras da rosca.


Peças do mecanismo da fronte, após limpeza e desoxidação vão ao polimento, ajuste e montagem


Mecanismo inferior já montado, ajustado e funcionando

Os eixos (vertical e horizontal), engrenagens cônicas, volante motriz e todo o mecanismo da parte inferior foi limpo e desoxidado. Algumas peças foram retorneadas e polidas, sendo lubrificadas e montadas com critério para bom funcionamento.
Poucas peças foram executadas (por inexistência ou inadaptabilidade das presentes): apenas dois parafusos, um pino suporte de carretel e dois fixadores da haste móvel inferior.


A Clemens Muller, restaurada, em pose de perfil

Embora raramente realizamos a pintura total (preferimos retoques, para preservar sua originalidade), neste caso, o comprometimento por oxidação tomava mais da metade da área revestida e fez-se necessária cobertura geral.


Majestosa, a Clemens Muller de 1901, serial 1.778.614, passa a integrar nosso acervo, 
já com 170 máquinas antigas restauradas.

Prof. Darlou D'Arisbo
29 de outubro de 2019




domingo, 17 de fevereiro de 2019

O restauro mais difícil dos últimos 40 anos - Publicação 31

No início de 2018, uma gentil senhora contatou-me para saber se eu poderia restaurar uma antiga Clemens Muller que ela havia adquirido de um vendedor de pastéis, na estrada para Bragança Paulista. Pelas fotos recebidas, parecia estar completa, embora emperrada.
Nosso acervo possui dezenas de Clemens Müller e mais algumas em reserva técnica (descartadas para doação de peças), o que insinuava pleno sucesso neste restauro.


A máquina quando recebida

Dias depois recebi a máquina e, ao verificá-la, me preocupei, pois a realidade apresentava-se bem pior do que na foto, pois além da generalizada ferrugem, apresentava sinais de ter passado por incêndio. A base de madeira havia sido trocada e o logotipo estava corroído, sinais factíveis que complementariam a hipótese.


Logotipo corroído por calor

Para abrir a tampa lateral fez-se necessário romper os parafusos, pois eram grosseiramente adaptados e, ao verificar a parte interna, observei que houve infiltração de água por longo tempo, com sério comprometimento dos eixos (horizontal e vertical) e de suas engrenagens cônicas, por profunda oxidação.
Posterguei a remota possibilidade de sacá-los e dediquei-me a retirar o eixo do volante.
Ele assemelha-se a um “corpulento” pino, (compr. 70mm, diâmetro aprox. 13mm) levemente excêntrico em sua metade, para permitir regulagem na distância entre as engrenagens mães do acionamento.

Mas o teimoso eixo negou-se a mexer um “mícron” sequer e constituiu um grande obstáculo para continuidade. Por dois dias, todos os procedimentos possíveis e usuais foram tentados em vão. Acostumado a velhos e teimosos sistemas mecânicos, empreendi “terapias” mais agressivas. Realizei furos longitudinais no bloco, rentes ao eixo e injetei desengripante. Apliquei impactos dinâmicos com punção em seu centro interior, choques térmicos com maçarico a gás,...
Os resultados negativos frustraram a continuidade e a primeira desistência passou a ser possível, frustrando toda a intenção de ressuscitá-la.


Tentativas de remoção a fogo do eixo do volante
 
Apenas no segundo dia, o obstinado eixo cedeu à nossa pertinácia. Inicialmente um décimo de nada, suficiente para o "arauto anjo do bem soar as trombetas". E, de ínfimo em ínfimo, ele deslizou, abandonando décadas na sua rígida morada, deslocando-se algumas insignificantes frações de milímetros, a cada dezena de robustas pancadas...
Com o ânimo revigorado, planejei a continuidade. O eixo saiu, contrariado e arrastando fragmentos do bloco.


