sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Antigas máquinas de costurar infantis - Publicação 40

Nosso Museu de Antigas Máquinas Manuais de Costurar (MAMC) possui também um grande acervo de máquinas de costurar infantis, que eram brinquedos fabricados e dirigidos à meninas, (a partir dos 7 anos), tendo como incentivo desenvolver a imaginação e a criatividade para aplicação no cotidiano para quando fossem adultas.


Pintura educativa do início de 1900

Foram comercializadas, principalmente na próspera época da utilização das máquinas domésticas, entre 1880 e 1970, quando tais trabalhos caseiros eram necessários na confecção e manutenção das roupas da família, e também pela indisponibilidade no comércio e custo das prontas.

Catálogos ofereciam as maquininhas, dentre outros brinquedos:




As indústrias alemãs, entre o final de 1800 e início de 1900, situavam-se entre as mais desenvolvidas do mundo, e Dresden (capital da Saxônia) destacava-se também pelos muitos prédios culturais, exuberante arquitetura clássica, dentre palácios, museus, etc.


Indústria Clemens Muller em Dresden – Imagem gentileza Sewalot UK


No catálogo da Muller (1898), as opções citavam dimensões e peso.

Infelizmente, o extraordinário parque fabril de Dresden, que produzia as melhores máquinas de costurar do mundo, transformou-se em indústria bélica para atender a demanda militar e foi dizimado pelos Aliados em 13 e 14 de fevereiro de 1945. Ali, em dois dias, mais de cem mil habitantes perderam a vida, transformando a cidade em ruínas e aniquilando as indústrias e seus registros históricos. Hoje é praticamente impossível descobrir as datas de fabricação de antigas máquinas alemãs.


Dresden antes e após a destruição pela guerra

A história da humanidade possui algumas páginas negras, pois a destruição decorrente das guerras, independe de razões, disputas territoriais, doutrinas,... Excedem os interesses em bens físicos e rompem as sequencias evolutivas. As pessoas perdem suas origens, documentos, família, referências geográficas, nacionalidades, além do descomunal custo financeiro. E o êxodo provoca desequilíbrio mental e inúmeras patologias decorrentes e indiretas. Vejo que a humanidade ainda não evoluiu o suficiente para entender a infinita graça da paz.

As maquininhas infantis, atendendo às cobiçosas meninas, eram também produzidas por várias fábricas de máquinas convencionais, como a Muller e Casige (alemãs, que continuaram no pós guerra sob direção inglesa), Necchi (italiana), Singer e Delta S. C. (USA), Pic Bien (França), Fanconia (Japão), SEWnPlay (China), Vulcan (Inglaterra), Estrela e Martau (Brasil), e outras tantas que compõem o acervo de nosso museu.


Uma das coleções de nosso acervo

Assim, ao contrário da atualidade, onde os brinquedos limitam-se ao entretenimento virtual, pouco ou nada instruindo, as maquininhas despertavam e ensinavam, de maneira agradável e lúdica, canalizando as energias das crianças numa produção frutífera.


Atenção e coordenação. (Imagem gentileza Ana Caldato)

As meninas produziam roupas para as bonecas e até utilidades diversas para seu uso, admirando suas obras físicas, em ações tangíveis.
A atenção, controle, planejamento e compenetração conferidos ao ato de costurar, consistiam em ótimo aprimoramento para as atividades profissionais quando adulta, fundamentos úteis para toda a vida, fossem elas médicas, engenheiras, professoras, advogadas,... Além do desempenho da costura doméstica, cuja profissão de costureira era bastante dignificada.


Nosso acervo possui algumas ainda com embalagem original


Mesmo após décadas, despertam curiosidade (nossa neta, 2017)

Nossa oficina de restauro conserta e complementa estas peças históricas, visando sempre preservá-las da maneira que estavam quando em seu pleno funcionamento, mantendo todas as peculiaridades inerentes do uso. Assim, procura-se resguardar as características das pessoas (e atos) que as manuseavam e do ambiente na época de sua utilização.


Limpando uma pecinha após confecção e torneando a manopla.

Temos registros de máquinas que obtivemos em situação deplorável, quase irrecuperáveis, com mecanismo encravado, oxidadas, com peças faltantes e até despedaçadas. Outras chegaram com aplicações agressivas de jato de areia (proibidos por lei) ou produtos cáusticos, que deterioram suas frágeis partes.

Também as disparatadas “decorações” que condenam as maquininhas, extinguindo o caráter revelador de uma história.