O eixo já retorneado ao lado do volante, engrenagem maior e manopla

Lembro do que escrevi na Postagem 21:

(...) As peças parecem manifestar um patente e curioso humor. Por vezes, recusam-se a ser consertadas. Encravam seus parafusos, emperram suas engrenagens, suas madeiras atraem térmitas cupins, rompem-se, deixam-se cair... Outras vezes, ao contrário, oferecem-se emitindo sons rangidos, reflexos de luz... Vivem seus instantes de agudas crises depressivas, ou momentos de alegria e prazer, tentando aos seus modos, as mais inacreditáveis demonstrações da centenária existência (...).
 No sentido de pausar o estresse do extenuante capítulo, passei a dedicar-me à base de madeira.

Embora não original, sua parte maior foi executada em peça única de madeira nobre, que mereceu ser plenamente preservada. Estava rompida (quebrada) na região frontal e possuía "inquilinos" residentes na lateral. São "brocas da madeira" - pequenos besouros em fase larvária - cujos orifícios foram limpos e preenchidos com cavilhas, solidarizadas com adesivo vinílico.


Base rompida na parte frontal


Dois dos quatro habitáculos das larvas de "broca da madeira"

Ao abrir sua parte traseira, uma insólita surpresa: estava afixada internamente com dois pedaços de parafusos (uns 35 mm), destes utilizados para fixar elementos metálicos, (originalmente com porcas rosqueadas) e sutilmente ali introduzidos..


Trechos de parafusos usualmente utilizados para fixação metálica

Suas partes, após limpas, foram novamente encaixadas e solidarizadas com adesivos vinílicos apropriados. O conjunto recebeu sucessivos lixamentos, aplicação de selador, lixa fina e enceramento.

Retornando ao bloco (parte superior da máquina), concluímos pela absoluta inviabilidade de reutilização. Seus dois eixos e engrenagens estavam como fundidos, sem qualquer possibilidade de retirada.


O eixo seccionado para reutilização da engrenagem secundária

Nos restauros, evitamos a instalação de peças não pertencentes ao conjunto original.
E, como o bloco (carroceria) estava inutilizável, a segunda possibilidade de desistência se fez presente e a decepção cobriu o intento.
Mas ainda antes de contatar a proprietária para comunicar o desolador insucesso da empreitada, fui vasculhar na nossa reserva técnica, onde encontrei uma Clemens Müller similar, que ali estava descartada há 40 anos, tendo apenas o corpo e eixos superiores perfeitos.


Nossa ilustre doadora, após merecida limpeza

Novamente o propósito do possível êxito aplacou a renúncia e optamos pela persistência. Com a autorização da proprietária e alguns ajustes, adaptamos naquela “carroceria” a parte mecânica superior possível de resgatar da original.

Passamos a dedicar atenção ao mecanismo inferior, cuja aparência era não menos lastimável. Mas, com penoso trabalho, teve todas as peças retiradas, trabalhadas (desoxidadas, retorneadas, polidas, ajustadas,...) e reinstaladas.


Além de firmemente solidarizadas por oxidação, havia aracnídeos moradores

O mancal excêntrico do eixo vertical, acionador da biela, contra-pinos de fixação, cursor da lançadeira, eixo de deslocamento, reguladores, fixadores, biela dos dentes impelentes, molas, limitadores, parafusos (e roscas retorneados), perfis de deslizamento, charneira cônica,... foram, um a um, constituindo o complexo mecânico inferior, concluído e funcionando a contento.

O mecanismo da fronte apresentava-se análogo ao sistema inferior em sua patente inviabilidade. Mas com partes adaptadas e recebidas a partir da doadora, consegui um razoável desempenho.


O eixo da agulha, solidamente emperrado, com sua abraçadeira rompida

Muitas outras peças foram também retorneadas, polidas e acomodadas. A manopla de acionamento, em louça branca, teve seu eixo e articulação restaurados, permitindo ser dobrável, para transporte ou guarda, como era originalmente.
As hastes suportes de carretéis, parafusos de fixação do bloco, pinos fixadores,... após desoxidação, limpeza, retorneados ou com suas roscas refeitas. Assim como calcador (patinha), dentes impelentes, tampas da lançadeira, carretilha e lançadeira, tiveram similar tratamento.