Corpo da Casige 1942, alemã, sendo desmontada. E após o restauro.

Procuramos também preservar suas peculiaridades inerentes do uso, como bilhetes infantis escritos ou desenhados, marcas em embalagens originais. desgastes generalizados que revelam excessiva ou extensa utilização. Algumas foram imaculadamente preservadas como ornamentos em aposentos de meninas.


Sew Ette ZIgZag, na oficina de restauro e depois de concluída.

Estas maquininhas eram projetadas para propiciar atividades seguras, com sistemas protegidos de alcance à agulha, acionamento macio por manopla no volante, acompanhavam manuais fartamente ilustrados e até moldes para confecção dos trabalhos.


Manual da Litle Betty (USA)


Manual da maquininha Estrela (Brasil)

Produziam ponto em cadeia (apenas um fio), com regulagem de tensão da linha e de dimensão de ponto. Algumas com acionamento elétrico (pilhas), e outras, mais sofisticadas com pontos em zig-zag, permitindo acabamentos em bainhas e decorativos.


Outra coleção de nosso acervo

Nosso acervo conta com uma centena de maquininhas infantis de costurar, de várias origens, épocas e dimensões. Algumas sobreviveram a mais de um século, satisfazendo várias gerações e trazendo relatos curiosos, que ilustram e acompanham a história de várias delas.


Müller 1889 (indústria Friedrich Wilhelm Muller) Berlin.
A mais antiga de nosso acervo.


Müller 1900, curioso sistema mecânico com biela curva.
Foi encontrada no lixo, em Curitiba/PR.


Straco (Straus Company), distribuída no Brasil pela Estrela.
(a caixa de fósforos compara dimensões) 


Mirim, brasileira, cópia miniaturizada da Elgin (direita), com perfeição de detalhes,  
cores e funcionamento (caixa de fósforos compara dimensões)



Bambi 1961 brasileira, perfeita. Com estojo (baú) de madeira.

Algumas peculiaridades acompanham a história destas maquininhas e não devem ser ignoradas ou eliminadas, pois constituem elementos presentes. São ricos detalhes, reveladores de fatos cronológicos. As Casige e American Girl (abaixo) possuem inscrições identificadoras: foram fabricadas nas zonas ocupadas de Berlim, pelos aliados ao final da segunda guerra.

 
Casige 1946, fabricada na zona inglesa da Alemanha ocupada.

 
American Girl (Industria Delta) em 1947 na US zone, Alemanha ocupada.

 
S.M.J., francesa, 1920, com curioso sistema de acionamento por manivela,
patenteado por S. W. Muller em 1888.


Casige GESCH-M, fabricada na zona inglesa da Alemanha ocupada, em 1946.

Encerramos esta publicação, expondo algumas destas preciosidades, no sentido de incentivar à preservação destas maquininhas que tanto participaram da evolução das crianças meninas do início do século XX.
Também é de bom alvitre sugerir aos pais e mestres para que evitem permitir que estes pequenos administradores do mundo de amanhã mantenham-se hoje mergulhados no mundo virtual dos aparelhos eletrônicos, os quais produzem patologias mentais e atrofiam a musculatura das crianças.

Prof. Darlou D'Arisbo
10 de novembro de 2023





























quarta-feira, 29 de março de 2023

Schöne Deutsche Hundertjährige - Publicação 39

Em agosto de 2022, visitamos a pequena, bela e antiga cidade de Morretes, situada entre a Serra e o Litoral do Paraná, repleta de casarões preservados e restaurantes, que têm o saboroso "barreado" (carne cozida por 12 horas) como prato típico. Foi fundada em 1733, mas desde 1646 foi ocupada por mineradores e aventureiros, com a descoberta de jazidas de ouro na região.

Nos arredores da cidade, em aprazível pousada local, encontramos uma máquina de costurar Clemens Muller que, após perseverante “namoro”, logramos êxito e recebemos o apetrecho em doação. Fato que muito nos contentou.


Registro da entrega da Clemens Muller

Obviamente, a Clemens apresentava-se em lastimável estado. Estava emperrada, pintada de verde e, com uma horrível cicatriz na mesa metálica, decorrente de solda muito mal aplicada. Tal remendo se fez presente também em várias outras partes móveis da máquina, donde se concluiu que foi submetida a grave acidente de queda.


A máquina e sua feia cicatriz

Mesmo tendo verificado tal evidente imperfeição e imaginando as decorrentes, concentramo-nos na difícil desmontagem. Obviamente, seus eixos encravados, estariam também desalinhados, graças às soldagens desaprumadas.