Alguns retoques de pintura (quase imperceptíveis) foram realizados, sempre preservando o aspecto estético de quando na época de sua atividade.
Optamos por uma agulha adaptada (torneada), considerando que as específicas para a Clemens Müller são atualmente fabricadas na República Theca e muito onerosas.
O autêntico emblema dourado também foi um regalo da doadora, já que o anterior estava flagrantemente prejudicado.


A Clemens Muller renascida após árduo restauro

Embora tenhamos casos de desistência por absoluta inviabilidade, este será registrado como o restauro mais árduo de nossa história e, paradoxalmente, que nos contemplou com o gratificante final feliz.



A Clemens Muller, exibe sua imponência com sonoro dinamismo, para regozijo de todos os que sabem admirar sua centenária história, passada nas mãos dos tantos que a manusearam e que não mais pertencem ao nosso mundo terreno.

Nesta postagem, a nobre homenagem à Sra. Marta, proprietária da maquininha, pela sua confiança em nossos humildes préstimos de restauro.

17 de fevereiro de 2019
Prof. Darlou D'Arisbo


























segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Restauro das Pequenas - Publicação 30

O Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) apresenta, nesta publicação, algumas informações sobre a “ala pediátrica” de nossa oficina de restauro.

Assim como as máquinas de costurar tão utilizadas por senhoras, a partir de 1870 algumas indústrias produziram similares funcionais para as crianças meninas, respeitando dimensões e segurança. 

Atualmente os brinquedos limitam-se à virtualidade. Aquelas maquininhas despertavam e ensinavam, de maneira agradável e lúdica, canalizando as energias das crianças numa produção frutífera, na confecção de utilidades ou roupinhas para as bonecas, despertando a admiração por suas obras físicas, tangíveis.





Incentivadoras gravuras de época

Nosso acervo possui uma centena destes profícuos brinquedos e assim, mantemos uma “ala pediátrica” para restauro destas – paradoxalmente – “idosas infantis”, pois algumas possuem mais de 120 anos de sobrevivência.



Ofertas de maquininhas em jornal, no final do séc. XIX


Müller 1889 (ind. Friedrich Wilhelm Muller - Berlin), a mais antiga do nosso acervo

Muitas destas, adquiridas em diversos países, nos chegam em péssimo estado, carecendo de difícil e intrincado restauro, dificultado pela inexistência de peças ou pela necessidade de executá-las. Apesar dos obstáculos, as contingências favoráveis sempre estão presentes, como se os invisíveis anjinhos que “moravam” naquelas crianças apresentem soluções, ressuscitando estes graciosos brinquedos daquelas princesinhas.

Cerro os olhos e sinto a expressão de felicidade e compenetração presente nas faces das meninas de outrora, a manusear aquelas maquininhas.


Sewette ZigZag elétrica 1960, japonesa, antes e depois do restauro

A presente publicação refere-se ao restauro de duas maquininhas:
Uma Junior Model NP-1, made in USA, e a outra, uma Piq Bien, francesa, ambas da década de 1940.

A Junior Model NP-1, foi por nós adquirida na Feria da Calle Tristan Narvaja – Montevideo, em agosto de 2012. Aos domingos, são quilômetros de feira na rua, onde vendem muito além do que se pode imaginar: carros, patos, ferramentas, cristais,..


A Tristán Narvaja em Montevidéu, um curioso universo

O estado geral da maquininha era deplorável, aparentemente irrecuperável, mas consternado com tal situação, a adquiri por quatro dólares. Ela permaneceu em nossa reserva técnica como possível doadora de peças, graças à inexistência de peças e a inviabilidade econômica de execução das partes faltantes (dentre outras, o volante com acionador excêntrico).