Cicatrizes comprometedoras em vários mecanismos

Desistimos de encaminhar a mesa e as peças remendadas para o exímio torneiro mecânico que refez a solda em outra máquina (vide publicação 40), pois o risco pelo insucesso seria muito alto e o valor exorbitante pelo longo, perigoso e difícil trabalho.
Optamos por tentar fazê-la funcionar, mesmo com as horríveis soldas, parecendo queloides em cirurgias mal cicatrizadas.


Aos poucos foi sendo desmontada

Neste critério adotado, fomos conseguindo retirar suas peças móveis, mesmo que várias inutilizadas pelo simples deslocamento.


A difícil busca por peças similares

Os componentes inaproveitáveis foram substituídos por outros, (garimpados semelhantes) oriundos de reserva técnica, embora carecendo de fatigantes ajustes por torneamento, esmerilhamento, lixamento,... Seu corpo teve tratamento abrasivo e químico para retirar a inapropriada coloração verde.


Brocamentos para retirada de restos de parafusos

Nos parafusos endiabrados, que rompem e se negam a desalojar, tornou-se necessário perfura-los e realizar novo rosqueamento.


Execução de novas roscas


Rastreio do parafuso certo na miscelânea de inservíveis

Sempre que possível utiliza-se parafusos aproximadamente “semelhantes” aos originais, já que iguais (centenários !), evidentemente não mais existem. O trabalho de adaptação inclui busca, conferência de rosca, corte, torneamento (normalmente da cabeça), envelhecimento a fogo, e conferência.


Torneamento artesanal das cabeças


Seccionamento no comprimento ideal

Aos poucos a máquina foi sendo montada, conciliando partes adaptadas, num grande quebra-cabeças tridimensional. E dentre os sucessíveis triunfos, vários retrocessos para novas investidas.
Após realinhamento de todas as peças móveis e devidamente alojadas em seu corpo, colocados seus acessórios e recuperada sua base de madeira, nosso vetusto objeto retomou forma. Foi pintada em esmalte sintético preto.


A Clemens Muller, tendo resgatada sua altivez

Assim, restauramos mais uma Clemens Muller, que, embora sem continuar seu profícuo trabalho de quase um século, revela agora digna aposentadoria, numa postura heroica, como que apta a divulgar centenas de histórias de sua vida pregressa.

Afinal, eu concordo com as palavras da romancista, contista e cronista Heloisa Seixas: “As antiguidades possuem uma vida secreta”.

"Schöne Deutsche Hundertjährige" = Linda centenária alemã
Prof. Darlou D'Arisbo
29 de março de 2023












segunda-feira, 13 de março de 2023

Uma Clemens Muller ressuscitada - Publicação 38

Sempre que estamos em Curitiba, aos domingos, visitamos a tradicional Feira do Largo da Ordem. Ali, em pleno centro histórico da cidade, são montadas mais de 300 barracas, oferecendo os mais variados produtos, desde alimentação, lembranças, artesanatos variados, livros, antiguidad
É uma caminhada agradável, colorida e proveitosa, que ocupa vários quarteirões e, no mínimo toda a manhã. Imagino ser difícil percorrê-la sem adquirir algo útil e memorável.


Parte da Feira do Largo da Ordem - Foto: Fabio Dias PC/PR

Numa tenda, encontramos uma antiga máquina de costurar, marca Clemens Muller, em péssimo estado. E, analisando suas particularidades, observamos que deve ter sido fabricada no início do século passado. Estava muito oxidada (enferrrujada), com suas partes móveis encravadas e sem a parte inferior de apoio (madeira). 
Mesmo com tais flagrantes obstáculos, resolvemos por adquiri-la, após acertado o valor. 

Retornamos à nossa cidade (Toledo PR) e, ao descarregá-la, notamos mais um aborrecimento: havia uma fissura (trinca) em sua estrutura superior. Justamente a importante parte que aloja o eixo de comando horizontal e sustenta o complexo conjunto de eixos verticais.


A comprometedora fissura 

Ainda que comprovada esta desagradável constatação, o que culminaria no fracasso da tentativa de restauro, iniciamos o desmonte da máquina.
As dificuldades decorrentes da oxidação encontradas, não surpreenderam, pois temos meio século de batalhas vencidas no restauro destas idosas.
Seus parafusos encravados quebram à menor tentativa de torção, seus eixos estavam solidarizados por ferrugem, engrenagens com dentes quebrados, mancais enrijecidos por falta de lubrificação, etc. Obviamente a máquina esteve submetida a longas intempéries.