A Junior NP-1 quando adquirida

Nestas maquininhas ao iniciar o restauro, a costumeira rotina do desmonte é mais parcimoniosa, cautelosa, pois suas partes são muito delicadas. E suas peças, que normalmente já chegam com sequelas de maus tratos, facilmente empenam ou quebram.
As articulações rígidas, por vezes solidamente imobilizadas pela avançada oxidação, requerem boas doses de paciência e desengripante.


Mas aos poucos, respondem com ínfimos sinais de movimento, as essenciais mensagens da possibilidade de sucesso, cujos procedimentos não devem ser contínuos, pois a ansiedade sempre conspurca o êxito.
Nos intervalos, busca-se nas bibliografias a sua identificação, pelos meandros de vários livros, com miríades de modelos produzidos.
E, num destes intervalos, descobrimos na página 75 do segundo volume vasculhado (Toy Sewing Machines – da Glenda Thomas) sua perfeita identificação: É uma Junior Model NP-1; fabricada pela Gateway Engeenering Company – Chicago 51 – Illinois – USA, em 1948.



Gravura da Junior NP-1, no Toy Sewing Machines

O desmonte é executado minuciosamente, várias peças são mergulhadas em desoxidante, outras são cuidadosamente limpas com detergente neutro, sempre na intenção de preservar suas características de quando em funcionamento. 

Alguns parafusos são descartados e, como suas roscas não são convencionais, necessita-se adquirir novos, torneando suas cabeças (eram cilíndricas), tornando-os similares aos originais e refazer suas sedes (roscas) na máquina.


Nossa Junior NP - 1, restaurada

O volante acionador do conjunto (com o cilíndrico excêntrico de acionamento das hastes balancins) foi magistralmente projetado e executado pelo filho Thiago em sua impressora 3D, com fidelidade e competência.
Finalmente, após longos anos de espera na fila da “pediatria”, devidamente recuperada ela exibe sua infantil elegância ao lado de uma centena de similares.

A PIC BIEN, é uma francesinha, foi adquirida de particular, em Curitiba e identificada por semelhança, através do Toy Sewing Machines, representada na página 72.
Estava completa, embora enferrujada e encravada, demonstrava condições de restauro.


Gravura da Pic Bien no "Toy Sewing Machines"


Antes de iniciar o desmonte

Na parte inferior da sua base havia uma antiga etiqueta de papel, com informações sobre a origem “Made in France”. Conforme relato na bibliografia consultada, o modelo foi exportado para a Inglaterra, sem citação de outros países. Possivelmente tenha sido trazida ao Brasil em bagagem.
Seu acionamento mecânico utiliza um eixo com excêntricos nas extremidades. O do volante movimenta o balancim superior por uma biela. O do outro extremo, sob a mesa, movimenta os dentes impelentes (que puxam o tecido) e o rotor que forma a alça do fio, formando uma costura em cadeia (uma alça prende a sequente, em série).



Nossa PIC BIEN, após o restauro

Após completamente desmontada, tendo suas peças oxidadas mergulhadas em desoxidante, depois de limpas e adaptadas (algumas estavam empenadas), foi remontada, com mecanismo ajustado e lubrificado. Seu corpo recebeu apenas um tratamento anti ferrugem e polimento, pois a pintura em tonalidade azulada necessitou apenas de pequenos retoques e polimento. 

Ambas passam a integrar o acervo de antigas maquinas infantis de costurar, já com mais de uma centena de exemplares.

Nesta postagem, uma merecida homenagem ao casal Mario e Christina, agradecendo pelo belíssimo regalo que nos ofereceu.
Eles compõem o restrito e distinto grupo que muito nos incentiva a continuar preservando estas preciosidades históricas.


 
A fidalguia se distingue entre os raros (DD2018)
Prof. Darlou D'Arisbo