Retirada parte do mecanismo inferior


Sistema interno da fronte encravado

Mas nossa obstinação lutava contra a teimosia do conjunto. Muitas peças empenaram, outras quebraram ao serem retiradas. E, dias após dias, suas centenas de partes foram acondicionadas em potes, aguardando solução. Algumas foram descartadas e substituídas por doadoras (de outras máquinas similares rejeitadas), da reserva técnica.


Alguma peças em final de preparação

Assim, todas foram submetidas a tratamentos abrasivos, químicos, torneamentos, etc. Redimensionadas e adaptadas para seus futuros posicionamentos.


Muitas peças e parafusos estavam solidarizados por ferrugem

A citada estrutura superior, então já liberada das peças móveis, foi encaminhada a um suposto especialista em soldas, que a executou com péssima aparência e desalinhamento, tendo alteradas suas dimensões e impedindo a inserção do eixo horizontal.
E a tragédia final estava próxima; pois ao menor toque, a soldagem se desfez, apresentando sua expressa incúria profissional. O presumido técnico havia declarada sua incompetência naquele trabalho, pondo um fim a qualquer tentativa de recuperação. Renunciamos à exigência de reparação, pois ele que já havia exposto ali seus limites.


Rompida a execrável e frágil soldadura

Observe-se que a constituição do corpo da máquina é de ferro fundido, com baixíssima resistência. Este metal é uma liga metálica para fundição em temperatura mais baixa, comum aos objetos não submetidos a maiores esforços. Possui alto teor de carbono em sua composição, variando de 2,11% a 6,67%. Já o aço contém 0,01% a 2,10% de carbono, além de incluir outros elementos e têmperas térmicas.
Outra característica do ferro fundido é sua dificuldade de soldagem, pois o aquecimento desagrega sua composição, formando cementitas (Fe3C), com aparência de sólidas borbulhas (vesículas e vazios).


Vista interna da desastrosa solda

Enfim, o fingido profissional havia se declarado competente e nossa confiança foi infrutífera. Resignamo-nos a transformar o possível restauro em mais uma peça descartada, limitada a ser doadora de suas entranhas.

Porém, alguns dias após, uma tênue luz indicou um sobejo caminho: Um perito em soldas especiais (impossíveis) dispôs-se a executar a tarefa. Seria um trabalho quase inexecutável, pois, além de apenas soldar, necessitaria adicionar metal, realinhar vertical e horizontalmente. Uma empreitada de dias, intermitentemente, passo a passo, milimetricamente...
Acredito que os anjos ajudaram e o habilidoso técnico conseguiu bom intento. A soldadura não resultou linda, mas cumpriu perfeitamente suas finalidades mecânicas e o eixo horizontal pode girar livre e contente.. Com intervalados lixamentos e emassamentos, conseguimos que a aparência melhorasse bastante.


A soldagem, já lixada e com emassamento


Consertada a falha, com pintura parcial

A disposição e o otimismo então incentivaram a continuar a tarefa: prosseguir com o restauro da máquina, adaptando e instalando suas peças nos devidos lugares, com suficiente precisão para permitir os movimentos necessários. Muitos parafusos tiveram seus habitáculos broqueados e torneados. Várias peças foram adaptadas, oriundas de doadoras, mas com aceitável sucesso.


Parafusos encravados sendo refurados


Orifícios recebendo rosqueamento


Executados novos parafusos

A base de madeira foi executada, lixada e envernizada a partir de retalhos de madeira nobre e descartada, com perfeito encaixe suporte da máquina.


Base de madeira, suficiente para sua sustentação

O corpo da máquina foi preparado e pintado com esmalte sintético preto, com aceitável aparência para integrar o acervo do museu. Afinal, sua história singular destaca-se sobre a mera estética.


Ressuscitada, a Clemens Muller em pose faceira

Afinal, Clemens Muller, famosa indústria alemã, detentora da marca cujo vocábulo, originário do latim clássico, significa “clemência”. Algo como misericórdia, compaixão,... expressões que pareciam emanar desta antes abandonada nobre guerreira centenária, agora movimentando-se feliz.

Ao concluir esta publicação, manifestamos a justa homenagem ao Sr. Marcelo, técnico em soldagens que conseguiu o difícil intento de reconstruir o corpo da máquina com admirável competéncia. A ele, nossos agradecimentos.

Prof. Darlou D'Arisbo
13 de março de 2023